Ler é Perigoso

1. O Acordar do Rei: O gosto pela exposição pública

Decorridos mais de três séculos, o reinado do rei Luís XIV, o Rei-Sol, o mais longo de toda a história de França (1643-1715), continua a inspirar cineastas, romancistas, historiadores, documentaristas e ensaístas.

O poder político é antes de mais uma encenação, eis o que este Rei que acede ao trono aos 22 anos (1661) percebe desde logo. Assim, a arte da representação – na qual o décor sumptuoso do Palácio de Versailles detém o papel de “actor” principal, admirado por toda a Europa- é escrupulosamente trabalhada e a encenação exímia de todas as actividades da corte provocam os aplausos de todo o mundo. As palmas suscitadas pelo esplendor e fausto de Versailles ecoam pela Europa e engrossam a lista de curiosos.
O Palácio de Versailles (mandado construir em 1661 por Luis XIV, nele se instalando em 1682) é o seu Olimpo, do alto do qual governa a França com mão férrea e sábia. É considerado o autor da França actual- é no seu reinado que o Hexágono se define- e ainda o autor do Estado moderno.

Luís XIV é um filho dilecto do seu século, o século do Barroco: sabe perfeitamente que o mundo é um teatro e ele próprio é actor, músico e dançarino. O filme de Gérard Corbiau O Rei dança (2000) é uma pequena obra prima sobre este aspecto da vida de Luís XIV. Na gestão do seu dia a dia, nenhum momento é secundário e o quarto do rei torna-se o palco onde se representa, diariamente, uma das cenas mais simbólicas da corte: O acordar do Rei. De salientar ainda que na arquitectura codificada do palácio, o quarto do rei tem uma posição que nada deve ao acaso: situa-se no centro do palácio e está virado para o nascer do sol. Neste lugar sagrado decorre todas as manhãs a cena mais simbólica de um dia a dia rigorosamente orquestrado, tal música que não admite o mais pequeno improviso: o ritual do seu acordar.
O Acordar do Rei começa, pontualmente, às 8 horas. A ama é a primeira visita, seguida imediatamente pelo médico e pelo cirurgião que analisam as fezes e se inteiram de como Sua Majestade passou a noite. Segue-se a família. Depois é massajado e senta-se numa poltrona. Começa aqui a cena mais teatral deste momento matinal: uma multidão de mais ou menos 150 pessoas- algumas das quais vindas de Paris, depois de uma viagem de duas horas- atropela-se no quarto do Rei. Alguns apenas para poderem ser abençoados pela visão próxima daquele Deus na terra, outros para poderem fazer parte dos favoritos, outros para pedirem ao Rei algum favor.
Rezam as crónicas que o seu único momento a sós é o almoço, que saboreia no quarto. Versailles torna-se, no seu reinado, uma espécie de cidade sobrepovoada. Não nos surpreende, pois, que após 25 anos de reinado o Rei tenha sentido a necessidade de um retiro. Nasce, assim, o Grand Trianon que ele manda construir no parque de Versailles para poder gozar os prazeres da solidão campestre.

Uns anos mais tarde, em 1760, Luís XV manda construir no parque de Versailles o Petit Trianon para a sua amante Madame du Berry. Mas este pequeno palácio ficou na História associado a Maria Antonieta: Luis XVI oferece-o, em 1774, à sua mulher, nele Maria Antonieta passando a viver longe dos olhares indiscretos da corte. O rei almoça muitas vezes com ela, mas não dormirá nunca no Petit Trianon.
O Petit Trianon é também o resultado do novo gosto Neo-clássico, que começa a afirmar-se no século XVIII, impulsionado pela classe emergente: a burguesia. O gosto pela vida privada e familiar, o papel da educação são o apanágio desta classe que traz com ela uma nova sensibilidade e novos valores. Maria Antonieta, como se sabe, queria viver como uma burguesa na sua "casa de campo", entre amigos do seu coração e não impostos pela etiqueta e, caso invulgar numa rainha, vivia com os seus filhos, cuja educação ela própria vigiava com esmero.
No século XIX, com o Romantismo, o gosto pela vida privada consolida-se, incentivando a construção de  pequenos palácios onde se pode viver na intimidade. E podíamos dizer, como nos contos infantis, que o tempo foi passando, não havendo, nesta matéria específica, alterações substanciais até ao dia….

