Ler é Perigoso

Marcel Proust

swannEm busca do tempo perdido é um fresco da sociedade do século XIX, mais concretamente, a última década do século até 1922, data da morte de Proust.

A obra de Proust é sinónimo de arte do detalhe, fina e arguta observação, e gosto pelo pormenor. Qualidades raras numa sociedade célere, impaciente, subjugada pelo dogma da Utilidade e da Rentabilidade.
A segunda parte do primeiro volume, Um Amor de Swann é uma das mais impressionantes e subtis análises do ciúme. Todo o leitor é um leitor de si próprio, disse Proust, um dia. Sem dúvida, e ler este autor é viajarmos bem fundo na nossa alma, através da lanterna que ele nos oferece mal abrimos uma página do seu épico romance.

Na verdade, podemos lê-lo como um romance- um contínuo narrativo- mas também de uma forma solta, uma passagem aqui e outra ali, ao acaso. A sua riqueza é incomensurável e figurará, mesmo se há cada vez menos paciência e capacidade para o ler, como um dos mais estimulantes vozes da Literatura ocidental.

Diz HAROLD BLOOM ( O Cânone Ocidental,Temas e Debates, 1997, Tradução de Manuel Frias Martins) que a maior força de Proust, entre inúmeras outras, reside no seu poder de caracterização: nenhum romancista do século XX consegue igualar o seu rol de vividas personalidades.
Diz ainda que A Recherche rivaliza efectivamente com Shakespeare no poder de representação de personalidades. As personagens criadas por estes autores resistem a todas as reducões psicológicas.

Um romance que nos finais do Século XIX começava com uma frase tão prosaica- Durante muito tempo fui para a cama cedo- , só podia ser rejeitado como foi, até acontecer o que acontece com as grandes obras literárias: transformarem os seus leitores em leitores de si próprios, mais atentos, felizes e inteligentes.