Ler é Perigoso

Melville/ Vila-Matas

Bartleby é um MITO. Por que razão?

Porque neste homem habita algo de profundo a visceralmente humano: uma teimosia, uma recusa surda, mas tão desconcertante e inexplicável  que resiste a todas as tentativas de explicação.

A força dos mitos reside precisamente aqui: numa profunda humanidade- tocam algo de visceral e de inconsciente do ser humano- e uma igualmente forte "irracionalidade". E assim damos por nós a perguntar: mas quem é afinal este homem? Um depressivo, um louco, um homem apostado em desestabilizar o sistema ou, apenas, alguém que não se interessa por nada? Quem é ele, afinal?

Sabemos que é mais uma obra prima de Melville- o achado da frase preferia não o fazer é disto um exemplo- e que apesar de o autor nos ter dado algumas pistas no final do livro, elas estão longe de esclarecer o mistério desta enigmática personagem.

No final, o advogado- protagonista que narra a história-, diz-nos que após a morte do copista começou a circular o rumor de que se tratava de um
funcionário subalterno do serviço de Refugos Postais, em Washington, subitamente afastado devido a uma mudança admnistrativa. Quando penso no tal rumor, mal consigo exprimir as emoções que me avassalam. Cartas perdidas! Não soa tal qual homem perdido?

Seja como for, mesmo com estas informações, o enigma persiste. Quem é este homem? O que o move? Não sabemos.
Ainda bem que Melville não foi uma celebridade mediática como as dos tempos de hoje, para nos explicar por a, mais b e mais c o significado da história, a sua simbologia e, pior de tudo, a sua mensagem.

Escusado será dizer que, como mito, é uma personagem que tem marcado dramaturgos, cineastas, críticos e escritores.
vila matas

Destes, destaco um livro do escritor Enrique Vila Matas, (1948): Bartleby & Companhia, Assírio & Alvim, tradução de José Agostinho Baptista, 2001.
Trata-se de um ensaio dedicado a todos os bartlebys, esses seres nos quais habita uma profunda negação do mundo (….) a todos os escritores tocados pelo Mal, pela pulsão negativa.

No caso dos escritores, esta pulsão leva-os a renunciar, a certa altura, para sempre, à escrita: Juan Rulfo, Oscar Wilde, Kafka, Rimbaud, Maupassant, Robert Walser, entre outros, são analisados neste livro à lupa da ironia e profundidade características de Vila-Matas que aqui os desvenda ao leitor a partir do que ele designa o Labirinto do Não.