2. A sociedade do espectáculo e o fim da vida privada

Até ao dia em que surgiu no mundo a Caixa Mágica: a televisão. A tecnologia muda os nossos hábitos, mentalidades e sensibilidade e assim a televisão alimentou, desde logo, o gosto (congénito a todo o ser humano) de espreitar pelo buraco da fechadura. É, claro, um espreitar pelo buraco da fechadura do tipo de Versailles na corte de Luis XIV: no espectáculo entrevisto nada é fruto do acaso e os políticos sabem que têm nela um aliado que não podem subestimar.
Desde esses longínquos anos 50 do século passado até hoje, a explosão meteórica das novas tecnologias tem contribuído para alimentar a nossa tendência voyeurista , pilar da dita sociedade do espectáculo que o boum das redes sociais tem vindo a consolidar. Se com a televisão só os grandes deste mundo- políticos, actores, etc-, tinham o privilégio de serem notícia, com as redes sociais todos o podem ser. Todos podemos ser vedetas, actores, o centro das atenções, seguidos ou adulados por meia dúzia de amigos ou por uma multidão, isto não importa, o que importa é que a possibilidade de sermos admirado, vistos e ouvidos existe, igualmente, para todos.
Assim, nas redes sociais opina-se sobre tudo, a frio, a quente, não interessa, o que importa é opinar, mostram-se as fotos de família, os locais de férias, as flores do jardim e os cães e gatos que fazem parte da família, revelam-se fotos do álbum familiar de antepassados, fazem-se declarações de amor- entre pais e filhos, namorados, casais … O mundo inteiro parece ter desaguado neste grande rio das redes sociais.

3. Como explicar este Desencanto pela vida privada? Eis algumas hipóteses:

1. Será este um índice do “fim” (ou transformação) das classes sociais? O que significam hoje as palavras campesinato, burguesia e operariado? Talvez muito pouco (questão que merece, sem dúvida, um estudo atento). Pois as classes sociais parecem ter sofrido uma enorme mutação, assim como o mundo baseado nos seus códigos e normas rígidas. Pelo menos, o gosto da classe burguesa pelo seu secreto mundo privado parece não inspirar hoje um grande entusiasmo.

2. Teremos sido condenados à condição do Polegarzinho abandonado pelos pais na floresta e, receosos de não reconhecermos o caminho de regresso a casa, obrigados a colocarmos pedrinhas (fotografias e testemunhos) por todos os locais em que passamos? Ou pior, não já abandonados pelos pais mas pelos Deuses, tão sós, tão privados de vida interior, que precisamos de expor a parte mais pálida da nossa vida- a que se mostra- na esperança de que os Deuses se dignem a olhar para nós?

3. Ou será que é apenas um sinal da forma como se vive hoje o tempo? A correr impiedoso como tudo o que é veloz, exímio na arte de transforma o jovem de hoje um velho ultrapassado amanhã, não poderá estar esta correria  na origem destes actos desesperados que nos levam a colocar mais uma foto à tarde, mais uma amanhã de manhã, logo seguida de outra pela calada da noite, à espera, como náufragos, de sobrevivermos, de termos alguém, na praia entrevista ao longe,que nos dê uma mão e nos diga que sim, fomos heróicos e merecemos uma distinção.

4. Ou será que desejamos todos rivalizar com Luís XIV? Será que o triunfante mundo do espectáculo nos leva a imaginarmo-nos sentados num trono real de onde queremos ser endeusados? Esta hipótese tem algo de inquietante. É sabido que um dos hábitos de Luís XIV era a utilização da célebre chaise percée, a cadeira furada, que servia para o rei fazer as suas necessidades (já utilizada nas cortes há muito tempo).Trata-se de uma cadeira com um orifício circular que dá para um bacio. Luís XIV utlizava-a em público- segundo alguns como forma de mostrar o seu domínio e poder- quer logo pela manhã, ao acordar, quer nas reuniões com os seus ministros. Ali sentado com todo o à vontade fazia o que mais ninguém podia fazer por ele.

Se esta última hipótese tiver algum cabimento, será que vamos também ter direito a vislumbrar brevemente nas redes sociais a textura de alguns cocós dos amantes e dependentes da exposição pública? Pelo menos, se assim for, não cheira. Bendita tecnologia!

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