Ler é Perigoso

MACHADO DE ASSIS (1839-1908), autor de várias obras primas entre as quais O Alienista (1882) retrata, neste conto, de uma forma humorística, as consequências a que leva a ciência quando encarada como Verdade inquestionável, como Fanatismo.

O tema é a loucura. Simão Bacamarte, o protagonista, é um psiquiatra que se instala em Itaguaí, a sua vila natal, depois de estudar em Coimbra e em Pádua, com o objectivo de investigar a fundo a Psiquiatria, uma ciência que ele deseja que deixe de ser uma ciência oculta. Imbuído dos mais altos propósitos, cria a Casa Verde, instituição onde pretende levar a efeito a sua investigação.

Esta vila pacata que, como todas as vilas pacatas e sensatas, segue o velho ditado- “de criança e louco todos temos um pouco”-,  tinha até aí deixado os seus loucos em paz. Por isto, a ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.

Mas a Ciência pode muito quando se transforma em teimosia e assim o projecto vai para a frente. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Em pouco tempo Itaguaí está toda na Casa Verde e perante os protestos da população, Simão Bacamarte defende que a ciência era a ciência, e que ele não podia deixar na rua um mentecapto.

Deixo ao leitor o prazer de descobrir o desenvolvimento desta história recheada de aventuras e peripécias deliciosas, entre as quais a revolta encabeçada pelo barbeiro da vila contra a Casa Verde.

Escrito há mais de um século, Machado de Assis, grande visionário como todo o grande escritor, sabia que os Simãos Bacamarte deste mundo são todos iguais,  frios como um diagnóstico.