Ler é Perigoso

 

Livro_DQuixote11 Disponível em versão  ebook  ( em ROMANCES QUE ESCREVI).
SINOPSE

Adèle Ise, professora de Literatura, decide escrever um ensaio sobre o D.Quixote.
A sua paixão pela personagem criada por Cervantes vai arrastar a sua vida e a dos seus amigos Luciano, Malena e Joaquim, assim como o do seu psiquiatra, o Doutor Arlacau, numa aventura recheada de peripécias divertidas e, naturalmente, muito quixotescas.

 

PASSAGENS DO LIVRO:

Gostaria de dizer desde já que o livro que aqui vai é uma homenagem à literatura e ao seu mais fantástico “ponto de partida”: D. Quixote. Gostaria ainda de dizer que não se trata de um livro de erudição mas de paixão, isto é, um livro nada preocupado em averiguar a verdade de tudo o que vier a afirmar. Tenho por certo que as Universidades, utilizando as boas palavras do meu querido Cervantes

são verdadeiros antros de pessoas que suam as estopinhas em averiguar coisas que, uma vez postas a limpo e esvaziadas, não valem um caracol nem contribuem tanto como uma unha negra para enriquecer o entendimento.

Também podia utilizar as palavras de outro escritor, francês, L. F. Céline, quando afirma que as Universidades não passam des pots en masse, peu de confiture. Qualquer um deles falou bem e eu não saberia dizer melhor.
(...) O D. Quixote, apesar de ter sido escrito no século XVII, é-me tão familiar que quase poderia dizer que é o retrato da vida de todos aqueles que nasceram num mundo popular de empregadas, lavadeiras, jornaleiros, peixeiras, tudo misturado num tal emaranhado de histórias, que não há telenovela que lhe chegue aos calcanhares.

A minha família era uma tribo, dez irmãos, empregadas, primos, animais e toda uma louca vizinhança. Naquele tempo não havia televisão, problemas de impotência ou de disfunção e todas estas terríveis epidemias que vêm assolando o mundo de hoje. Os homens deitavam-se com as mulheres e não pensavam em nada. Diziam, apenas: “Vês lá em cima como o céu está estrelado?” ou então: “Reparaste como está bem quente a nossa lareira?” Aconchegavam-se mais e os filhos nasciam em catadupa. Às vezes também se zangavam, mas os filhos nasciam na mesma.
Agora deitam-se por entre análises médicas, ameaças dos venenos que comem, violadores de crianças e tudo o que a televisão lhes dá por certo. E perguntam: “Então, já fizeste a mamogra…?” ou qualquer coisa que acaba sempre em ia, ou às vezes, para variar, em ite, uma gastrite ou outras ites… E o amor, coitado, fica à espera de dias melhores, cada vez mais nas mãos de médicos e psicólogos. E os filhos nascem ralos, anestesiados de medo.