Ler é Perigoso

Fernando Botero, Mulher sentada, 1978

1. Quando o cigarro era rei

BOTERO, FUMADOR

Fernando Botero

Nos Hospitais, comboios, restaurantes, aviões, estúdios televisivos, quartos, salas, salas de aula, salas de professores, cafés, não havia local onde não se fumasse. As igrejas eram a  excepção. Ainda bem que a missa era só ao Domingo e durava uma hora! Era ver os homens, ainda o padre não tinha pronunciado o ite missa est, a precipitarem-se para a saída, acenderem um cigarro e a entabularem logo de seguida conversas domingueiras, soltas como o fumo que deixavam correr. Para muitos, a maioria, era o momento sagrado da missa. À porta da igreja era uma algazarra, uma atropelo de conversas entre mulheres e homens, elas atentas às novas toilettes, eles de cigarro e olho aceso para todas as novidades, da política e do belo sexo. O cigarro era uma espécie de cachimbo da paz, um convite a uma boa conversa, a uma boa cavaqueira, momento de descontracção e de felicidade: a felicidade das pequenas coisas do dia a dia.

Mas o cigarro tinha outras funções: na preparação de um dia de trabalho, era uma companhia indispensável, um contributo para uma maior concentração, uma reflexão mais apurada, pois fumar exige sempre mini-pausas- inalar e expelir o fumo- que ajudam a concentração.

O cigarro era também uma ajuda preciosa nos primeiros encontros, de trabalho, sociais, amorosos (etc). Muitos começavam por um gesto: a mulher procurava um cigarro na carteira e o homem no bolso do casaco, depois perguntava-se ao interlocutor- fuma?- e aquele cigarro desanuviava o nervosismo dos primeiros momentos de um encontro entre desconhecidos. Nas situações de sedução era muitas vezes um amigo insubstituível: perguntávamos- fumas?- e ele aproximava-se, acendia o cigarro, havia tempo de o observar mais de perto, de o “cheirar”, e essa breve e rápida inspecção animalesca dizia mais do que muitas palavras. Depois, pelo ar subia o fumo do cigarro, ufano de promessas, em curvas e contra-curvas sugestivas pelo ar, contendo em expansão quimeras infinitas Que celebram o espírito transeunte dos sentidos, Como o âmbar, o incenso, o benjoim e outros ainda (Baudelaire, Correspondências).

Nesses momentos ninguém adivinha que a História é um longo matadouro (Hegel,1770-1831), que nesse matadouro dariam entrada muito em breve os fumadores felizes e que deles não sobraria mais do que um ser envergonhado, a fumar nas escadas de repartições, à porta de restaurantes, crispado, em promessas de acabar em breve com “este veneno”, Desastrado e mole o viajante alado/ Outrora tão belo e agora cómico e feio (Albatroz).

Mas será que existiu mesmo esse mundo de fumadores voluptuosos? Sem os filmes, os relatos literários e os relatos dos mais velhos, não saberíamos que existiu mesmo  uma época de homens sedutores de chapéu e de cigarro ao canto da boca e de femmes fatales a fumarem langorosamente o seu cigarro, em poses de diabólicas sedutoras. Pois na verdade, mesmo aqueles que fumam e se queixam das medidas austeras contra o cigarro, já não suportam locais de fumadores e terão até alguma dificuldade em ver nessas imagens do passado algo de poético.

A História, como sabemos, caminha sempre em múltiplas direcções e assim, se somos mais tolerantes a certos fenómenos sociais- aceitação das diferenças raciais, sexuais, etc- somos muito menos tolerantes a outro tipo de fenómenos, de natureza física: maus cheiros, dores, aspecto desleixado, etc. Este é um tema apaixonante : com efeito, a  maior tolerância dos dias de hoje tem vindo a ser acompanhada de outros tipos de intolerância decorrentes, essencialmente, da sociedade hiper-higienista em que vivemos. Será esta sociedade com bons olhos a volúpia?

2. Da Volúpia (Abandono)  à Sexualidade (Controlo)

Normalmente, associamos a ideia de volúpia a sexo. Nada mais errado. Atente-se à sonoridade das palavras: Volúpia- uma palavra que obriga a ser pronuciada com vagar- vo-lú-pi-a, doce, envolvente e redonda. Um convite aos prazeres que começam no ouvido como uma canção, entram docemente pela boca e se saboreiam lentamente, fazendo-os descer para onde têm de descer, ao gosto de cada um, embalados pela rainha das faculdades: a imaginação. Sexo, palavra curta, é seca, ríspida como uma faca, de som metálico,  áspera, fria, cortante, que não faz, como a palavra volúpia, crescer água na boca. Água, precisamente, pois é no mundo aquático, o da beleza calma dos rios que se expande o universo voluptuoso e erótico, tão celebrado pelos poetas. A contemplação do movimento da água - e do fogo (de uma lareira, por exemplo)- têm em comum a mesma função hipnótica que caracteriza a volúpia: não pensamos em nada, mergulhamos num esquecimento feliz,  absorvidos apenas pela contemplação, esquecidos de nós próprios, imersos num presente sem ontens nem amanhãs, num total abandono!

Quantos fumadores não sentem o prazer de fumarem pelo simples prazer do esquecimento que o fumo expelido provoca? Uma espécie de amnésia feliz, à noite na varanda, ou num passeio solitário, uma sensação de leveza, como se o fumo se encarregasse de levar para longe o que a vida tem de indesejável e os transportasse para o mundo do luxo, calma e volúpia: Minha irmã E muito querida Imagina quão doce seria partir Para uma terra estranha Fazer amor quando nos aprouvesse E depois desfalecer (…) Tudo seria apenas ordem e beleza Luxo calma e volúpia (…) Repara nos seus canais Como dormem seus barcos De natural vagabundo Viriam do fim do mundo Apenas para cumular teu mais íntimo desejo Dia após dia As cores do sol findo Cobrem campos canais e pátios Com luz cálida jacintos e ouro

O mundo por fim regressaria ao sono Na ordem e na beleza No luxo na calma e na volúpia (Poema Exótico Devaneio -Invitation au Voyage: a tradutora traduziu a palavra “volupté” por “prazer intenso”. Neste artigo, opto pela beleza da palavra volúpia).

