Ler é Perigoso

Duplas irresistíveis

b e eUma das provas mais claras da incompatibilidade entre o romance e o fanatismo é a existência de duplas ao longo da já longa história do género. Curiosamente, o que vemos nestas duplas é a construção de uma amizade, e nunca o amor-paixão, tão perto tantas vezes do ódio, se as as coisas “dão para o torto”.

Estas duplas invadiram os écrãs. O êxito do filme Amigos improváveis ( 2011), deve-se a isto: o encontro de duas pessoas que nada predisporia a encontrarem-se e a tornarem-se amigos.

No registo dramático, certos filmes de Clint Eastwood como, por exemplo, Millian Dollar Baby (2004) ou o Gran Torino (2008), são também disto um exemplo: uma amizade improvável entre uma jovem aspirante a pugilista e um velho professor e uma amizade entre um velho reaccionário, veterano da guerra da Coreia e um jovem asiático. Este último é bem um exemplo da forma como esta inesperada amizade vai obrigar a mudar o velho reaccionário, que passará a ver nos vizinhos indesejáveis uns bons amigos.

O número dois é, pois, sagrado- Amos Oz, no livro Contra o Fanatismo, diz que o fanático só sabe contar até um- no que diz respeito à capacidade de pôr em evidência o diálogo, a troca de pontos de vista à partida divergentes, a partir de etapas muito marcadas: Primeiro, a desconfiança; depois a tentação de experimentar ser como o outro; finalmente, a rendição. Eis algumas das etapas que levam os pares a gostarem de estar juntos, a trocar os papéis, a zangarem-se apenas pelo prazer de se poderem reconciliar.

No seu Monsegnor Quixote, obra em que Graham Greene, (1904-1991) relata a amizade entre uma dupla também ela à partida muito improvável- um padre e um alcaide comunista- numa viagem alucinante pela Espanha franquista, diz a certa altura:

é estranho como partilhar uma sensação de dúvida pode aproximar os homens ainda mais do que partilhar uma fé. Um crente lutará com outro crente por uma diferença mínima, o que duvida só luta consigo próprio.