Ler é Perigoso

FLAUBERT

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contosflaubertA história de Félicité intitula-se Um coração simples; seguem-se outros dois contos: A lenda de São Julião Hospitaleiro e Herodíade. Este livro, Três Contos, foi publicado em 1877, um ano depois da morte da escritora Georges Sand ( 1804-1876), a quem este conto está profundamente ligado.

Entre George Sand e Gustave Flaubert nasce uma amizade que tudo indicaria ser improvável: os gostos literários, a idade, o estilo de vida.
Encontram-se pela primeira vez em 1857, no teatro, em Paris. Georges Sand tem 53 anos, Flaubert, 36. Acaba de publicar o sacrílego romance Madame Bovary e Georges Sand é uma das defensoras desta obra condenada pelo tribunal. Nasce ali uma grande amizade, testemunhada por uma correspondência de quatorze anos.

A ideia que cada um destes escritores se faz da literatura, tema de algumas cartas, difere muito. Flaubert, que detesta o sentimentalismo, pensa que o coração do escritor deve estar invisível na obra. Georges Sand recusa esta ideia, que considera abominável. Mas ao longo da correspondência trocada entre eles, Flaubert vai percebendo as razões da amiga e, assim, numa carta de 1876, diz-lhe que está a escrever um conto que ela vai certamente gostar. Escreve-o imbuído das ideias que Georges Sand lhe foi comunicando. Trata-se da história de Félicité, um “ensaio” sobre a bondade, uma bondade isenta de qualquer moral ou proselitismo.

Como se nesta obra, reveladora de uma mestria luminosa e concisa na arte da escrita, Flaubert tivesse conseguido recriar-se e superar-se, é a última publicada em vida do escritor, que morrerá 3 anos mais tarde.