Ler é Perigoso

Vivemos … ou Existimos?

De Chirico,  O Grande Autómata, 1925

1. Viver/ existir/ Morrer
“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”, disse Oscar Wilde. Estamos vivos, mas do lado da existência, apenas, incapazes de tocar na vida, de a sentir, de a agarrar. Mutilados da vida, esse correr leve e solto, esse gosto do risco e da aventura, esse brilho nos olhos, essa crença em qualquer coisa, essa satisfação com as tarefas quotidianas, esse saltar da cama a cantarolar logo pela manhã. A existência será, pois, para Oscar Wilde, uma não-vida: condenados a passarmos ao lado dela, capazes, somente, de a aflorar ou de a sonhar, mas raramente capazes de a habitar. Pois para a habitarmos plenamente teríamos, certamente, de afastar o medo da morte, tarefa extremamente difícil. Se os encontros com a morte são muitos e diversificados, podemos, no entanto, agrupá-los em duas categorias principais:

1. A morte Real
Trata-se da morte dos outros. Em primeiro lugar, daqueles que nos foram próximos; em segundo lugar, daqueles que não tendo pertencido ao nosso círculo fisicamente próximo, tiveram importância na nossa vida.

2. A Morte Simbólica
Trata-se da morte dos nossos vários “eus” que foram ficando pelo caminho ao longo dos anos. Quantas vezes olhamos para trás e nos interrogamos: “fui eu que fiz aquilo, que pronunciei aquelas palavras, que me apaixonei por aquele homem? Que estranho! Não me reconheço!” Esta é a história de qualquer ser humano: ir deixando pelos caminhos surpreendentes da vida alguns “eus”.

Viver implica, pois, abandonarmos pedaços de nós na estrada do tempo, deixarmos que o tempo nos re-molde e nos transforme. Estas mudanças, mesmo se conduze  muitas vezes a situações mais felizes, são, não raro, vividas de forma dramática. Nas Confissões (397-398), Santo Agostinho (354 d.C.- 430 .d. C.) exprime-o de um modo belíssimo: enlouquecia sem perder a razão, morria sem perder a vida (Livro VIII).
Esta frase é dita num momento preciso: aquele que antecede a sua conversão ao cristianismo, um momento de terrível crise moral e de grande sofrimento interior, dilacerado entre o desejo de se entregar a uma vida religiosa e o sentimento de estar preso às cadeias (expressão sua) que o prendem à vida mundana e frívola.
No caso de Santo Agostinho, o drama moral vai ter um fim feliz: a Revelação, a Epifania, o encontro encarregue de dar o sentido que faltava à sua vida. Podemos imaginar que, para Oscar Wilde, existir seriá ter uma vida privada de direcção e de sentido.

Mas nem sempre estes sucessivos pedaços de nós, que vamos abandonando na estrada da vida, encontram a abelha capaz de os fecundar e transformar em flor.

É o caso da velhice: Viver muito tempo é perigoso. O meu tempo acabou antes da minha vida. Devemos morrer juntamente com o nosso tempo. Eis as palavras de Vassili Pétrovitch N., de 87 anos, um dos testemunhos do livro O fim do Homem soviético, de Svetlana Aleksievitch. Retrato breve e pungente de uma velhice dramática: olha para trás e vê que o mundo onde viveu foi reduzido a cacos. Sobreviveu para assistir a uma ruína! Este é o drama de quase todas as pessoas que testemunham neste livro, mesmo as que são muito mais novas do que Vassili Pétrovitch N: o mundo soviético foi reduzido a cinzas, de onde não brotou uma chama capaz de os alumiar. Serão, quando muito, como as chamas do inferno: ardem, mas não aquecem. A vida abandonou-os antes da própria morte. Existem, mas já não Vivem.

 Exactamente como o heróis do romance de Italo Calvino, O Cavaleiro Inexistente.

3. Cavaleiros Inexistentes engolidos por uma armadura
calvino2Escrito em 1959, este romance de Italo Calvino (1923-1985), conta a história de um cavaleiro muito peculiar do exército de Carlos Magno: Agilulfo- assim se chama ele- é um cavaleiro que não tem corpo. É imbatível, perfeito, exímio, irrepreensível, modelo de todas as virtudes, autor de infindaveis proezas, protagonista de inúmeras bravuras mas, como não há belo sem senão, este impressionante cavaleiro não tem corpo. Ele é, apenas, uma armadura, linda, branca, majestosa, mas nada mais do que um simples invólucro, uma embalagem sem nada lá dentro. Um cavaleiro que Existe, sem Viver.

Esta história é rica de peripécias e de aventuras, mas o que nos intriga desde as primeiras páginas é a existência deste cavaleiro, ou melhor, a sua não-existência. O que vemos nele? A privação de um mundo interior? O privilégio do visível, do que se mostra aos outros- uma belíssima armadura- o privilégio da exposição pública em detrimento da vida privada? O vazio incomensurável que se tenta esconder por debaixo de uma imponente armadura, bem chamativa, que o faça existir, pelo menos aos olhos dos outros? O exterior como atestado de existência- e de transparência (o branco) - em detrimento do mundo secreto e pessoal, feito de de uma gama variada de tons? A desvalorização deste mundo íntimo?

Como todos os grandes livros, as perguntas são muitas e as respostas variam. Como todos os grandes livros, exige perguntas que dão origem a outras perguntas. Assim, outras surgem, de imediato.
E qual a função da armadura? Para esconder dos olhos dos outros o vazio? Para se proteger da sua enorme vulnerabilidade? Precisamos também nós de armaduras vistosas para escondermos o nosso vazio, nos protegermos dos nossos medos ? Ou terá a armadura outras funções?

A sua função primordial é a protecção. Agilulfo, cavaleiro do exército de Carlos Magno, precisa, como todos os outros cavaleiros, de uma protecção. Mas nós, em que exército combatemos? Conheceremos nós, como Agilulfo, os nossos inimigos? Não, os nossos inimigos são mais vagos, imprecisos, difusos e, por isso, mais fortes. Para além daqueles que alojamos e engordamos dentro de nós, o rol de inimigos que nos é anunciado diariamente, atemoriza o mais intrépido: os terroristas, o sol que provoca cancro, o sal que mata o coração, o ar tóxico que estraga os pulmões, os alimentos contaminados que arruinam o estômago, o olho do big brother, a água poluída, os vírus que chegam de todo o mundo como exércitos prontos a atacar, os micróbios, os vários complots, os…

O que nos resta, então, senão enfiarmo-nos numa armadura, uma armadura bem resistente, capaz de barrar o caminho destes fantasmas, inimigos sem rosto preciso, incorpóreos, todo-poderosos? Lá dentro, pelo menos, estamos a salvo, lá dentro ninguém nos apanhará desprevenidos, pois é este o slogan ouvido, incansavelmente, do meio-dia à meia-noite: proteja-se, previna-se. E em vez de um gigante preservativo, deram-nos uma armadura.

E os anos vão passando e a rigidez forçada do corpo vai dando cabo das articulações, dos ligamentos, dos ossos...  pouco a pouco, o corpo esboroa-se, desfaz-se, apaga-se. Dele não brotará qualquer chama, nem as do inferno nem as do paraíso. Dele ficarão, apenas, ferros, parafusos, pedaços de uma armadura, triste prova de nossa Existência.

UM COMENTÁRIO NESTE POST To “Vivemos … ou Existimos?”

  • Diogo Cunha

    17 de Fevereiro de 2016 at 21:15

    Gostei.

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