Ler é Perigoso

Respire-se ainda o calor do verão. Os meus pais têm uns amigos do Alentejo a passar o fim de semana em Viseu.

Honrar amigos em Viseu com um bom repasto siginifica levá-los ao restaurante Cortiço, atracção, durante décadas, de turistas, viajantes, curioso e amantes de bons petiscos.

A reserva foi feita com a necessária antecedência e o que nos esperava surpreenderia o mais exigente gourmet.

Um verdadeiro desfile de pratos, cujo número já não recordo: vitelinha na púcara à moda de Cavernães, coelho bêbado, arroz de carqueja, morcelas da beira, cabritos, alheiras, um desfile principesco de iguarias que levou a mulher do casal amigo dos meus pais a desabafar: ora, se me dão licença, vou à casa de banho tirar a cinta, para poder comer à vontade.

A profusão de delícias desfilava acompanhada de uma sumptuosa apresentação: Dom Zeferino,  o dono do restaurante,  contador digno das Mil e uma noites, dissertava com trejeitos de poeta sobre a história de cada prato, a origem da receita ou, ainda, sobre uma  curiosidade qualquer  relativa à preparação de um determinado manjar.

Ai de quem não o ouvisse perfilado! Como todos os artistas, era exigente e quando por acaso eu e os mais novos esboçávamos o desejo de soltar uma gargalhada ou nos mexíamos na cadeira a mostrar o nervosismo de uma refeição tão longa, o nosso atrevimento era imediatamente punido com um olhar severo que nos petrificava na cadeira.

Exigia, quando cantava o seu fado culinário, ouvintes atentos e em êxtase.

O êxtase culminou na cena seguinte:

Chegava, enfim, o momento tão esperado da sobremesa! No momento em que eram pousados na mesa pratos de sonhos e as respectivas molheiras, o Dom Zeferino, nesse momento mais poeta-cozinheiro que cozinheiro-poeta, aproximou-se e exclamou com o rosto erguido e os olhos semicerrados:

E agora, deixem escorrer o molhos pelas mãos e lambam-nas, devagarinho, todas as gotas que escorrerem pelos dedos.

Descrever a cara dos meus pais e dos amigos, pessoas de uma geração em que certas coisas não se podem dizer daquela maneira, é tarefa para a qual não tenho talento.

Espanto, surpresa, uma tosse nervosa disfarçada por um esboço de sorriso, um incómodo visível perante um tão descarado convite à indecência, fatal num final de uma refeição bem bebida e apimentada e ainda por cima com uma ilustre senhora já sem cinta, todas estas reacções se tentavam reprimir por entre a litania do Dom Zeferino que continuava a murmurar- "Deixem escorrer o molho e lambam todas as gotas que virem escorrer”, de olhos já virados para o Além.

Era um artista, que sabe que um gourmet lambe as mãos de prazer, geme e suspira por mais, não consegue conter-se, refrear-se, deixar de lambuzar-se e, por isso, não precisa de colóquios, conferências e debates que lhe falem do DEVER de LAMBER