Ler é Perigoso

Collodi

Cavalo de Ferro, Tradução de Margarida Periquito-

CARLO COLLODI  (1826-1890), cujo verdadeiro nome é Carlo Lorenzini, foi um jornalista de sucesso em Florença, onde nasceu. Em 1860 adopta o pseudónimo de Carlo Collodi. Entre 1881 e 1883 publica num jornal pioneiro em Itália- Jornal para as crianças- a história do Pinóquio que se intitulava, aliás, História de um boneco. É na primeira edição do conto, em 1883, que o título actual se define.

Esta edição portuguesa, além de belíssima, com ilustrações de Paula Rego, tem um posfácio escrito por ITALO CALVINO (1923-1985), que dá conta da enorme riqueza deste conto, dos livros que inspirou e da sua originalidade no contexto da literatura italiana.

A propósito da fama universal alcançada por este livro e do desconhecimento total do nome do seu autor, diz Calvino:

Em tudo isto, o grande ausente é o senhor Collodi, como se o livro tivesse nascido sozinho, como o seu herói, de um pedaço de madeira, sem ter sequer um Gepeto que o desbastasse. Na verdade, quanto mais motivos de interesse encontramos em Pinóquio, menos curiosidade conseguimos sentir pelo autor.
Mas afinal não é essa a condição das obras-primas, ou pelo menos de muitas delas? A de atravessar um autor como se ele fosse um simples canal ou instrumento, para depois impor a sua presença autónoma ou o seu destino independentemente dele?

Estas considerrações lembram-me um desabafo do escritor Gustave Flaubert: eu estou a morrer como um cão e essa puta da Bovary vai ficar.
Pois é, a Criatura sempre se fica a rir do seu Criador. Como diria Gepeto: é muito bem feita, deveria ter pensado nisto antes.