Ler é Perigoso

Paula Rego, 1996, Geppeto washing Pinocchio

Pin nariz  Falar do Pinóquio é evocar um nariz que, por sua vez evoca a mentira. O nariz do Pinóquio é uma ilustração proeminente da mentira, sinal evidente de que o ditado mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo tem o seu fundamento.

Se a imagem do nariz a crescer é um dos múltiplos achados do livro, o nariz do Pinóquio não se resume à mentira. Logo à nascença, antes mesmo de ter boca e poder falar (e mentir), o nariz dá logo um ar da sua graça, ao aumentar desmesuradamente. Feitos os cabelos e os olhos, Geppeto faz o nariz, mas, assim que o acabou de fazer, o nariz começou a crescer, a crescer, e em poucos minutos transformou-se num nariz que nunca mais acabava. E por mais que Gepeto se esforçasse para o cortar, ele persistia em crescer.

Será este nariz a crescer um sinal prematuro da rebeldia do boneco, do seu atrevimento, do seu gosto em meter o nariz onde não é chamado? Não sabemos; o que sabemos é que no momento da sua gestação, o nariz  cresce e este é desde logo o primeiro episódio intrigante de uma longa lista de surpresas com que Collodi (1826-1890), recheou esta história escrita em 1853. Uma história prodigiosa por várias razões, mas sobretudo por uma, muito especial: creio que o Pinóquio é um dos nossos sete gémeos espalhados pelo mundo. De acordo com um ditado siciliano que diz que todo o ser humano tem sete gémeos espalhados pela terra, é muito provável que o Pinóquio seja um deles..

Vejamos então as razões que justificam esta geminalidade:

1. Nascemos com vontade de meter o nosso Criador na cadeia (mesmo se  nem às paredes o confessamos).

Pin DesobedienteO primeiro berro do recém-nascido deve-se à abertura dos pulmões. A criança passa nove meses como um peixe na água (numa bolsa de água), onde vive em completa dependência da mãe, o sangue oxigenado passando pelo cordão umbilical. Depois, ao nascer, corta-se o cordão e a criança tem de respirar, pela primeira vez, pelos seus pulmões, que se abrem. O berro da criança é o seu primeiro sinal de autonomia: conseguir respirar sozinha, sem a ajuda da mãe.

Por isso a criança berra, grita, pois esta perspectiva aterroriza qualquer um: Respirar sozinho, andar sozinho (sem a mão da mãe), dormir sozinho, comer sozinho, sofrer sozinho, e a vida surge como um calvário pejado de dificuldades e de solidão. Quem aceita isto de cara alegre? Quem não teve o desejo de se enfiar, logo após o grito com que anuncia a sua (des)vinda ao mundo, de novo na bolsa de água e nadar para longe, num cardume de águas tépidas e calmas, em companhia amiga?

Isto sabia-o muito bem Pinóquio, o nosso irmão gémeo. Assim, o que faz ele à medida que Gepeto o vai concebendo? Rebela-se, claro, pois como pode ser de outra forma? Ainda a boca não estava acabada de fazer quando começou a rir e a fazer troça dele. Gepeto, furioso, manda-o calar, com a autoridade exigida por todo o pai criador, mas Pinóquio não se deixa ficar: então, a boca parou de rir, mas deitou a língua toda de fora. Gepeto, perante aquele atrevimento, percebe que zangar-se só vai piorar a situação, de modo que finge não dar por nada e continua a esculpi-lo calmamente. Faz o queixo, o pescoço, os ombros, o tronco, os braços e as mãos; mas ainda não tinha terminado as mãos quando Pinóquio lhe arranca a peruca da cabeça. Diz-lhe Gepeto, indignado: ainda não estás acabado de fazer e já começas a faltar ao respeito do teu pai. Com a obra em andamento sabe, no entanto, que terá de acabar o que para seu infortúnio começou. Faz então as pernas e os pés e mal acaba de fazer os pés Pinóquio dá-lhe um pontapé no nariz e desata a correr desarvorado pela rua, com Gepeto atrás dele, aos gritos: Agarrem-no, agarrem-no.

