Ler é Perigoso

Manuel Alegre

Como qualquer homem que sonha, António Valadares, escritor, não se pode queixar de monotonia. Ele tanto é recepcionista de hotel, taxista, vagabundo, guerrilheiro, actor de cinema, músico, um sem fim de personagens que saltam do sonho para a vida e desta para o sonho, que saltam dos livros para a vida e da vida para os livros. Pois a nossa vida é feita de muitas vida precisamente porque um sonho é feito de muitos sonhos, diz o protagonista.

Invejamos António Valadares, sobretudo o seu ménage à trois com Mercedes e o seu namorado de juventude, Felipe morto na guerrilha, Mas que ménage à trois, se Felipe está morto? Perante o espanto de António Valadares quando dá de caras com o morto, diz-lhe este:

- Que sabes tu dos vivos ou dos mortos? Há mais de trinta anos que passo as noites com Mercedes e agora vieste meter-te na cama com ela.
- Foi ela que pediu.
- Não me venhas com tretas, o que quiseste foi aproveitar-te da confusão para lhe dar umas fodas, mas a farra acabou, vais levar um tiro nos cornos para saberes o que custa pô-los aos outros ( p. 51-52).

António Valadares insiste em recusar-lhe o estatuto de vivo, mas acaba por perceber que, afinal, estar vivo ou morto não passa de uma futilidade, uma ninharia que nem sequer merece análise. Deixemo-la para os psicanalistas como Miguel Varela, outra personagem deste romance.

Morte e vida, sonho e realidade, lógica e absurdo, verdade e mentira, eis as duas faces desta comédia que é a Vida.
Uma vida-sonho no qual estamos presos e do qual nos queremos evadir. O problema é que nem sempre é fácil encontrar uma porta: Às vezes parece estar fechada e não dar para nenhum sonho.

Talvez porque quem a tem assim fechada é a Mão invisível dos poderes superiores, dos Mercados, a mão invisível que está a destruir a harmonia do homem com o homem (p.76).
Enfim, uma coisa é certa: se alguém pergunta como não morro, eu lhe responderei: que porque sonho. (p.61)