Ler é Perigoso

Fel: Duarte MatiasÉ precisamente este o tema do belíssimo livro de Marcello Duarte Mathias sobre Albert Camus.
Eis uma das frases de Camus que o autor coloca em epífgrafe: não temos tempo para sermos nós próprios; temos apenas tempo para sermos felizes.

Este livro de Marcello Duarte Mathias é uma análise rigorosíssima e apaixonante da obra/ biografia de Albert Camus e lê-se como um bom romance: a escrita flui, solta, cativante e envolvente.

Nascido na Argélia num meio pobre e popular, Camus nasce, de certa forma, um estrangeiro: nem francês (colonizador abastado) nem árabe.
Mas é desta infância que ele tira a força maior da sua vida/ obra: a propensão para a felicidade, como muito bem analisa Marcello Duarte Mathias:

garoto da rua, é na rua, de mistura com os outros pequenos da sua vizinhança, arraia-miúda de judeus, malteses, napolitanos, gregos, que a sua infância de rapazinho pobre se vai abrir desordenadamente à alegria de uma vida ao ar livre. É a primeira aprendizagem da liberdade, de uma liberdade total de criança, solta e nua (…) É também o primeiro contacto com essas manhãs transbordantes de sol mediterrâneo, cuja luz não mais se apaga lá dos seus olhos. E já, para ele, embora disso não tenha ainda consciência, o primeiro encontro consigo próprio. Encontro fecundo e definitive de que se lembrará mais tarde aquando da atribuição do Nobel: Nunca pude renunciar à luz, à felicidade de existir, à vida livre em que cresci.