Aparece então um guarda que, perante aquele alarido, consegue fazer parar Pinóquio e entregá-lo ao pai. Nesse momento acontece algo de surpreendente: quando Pinóquo se vê agarrado à força pelo pai, desata a espernear e a fazer um tal berreiro no meio da rua, que o ruído atrai um grupo de gente que fica a assistir à cena. Para nossa surpresa, a multidão acaba por recriminar o comportamento de Gepeto, o que faz com que o guarda leve o pobre homem para a prisão e deixe Pinóquio em liberdade. Bem dizia Gepeto, quando esculpia o malfadado Pinóquio: Mereço isto! Devia ter pensado nisto primeiro: agora é tarde.

Pois merece, pensava Pinóquio, pois apesar de Collodi não nos revelar os pensamentos íntimos de Pinóquio quando viu o pai ir para a prisão, quem não os adivinha? Imaginamo-lo perfeitamente a pensar: "Ah, a vida é bela: umas boas fitas, um berreiro e uma choradeira na altura certa e a gente safa-se. E não venham cá com ameaças que eu não vou na cantiga, pois que alternativas eu tenho? Os adultos têm a mania de fazer o que lhes dá na real gana e nós é que pagamos as favas. Uns egoístas, todos, como o meu pai que afinal só pensou nele quando teve ideia de me criar, como confessou ao seu amigo Mestre Cereja, que eu bem ouvi, apesar de ele não me ter feito ainda as orelhas: pensei em construir um belo boneco de madeira; mas um boneco maravilhoso, que saiba dançar, fazer esgrima e dar saltos mortais. Quero correr mundo com esse boneco, para grangear um naco de pão e um copo de vinho. Pois agora dança p’raí na prisão, para aprenderes a lição". Por entre estes pensaentos e ufano com a sua proeza, regressou a casa onde, esfomeado, se preparou para se banquetear. Mal ele sabia, coitado, que

2. Quando queremos Trincar a Vida, ela põe-se a Voar e deixa-nos de mãos a abanar

Procura por todo o lado um pouco de comida mas a surpresa não podia ser mais trágica: esfomeado, correu logo para a lareira onde estava uma panela a ferver, e fez o gesto de destapá-la para ver o que estava lá dentro; mas a panela estava pintada na parede.

Pobre Pinóquio, mal ele sabia que a vida nos prega partidas indecentes como esta: quando nos preparamos para a destapar, meter o nariz lá dentro para a cheirar e depois saborear, afinal ela não existe, é tudo a fingir, uma miragem apenas! A vida,  uma sucessão de panelas pintadas na parede de onde sai um calor virtual!

Mas Pinóquio acabou de nascer, está cheio de ganas para viver  e não se dá por vencido. Vasculha a casa toda à procura de alimento, certo de que a vida não é assim tão cruel, apenas gosta, de vez em quando, de brincar connosco às escondidas. E encontra, claro. Não um alimento qualquer: Um ovo! (o ovo da sabedoria?): Nesse instante pareceu-lhe ver no monte de lixo qualquer coisa redonda branca que parecia mesmo um ovo de galinha. Num ápice, deu um salto e lançou-se sobre ele. Era mesmo um ovo. Doido de alegria, decide estrelá-lo. Coloca por cima das brasas da lareira uma frigideira e quando se dispõe a partir o ovo, nova desilusão o espera:

Porém, em vez da clara e da gema, saiu de lá dentro um pintainho muito alegre e cerimonioso que, fazendo uma linda vénia, disse:

-Muito agradecido, Senhor Pinóquio, por me ter poupado o trabalho de romper a casca. Até à vista, passe bem e dê cumprimentos lá em casa. Dito isto, estendeu as asas e, atravessando a janela que estava aberta, afastou-se voando até se perder de vista.

De boca aberta e as cascas de ovo na mão, assim fica o pobre e esfomeado Pinóquio.

A vida pregou-lhe mais uma partida: não contente em lhe servir panelas a fingir que o deixam de barriga vazia, nem o consolo de um ovo estrelado é capaz de lhe oferecer! Quem o poderá consolar? Pois se já com o ovo na mão e pronto para lhe partir a casca, viu sair de lá dentro um pintainho desavergonhado que se ficou a rir da sua cara! Com Gepeto na prisão, Pinóquio não tem ninguém que o possa ajudar a matar a fome. Mas é jovem, acabado de nascer, tem o sangue na guelra e fúria de viver. Por isso não desiste, mesmo se uns instantes depois o espera outra desgraça.

3. É difícil viver sem nos queimarmos de vez em quando.