Poema erótico, convite ao abandono dos sentidos, ele segue o ritmo balançado como uma viagem calma de barco, amena (luz cálida), sonolenta, que convida ao far niente, a um doce esquecimento. Numa sociedade que ameaça banir a volúpia  e mitifica o sexo  e o controlo- o ciclista pedala com um controlador de tensão arterial, o caminhante caminha crispado e tenso, agarrado a uma garrafa de água, cioso de saber quantos decilitros já bebeu, o gourmet não dá uma dentada sem se inteirar do número de calorias que o produto contém. o corredor leva no pulso um medidor do ritmo cardíaco- terá a volúpia e o erotismo ainda um lugar?  Daquela fumarada abençoada que dançava pelo ar a cada baforada, o que ficará? As trevas de que fala Baudelaire?

O cerco fecha-se Quando a terra se transforma numa prisão húmida E os morcegos batem nas paredes com as asas E com a cabeça nos tectos apodrecidos É mau sinal

A esperança desiste Quando a chuva cai revelando nas suas imensas bátegas Prados fechados à chave E um povo mudo de infames aranhas Que tece teias em neurónios e entranhas O cérebro informa Que sinos estão tocando à desabrida Lançando para os céus uivos de cortar à faca Que há espíritos apátridas errando Motivo por que gemem É natural (…) Spleen- (As trevas).

E ainda sobre Baudelaire, visite o GUIA de BORDO  

2 COMMENTS ON THIS POST To “A Volúpia do cigarro: espécie em extinção? (Baudelaire)”

  • Daniel Santos

    16 de Junho de 2014 at 18:17

    Boa tarde! Antes de mais os meus parabéns pela ideia que gerou esta página e também o seu conteúdo critico e informativo.

    Em relação ao tema abordado e as suas criticas, concordo e partilho na plenitude com tudo aquilo que foi aqui exposto. Não são poucas as vezes que me sinto um louco ao perguntar: “porque temos de ir passear num Shopping quando podemos ir à Foz com um tempo tão agradável?” Sinto-me claustrofóbico dentro destes grandes centros, novas residências de certo tipo de gente que nos olha de cima a baixo comentando com o restante grupo o que não combina ou mostrando reprovação a algum acessório mais ousado e fora de moda. Anda toda a gente obcecada em competir, mostrar ser melhor e ignorar a vontade própria. Ignorasse também valores mais importantes ainda como o da amizade e muitas vezes até valores familiares. É certo que é importante existir alguma preocupação com a saúde e neste caso com a forma como nos apresentamos, não podemos viver constantemente na vertigem, mas banir os “doces” da vida parece-me um exagero e atentado a esta própria. Para quê viver em constante rejeição do próprio prazer e sua vontade? Viver milésimos de segundo em sofrimento para depois mergulhar no abismo? Não faz sentido na minha forma de ver a vida. Mas a solidão assusta, é fria e aborrecida. No entanto, ceder a certo actos, embora tentador, tem altos custos custos a alguém com uma personalidade mais desenvolvida. Que resposta se pode dar a uma sociedade movida única e exclusivamente pela competição? Será correto agir e ir em rota de colisão com a vontade de outras pessoas, cometendo o mesmo crime que cometem a nós próprios? Se sim, o que se pode fazer? Quais são os resultados? Solidão? Gostava que respondesse a estas questões, colocando uma ultima mais importante a meu ver: não acha que o problema está nos extremos que se geraram na nossa sociedade? Pergunto isto porque grande parte das pessoas se estereotipa em nos extremos. O chamado preto e branco em doutrem do cinzento ou então dos Heróis e Vilões ao contrário dos anti-heróis. Talvez o meio termo seja uma boa forma de levar a vida e esteja ai a resposta para este problema.

    Obrigado e seguirei atentamente futuros desenvolvimentos da página.

    • Conceição Carrilho

      21 de Junho de 2014 at 17:28

      Olá Daniel, antes de mais obrigada pela sua leitura e comentário. Pede-me uma opinião sobre os extremos e pergunta se o meio termo será uma boa forma de levar a vida. Isto, a propósito deste post, em que a partir da questão do cigarro, referi como o mundo de hoje está a mandar para o exílio a volúpia e o prazer em nome da ditadura da saúde ( entre outros aspectos), da prevenção e do excessivo controlo sobre tudo o que fazemos. Referi, com efeito, que o “abandono” à vida está a desaparecer numa sociedade que apela a uma diária e obsessiva auto-vigilância. Parece-me isto uma doença grave, da qual seria bom nos afastarmos. Como, pergunta. Pois, como diz, através do equilíbrio. Uma boa imagem é o símbolo do TAO: duas cores, o branco e o preto, que não se opõem, mas interagem. Cada uma das cores ( e das partes) integra o seu oposto. Lembre-se da imagem: é um círculo dividido em duas partes iguais, não há linhas rectas. Isto é importante: não há estatismo, é deste círculo, deste movimento, que nasce a dinâmica da vida. Ora, o excessivo rigor da auto-vigilância a que nos obriga a sociedade actual, favorece as linhas rectas, a ausência de vida, o medo (da morte), a obsessão e a paranóia. Não sei se respondi à sua pergunta… será que consegui?

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