Ler é Perigoso

NATHALIE SARRAUTE

NATHALIE SARRAUTE (1900-1999) Por tudo e por nada
Tradução de Jorge Silva Melo ( revista por Pedro Tamen)
Cotovia, Artistas Unidos

O amor e a amizade, porque lidam com emoções muito profundas, são vulneráveis e sujeitos a permanentes equívocos.
É este o tema da magnífica e imperdível peça de Nathalie Sarraute, no original pour un oui ou pour un non, que estreou em 1986, em França.
Começa assim:
Homem 1  Ouve lá…. Queria fazer-te uma pergunta…. Foi um bocado por isso que vim… eu queria saber… o que é que aconteceu? O que é que tu tens contra mim?
Homem 2  Eu? Nada… Porquê?
Homem 1  Sei lá… acho que estás distante…. Nunca mais deste sinal de vida…. Tenho que ser sempre eu….

E assim se dá início a um desfiar de recriminações mútuas, a um “lavar de roupa suja”, a um longo e interminável travar de razões,  a um processo que culmina de uma forma singular:

Homem 1 (…) O que é que tu achas…. Se se apresentasse uma queixa….
Homem 2 Não…. Para quê? Eu posso dizer-te tudo de antemão…. Já estou a ver o ar deles… (….) “E que tomem cuidado…. Que prestem muita atenção…. São bem conhecidas as penas em que incorrem aqueles que têm o desleixo de se permitirem assim, sem razão… Ficarão marcados…. Só com prudência é que nos aproximaremos deles, com a maior desconfiança…. Toda a gente saberá de que é que eles são capazes, de que é que podem ser culpados: podem cortar relações por tudo e por nada.
Homem 1 Por tudo… e por nada?
Homem 2 Tudo e nada?
Homem 1 Realmente não são a mesma coisa
Homem 2 Realmente tudo. Ou nada.
Homem 1 Tudo.
Homem 2 Nada!