Esfomeado, continua a procurar comida. Está uma noite terrível de inverno e apesar do medo, a fome é mais forte. Sai de casa à procura de alguma coisa para comer mas nada consegue arranjar, nem uma migalhita de pão, e depois de uma aventura funesta, desolado e vencido, regressa a casa encharcado e acaba por adormecer e enquanto dormia os seus pés de madeira pegaram fogo e, pouco a pouco, fizeram-se em carvão e depois em cinza.

Quando nos puseram nesta vida porque não nos avisaram que ao mínimo descuido nos podíamos queimar? E que desta prova não renascemos assim tão facilmente como Fénix? E com os pés queimados, como podemos nós erguermo-nos de novo para a vida? Por que razão não nos avisaram que a vida está cheia de fogueiras e de labaredas e que nem todas são as da paixão? E há ainda quem se espante que o Pinóquio tenha posto o pai na prisão?

Mas ele é muito novo, quer viver e acredita que há sempre uma solução. Entretanto Gepeto é libertado, volta para casa, tem compaixão do pobre filho sem pés e, claro, faz-lhe dois pezinhos esbeltos, magros e nervosos. Ei-lo agora pronto para a vida, mas atenção, já remendado. Aprendeu cedo o que o escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), disse um dia: mal chegamos a este mundo logo nos caem bocados. E que bocados! Logo os pés! E nem sempre temos por perto um Gepeto capaz de nos colar com um bocado de cola dissolvida dentro de uma casca de ovo.

 Com pés novos e cheio de alegria, promete a Gepeto comportar-se com esmero e ser um bom aluno na escola.  Mas o caminho da escola, como tantos outros caminhos, está repleto de tentações e Pinóquio ver-se-á envolvido em certas aventuras que lhe ensinarão que,

4. Para sobrevivermos temos de lamber muita bota

lAMBER BOTASQue tinha de passar fome, frio, fugir de perigos, chorar, arder nalgumas labaredas, ainda vá. Mas que teria de lisonjear a quem tinha vontade de dar dois tabefes, isso ele não pensava ver incluído no Kit Vida. Mas foi isto o que aconteceu. No seu caminho para a escola, sujeito à febre da curiosidade, Pinóquio não resiste em desviar-se do caminho para visitar o Grande Teatro dos Fantoches. Para poder comprar o bilhete de entrada vende a cartilha e entra no Teatro. Em cena estão Arlequim e Polichinelo que, ao verem Pinóquio na assistência, excitados com a presença do irmão boneco, criam um tal alvoroço  que interrompem a peça provocando a fúria do público. Trinca-Fortes, o director do teatro, um homem que metia medo ao diabo, de tão medonho e feio, irritado com a interrupção, decide puni-lo e anuncia que o irá pôr na lareira nessa mesma noite. Pinóquio, aterrado, implora perdão. Trinca-Fortes, que por debaixo do seu terrível aspecto tinha um coração dado à piedade, hesita e decide então trocar Pinóquio por Arlequim. Condoído com o destino deste, Pinóquio lança-se aos pés de Trinca-Fortes e suplica:

- Piedade, senhor Trinca-Fortes!

- Aqui não há senhores- respondeu com dureza o dono dos fantoches.

- Piedade, senhor Cavaleiro!

- Aqui não há cavaleiros.

- Piedade, senhor Comendador!

- Aqui não há comendadores

- Piedade, Excelência!

Ao ouvir que lhe chamavam Excelência, o homem dos fantoches fez logo um trejeito de vaidade e, tornando-se de repente mais humano e mais afável, disse a Pinóquio: - Pois bem, o que queres de mim?

Pinóquio salva, assim, a sua pele e a de Arlequim e compreende nesse momento que terá de lamber algumas botas para salvar a pele.

escola  Pois caso não estejamos dispostos a lamber as botas ou as barbas dos Trinca-Fortes deste mundo, sabemos que eles começarão de imediato A fazer estalar um grande chicote feito de peles de cobra e de caudas de raposa entrelaçadas umas nas outras,

Como está à vista, é difícil encontrarmos um gémeo tão verdadeiramente gémeo como Pinóquio. Mas as razões desta semelhança não se esgotam aqui.No próximo artigo veremos outras ainda.

 E sobre o Pinóquio, pode ler o que dele diz Italo Calvino, no  Guia de Bordo

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