Ler é Perigoso

 

voyage auEscrito em 1932, este romance é considerado um dos grandes romances do século XX. Esta viagem ao fim da noite começa com o herói, Bardamu, a alistar-se na Guerra- a primeira Guerra mundial-, de onde partirá para um viagem por África e América, até se instalar em França, onde exercerá medicina num bairro pobre dos subúrbios de Paris.

Na tradição dos heróis pícaros, Bardamu viaja pelo mundo carregando uma mala que contém uma língua bem afiada de sentido crítico e de mordacidade, que se deleita em deitar por terra o estilo  “mélimélo ronron” ( expressão de Céline) e a visão do mundo a ele subjacente. Escrito nos anos trinta, este romance cáustico e profundamente original, abalou o meio literário francês.

Eis uma passagem da primeira parte, quando o herói é um soldado da primeira Guerra mundial:

Seria eu afinal o único poltrão sobre a terra?, pensava. E com que pavor! … Perdido entre dois milhões de loucos heróicos, à solta e armados até aos dentes? Com capacetes, sem capacetes, sem cavalos, em cima de motos, bramindo, em carros, sibilaando, em tiroteio. Conspiradores, voando, de joelhos, escavando, desfilando, caracolando por atalhos, detonando, metidos pelo chão dentro como numa cela, para daí tudo destruírem, a Alemanha, a França e os continentes, tudo o que respirasse, destruir, mais enraivecidos do que cães e adorando a própria raiva ( o que os cães não fazem), cem, mil vezes mais enraivecidos do que cães e muito mais sádicos! Estávamos bem servidos! Decididamente, acreditava que me tivesse metido numa cruzada apocalíptica.
Somos virgens no horrer como na volúpia. Poderia eu suspeitar deste horror ao deixar a Praça Clichy? Quem saberia prever, antes de entrar verdadeiramente na Guerra, tudo quanto esconde a alma sórdida, heróica e preguiçosa dos homens?
.
Sobre este romance, ver ainda, no blogue, o ponto 2 do “Percurso de vida”