Ler é Perigoso

Clarice Lispector

Este livro de 25 contos foi publicado em 1971.

A propósito do tema da rotina, não posso deixar de referir um dos contos: Come, Meu Filho.

Trata, precisamente, de uma das sagradas rotinas familiares: Paulinho, o filho, que faz tudo ( aqui conversa) para não comer e a mãe que o incita a calar-se e a comer. Paulinho fala, fala e começa assim:

- O Mundo parece chato mas eu sei que não é. Sabe por que parece chato? Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima, nunca está embaixo, nunca está de lado. Eu sei que o mundo é redondo porque disseram, mas só ia parecer redondo se a gente olhasse e às vezes o céu estivesse lá embaixo.

A criança diz estas coisas estranhas, mas tão luminosas, coisas que a mãe vai adorando ouvir, apesar do “come, meu filho e cala-te”.

Estas palavras do Paulinho dizem muito sobre o tédio da rotina: não será ela uma maldição perante a inevitável CHATEZA da terra? Pois que prova tangível tenho eu de ela ser redonda, amena e doce como tudo o que é redondo? Não andaremos de malas às costas pelo mundo fora à procura de mais Redondeza e de menos Chateza? À procura de um país onde o céu esteja mais à mão? Ou mais de lado, ou mais embaixo? Ou…

- Come, Paulinho.