Ler é Perigoso

ESMERALDA ODIAVA SER FOTOGRAFADA  ( ver em Romances Publicados) aborda, entre outras temáticas, a temática do conflito de gerações.
Eis uma passagem:

A revolução de Abril fez ruir as últimas barreiras. Entusiasmados com a marcha de um milhão de pessoas que em Lisboa se reunira para festejar o 1.º de Maio, espectáculo a que assistíramos, fascinados, pela televisão, o nosso espírito criativo passou a ser movido por um agudo sentido das responsabilidades: o mundo urgia ser mudado, fosse como fosse.

Como prova desta urgência, comprámos uma velha carripana, apesar de ninguém, no grupo, ter carta. Orgulhosos do nosso estatuto de fora-da-lei, passeávamos pela cidade em permanentes fugas excitadas à vista de boné de polícia, ufanos de estarmos na lista dos apontados a dedo, dos que nada temiam, dos que era óbvio estarem destinados a serem heróis.

O rio, desde a adolescência um dos nossos destinos de Verão predilectos, tornou-se, na época revolucionária, a nossa Paris tão sonhada, afinal local bem mais propício para vestirmos a roupagem hippie. E assim, no Verão de 1974, a velha carripana, toda desengonçada e emporcalhada, transportou-nos todas as tardes sem falhar às margens do rio Dão, de onde, antes mesmo do primeiro mergulho, nos lançávamos em discussões acesas sobre o projecto da verdadeira revolução, a única, a que corrigiria definitivamente os erros dos nossos progenitores. Pobres e inocentes adultos, a acreditarem num mundo ordenado onde cada coisa tinha o seu lugar! Quanta credulidade, quanta inocência! E apagávamos as centenas de ticas acumuladas pelo chão com a mesma raiva com que espezinhávamos as prateleiras da casa, de onde queríamos varrer, de uma vez por todas, a poeira do tédio, da rotina, do sacrifício, dos deveres e das obrigações.

No caminho de regresso, embriagados pelos juramentos de fidelidade à causa libertária, a cabecearmos de cansaço e de sonolência estival, a velha carripana esfalfava-se em seguir o caminho de curvas apertadas e, ao chegarmos à estrada principal, uma recta de alguns quilómetros, lá se aprumava e se erguia, refeita, guiada pela certeza de o machado potente da nossa rebeldia desferir, em breve, um golpe certeiro no mundo vertical e assente em mil pilares dos nossos progenitores e estender, aos nossos pés, um futuro repleto de emoção, destinado a tarefas gloriosas. Secretas, pouco claras, mas gloriosas.