Ler é Perigoso

OVÍDIO, METAMORFOSES

As METAMORFOSES  de  OVÍDIO  (Cotovia, 2007, Tradução de Paulo Farmhouse Alberto),

são a Bíblia mitológica da cultura Ocidental.
São, também, como o título sugere, um tratado das paixões humanas. Pois é sob o efeito das paixões que o homem se transforma: em besta, demónio, anjo, guerreiro, animal, planta, seja o que for.
Enquanto história das paixões humanas e das suas metamorfoses, é um tratado sobre os sentidos. Narciso e Medusa, são, em princípio, os mitos da visão, o nosso sentido número um.
Mas os homens são regulados por outros sentidos e, por isso, raramente os mitos estão sujeitos apenas a um deles.

metamorfosis narciso_Dali

Dali, Metamorfoses de Narciso (1937)

É o caso de NARCISO que é inseparável de um outro sentido: a Audição, representado pela ninfa ECO, que no mito de Narciso detém um papel fundamental.

Eco é uma ninfa extremamente infeliz, já que foi por duas vezes castigada. Da primeira vez, por Juno ( Hera, na mitologia grega).

Juno, com ciúmes de Zeus que sabia andar a cortejar as ninfas, decide espiá- lo. Eco, a ninfa tagarela, de forma a desviar a sua atenção, entretém-na com a sua tagarelice, conseguindo que Juno nada descubra.

Quando esta se apercebe da artimanha de Eco, decide puni-la: condena-a, então, a repetir as últimas palavras. Um dia, andando Eco a passear pelos bosques, avista Narciso que se tinha perdido dos amigos durante um passeio. Logo se inflama de amor e segue-o.

Narciso, ao ver-se sozinho e sem os amigos, grita por eles, palavras que são repetidas pela ninfa Eco. Narciso fica confuso, não percebe de onde vêem as palavras, Quando ele grita: “Anda para aqui, vamos”, grito que destina a um amigo, Eco, louca de amor, corre para ele e, para sua desgraça é por Narciso repudiada:

Tira as mãos de cima de mi! Antes morrer do que entregar-me a ti!
Repudiada, esconde-se nos bosques, e, com a vergonha, oculta o rosto na folhagem. E desde então vive em grutas solitárias. Todavia, o amor permanece e cresce com a dor da repulsa.
Os cuidados das insónias emagrecem o lastimável corpo, a magreza engelha-lhe a pele, e toda a humidade do corpo evola-se para os ares. Somente restam a voz e os ossos: a voz ficou; os ossos, dizem, tomaram o aspecto da pedra.

ECO é um duplo de NARCISO: a figura da repetição: A voz de Eco e o reflexo de Narciso na água são uma e a mesma coisa: o ser humano condenado à superfície enganadora do mundo.