Ler é Perigoso

Arturo Pérez Reverte

O tema da fotografia é um dos mais apaixonantes temas de reflexão desde o século XIX e por isso Susan Sontag, Roland Barthes, Philippe Dubois, Gisèle Freund e tantos outros teóricos se têm debruçado sobre ele.

A Fotografia presta-se a “tudo”: a  partir dela conhecemos a História, a Filosofia, a Estética, a Sociologia.

A História do Romance não tem sido indiferente a esta temática. Eis alguns livros que a abordam de forma cativante:

Calvino- Aventura de um fotógrafo

Michel Tournier- Os sudários de Verónica

Arturo Perez-Reverte- O pintor de batalhas

Assis-Brasil- O pintor de retratos

Fiquemos pelo livro de ARTURO PÉREZ-REVERTE (1951), escrito em 2006 (Asa, 2007, tradução de Helena Pitta).

Neste livro temos a história de André Faulques, repórter de Guerra que, após 30 anos de profissão e de uma grande desgosto de amor, decide trocar a máquina fotográfica pela pintura e isola-se numa torre com vista para o mar.

Um dia, recebe uma visita inesperada: a de um croata, Ivo Markovik, que anuncia estar ali para o matar. Por que razão? A fotografia que Faulques tirou dele, durante a Guerra da Croácia, dera a volta ao mundo depois de o ter feito ganhar um prémio. De modo que o soldado passou, sem querer, a ser famoso. E famoso num cenário de Guerra entre clãs rivais não é muito bom se se tiver o azar de cair nas mãos do inimigo, como foi o seu caso.

Ivo Markovik, sobrevive, depois de torturas e prisões e, após a passagem pelo inferno, decide vingar-se. Põe-se então à procura do fotógrafo, autor da sua desgraça. Quando o encontra e lhe anuncia o seu propósito, avisa-o que só o matará depois de saber muitas coisas a seu respeito. E é aqui que começa o romance numa grande viagem ao passado, onde vários temas são abordados, e, muito especialmente, o papel da fotografia.

Deixo ao leitor o prazer de descobrir o final do romance.

Paradoxalmente, só depois de ter posto de lado as máquinas fotográficas e de ter empunhado de novo os pincéis em busca da perspectiva- tranquilizadora?- que nunca conseguiu captar através de uma lente, Faulques se sentiu mais perto daquilo que durante tanto tempo procurou sem encontrar.

Hoje, todas as fotografias onde aparecem pessoas mentem ou são suspeitas, quer tenham texto, quern não o tenham. Deixaram de ser um testemunho para fazer parte da cenografia que nos rodeia.

A fotografia moderna, devido à sua própria perfeição técnica, é tão objectiva e exacta que frequentemente resulta falsa.