Ler é Perigoso

A arte do Romance

MILAN KUNDERA (1929) não é só um romancista mas também um autor de vários ensaios: A Arte do Romance (1986), Os Testamentos Traídos (1993), A Cortina (2005) e Um Encontro (2005).
O grande tema de reflexão que os une é o género ROMANCE.

Para Kundera, o estudo do ROMANCE é a forma mais profunda de conhecer a História da Europa:

 

 A história ( a evolução unida e contínua) do romance não existe. Há apenas histórias do romance: do romance chinês, greco-romano, japonês, medieval, etc. O romance a que chamo europeu forma-se no sul da Europa na aurora dos tempos modernos e representa uma entidada histórica em si que, mais tarde, alargará o seue espaço para além da Europa geográfica ( nas duas Américas, nomeadamente). Pela riqueza das suas formas, pela intensidade vertiginosamente concentrada da sua evolução, pelo seu carácter social, o romance europeu ( tal como a música europeia) não tem igual em nenhuma outra civilização. (p.168).

Pelo seu amor incondicional ao género ROMANCE, MILAN KUNDERA define-se não como ESCRITOR mas como ROMANCISTA. Para ele, a diferença é enorme e explica a razão  no discurso de agradecimento do Prémio Jerusalém, que lhe foi atribuído em 1985:

É como romancista que o recebo. Sublinho, romancista, não digo escritor. O romancista é aquele, que segundo Flaubert, quer desaparecer por detrás da sua obra. Desaparecer por detrás da sua obra significa renunciar ao papel de homem público. Não é fácil hoje em dia, em que tudo aquilo que tem um mínimo de importância tem de passar pelo palco insuportavelmente iluminado dos mass-media que, contrariamente à intenção de Flaubert, fazem desaparecer a obra por detrás da imagem do seu autor (…). Prestando-se ao papel de homem público, o romancista põe em perigo a sua obra que corre o risco de ser considerada como um apêndice dos seus gestos, das suas declarações, das sua tomadas de posição. Ora, o romancista não é porta-voz de ninguém e vou levar esta afirmação ao ponto de dizer que ele nem sequer é o porta-voz das suas próprias ideias (p.180)

Para Kundera, a obra é forçosamente mais inteligente do que o seu autor e, por isso, os romancistas que são mais inteligentes do que as suas obras deveriam mudar de ofício (p.180).