Ler é Perigoso

Gustave Flaubert

flaubertLidos passados uns anos, quantos romances nos decepcionam e maçam?
Não é o caso deste.
Porque este romance não se fica apenas pela existência do par Charles Bovary/ Ema. A política, o anti-clericalismo, a esquerda-direita, a província-capital, uma série de temas são aqui analisados à lupa, na tradição do grande romance do século XIX.
É sob o foco da vida na província que os seus contornos se precisam.
O músico Paole Conte afirma que na província os tipos humanos estão muito mais nítidos e que nas capitais eles se diluem e perdem tipicidade. Este romance dá-lhe razão. A província é sempre um microcosmos onde tudo adquire a dimensão da caricatura e, neste sentido, o talento de Flaubert, caricaturista de génio, exerceu-se aqui plenamente.

Não sem enormes esforços, claro, pois por entre as centenas de frases de Flaubert que ficaram célebres, uma delas tem a ver precisamente com a difícil redacção deste romance. Ao escrevê-lo diz que se sentia como um homem a tocar piano com bolas de chumbo nos dedos. E no romance Madame Bovary diz, a certa altura: a palavra humana é como um caldeirão rachado onde tocamos melodias para fazer dançar os ursos, quando se desejaria enternecer as estrelas.

O mais incompreensível nas centenas de histórias que este romance criou e gerou, é a do escritor Nabokov. A propósito de Anna Karénina (1887), que considera um esplêndido espécime de mulher, de uma natureza moral completa e notável, diz Nabokov que ela não é Emma Bovary, uma provinciana sonhadora, uma ávida meretriz que se arrasta pelos lares desfeitos e pelas camas dos amantes. ( posfácio a Anna Karénina, Relógio d’Água, 2006, Tradução de António Pescada).

Perplexidade! Bem, é a sua opinião, claro. Mas estranha, vinda do romancista que se conhece e do crítico exímio que foi.
Curiosamente, para todos os amantes desta monumental Anna Karénina, um dado é mais ou menos consensual: Anna está num pedestal de que só a paixão por Vronski a tirará. Só a paixão por Vronski a humaniza, de certa forma.

Ema Bovary está perto de nós desde o início, a perguntar-se, como nós, de onde vinha então essa insuficiência de vida? Pelas suas fraquezas, anseios e desejos de glória- por exemplo, a certa altura incita o marido a realizar uma operação invulgar a um rapaz com pés botos, de forma a que Charles seja finalmente Alguém- Ema é uma alma gémea. Pelo contrário, Anna Karénina, riquíssima, com nome, fama, beleza ímpar e prestígio, situa-se numas Alturas de que nos sentimos afastados.

Curiosamente, Flaubert chamou também nomes feios à sua heroína.  Não meretriz, mas puta, e por razões bem diferentes das de Nabokov. Aconteceu isto quando, às portas da morte, proferiu uma frase que ficou célebre ( mais uma): eu estou a morrer como um cão e a puta da Bovary vai ficar.

Genial, mesmo com a morte a bater-lhe à porta!