Ler é Perigoso

1. A Igualdade post-mortem
Perante as desigualdades deste mundo- entre abastados e remediados, afortunados e esfomeados, bafejados pela sorte e por ela abandonados- não falta quem exprima o seguinte desabafo: ”pois podes andar para aí todo inchado que vais acabar igualzinho aos outros, de pernil esticado, e aí não haverá nota de dollar capaz de te fazer ressuscitar”. Estes pensamentos redobram de imaginação criativa quando se está perante alguém que vive o seu estado de “superioridade” de forma ostentatória. “Canta pr’aí, canta, que te vai valer de muito quando deres o ultimo suspiro; nessa altura podes esganiçar-te todo que ninguém te valerá e para tua informação, mesmo se houvesse alguém disposto a dar-te uma mão, não seria capaz de te distinguir por entre milhares de outros mortais”.
Este argumento serve para atenuar as asperezas da vida. Como aquelas mulheres feias que, perante uma bela mulher logo anunciam que ela já não é nada nova, ou que tem umas pernas esquisitas ou um nariz demasiado cumprido ou um… e, informação preciosa, que um dia ela também deixará este mundo, exactamente como as mais feias.
Estes argumentos dão um jeitão: ajudam a esbater as barreiras da vida e a limar as arestas mais adversas em que ela é pródiga (e que temos tendência para viver como injustiças). Assim, os mais inconformados com um mundo em que, apesar de todos diferentes e todos iguais, somos bem mais diferentes do que iguais, encontram na ideia de uma igualdade post-mortem um certo conforto. Lá, nesse outro mundo, existe mesmo aquela utopia inventada pelos gauleses: a igualdade, a fraternidade e, quem sabe, talvez mesmo a liberdade! Lá, se nada nos garante que existe o Reino dos Céus, tudo indica que existe o Reino da Democracia igualitária. A prová-lo está o facto de ainda não ter vindo ninguém de lá para o desmentir, pois se houvesse um batalhão de insatisfeitos já teriam, naturalmente, manifestado o seu desacordo. Assim, tudo leva a crer que ela existe, nesse outro mundo, a perfeita e beata igualdade. E num mundo falho de crenças, acreditar nesta sociedade igualitária post-mortem é uma benção. Aleluia!

2. A igualdade in vita

Na verdade, estes crentes padecem de uma visão um bocadinho limitada da realidade. É natural, isto acontece a quem se consola demais de um presente ingrato com visões do além. Acaba por perder de vista o que o rodeia e a visão, desfocada, deixa de enxergar o óbvio: a igualdade existe e de que maneira, no mundo real! Ela está bem viva, vivíssima, apesar de se apresentar numa forma subtil e sub-reptícia. Habita um mundo especial em que todos vivemos algumas horas por dia e no qual, mal pomos o pé, integramos uma imensa comunidade de almas gémeas, tão gémeas, que não há quem as possa distinguir. De que mundo estamos a falar, perguntarão. Do mundo infinito e surpreendente do sonho:

O homem mais inteligente, mais rico e aparentemente  mais feliz sonha que está a ser perseguido e não consegue correr; sonha que vagueia na rua como um mendigo; sonha que, quando se prepara para começar a falar numa conferência internacional, da sua boca não sai uma palavra; sonha que está numa rua, quer andar mas não consegue sair do mesmo sítio; sonha que conversa com o avô desaparecido há anos; sonha que seres estranhos o empurram numa falésia; sonha que acorda sem dentes; sonha que foi para o trabalho de cuecas; belíssimo nadador, sonha que se afoga e apesar de se ter deitado em paz, quantas vezes acorda em sobressalto, a sonhar que a casa está em chamas. Também lhe acontece sonhar que voa, que está nos braços de uma beldade ou a navegar num oceano pacífico. Mas a maior parte das vezes anda em bolandas por entre um mar agitado de sonhos funestos e bizarros. Como uma avalanche, mal a sua alma se pousa na almofada, jorram sobre ele aventuras que lhe vêm lembrar a sua imensa fragilidade, a sua irreparável condição de ser acossado.

Houve quem dissesse que o sono é a antecâmara da morte. Pois podíamos dizer, também, que ele é o retrato mais fiel da igualdade entre os seres humanos. Sem defesas, entregues aos braços quentes de Morfeu, Deus do Sono, a posição horizontal faz ruir todas as barreiras e seja qual for a classe social, a idade, a língua ou a cor da pele, por algumas horas somos todos habitantes do reino da metamorfose, no qual o rico se torna tantas vezes pobre e o pobre rico, no qual  tudo se escangalha e se vira de pernas para o ar. Neste reino somos uma imensa comunidade de almas fraternas, ricos e pobres, fortes e fracos, corajosos e medrosos, belos e menos belos, inteligentes ou menos dotados, alegres ou tristes, no reino do sono somos todos sósias de António Valadares.
Mas quem é António Valadares?

3. Manuel Alegre: Tudo é e não é

manuel alegreÉ o protagonista deste delicioso livro, que podíamos definir como um divertido e imaginativo ensaio sobre o sonho Como qualquer homem que sonha, António Valadares, escritor, muda, a cada noite, de personalidade: tanto é recepcionista de hotel, taxista, vagabundo, guerrilheiro, actor de cinema ou músico, um sem fim de personagens que saltam do sonho para a vida e desta para o sonho, que saltam dos livros para a vida e da vida para os livros.

Como ele, estamos em São Petersburgo, Veneza, todas as cidades e nenhuma (…) O autocarro vai partir. Para onde também não sei. Mas vai partir. Desço à recepção. Já partiu. E agora há sempre o mesmo problema. A mala que não consigo fazer, o casaco que não encontro, o autocarro que se foi. Posso chamar um taxi- diz-me o tipo sem rosto da recepção.
Como ele, estamos num quarto de hotel não sei ao certo onde, talvez Paris, talvez Nova York
Como ele, estamos sentado, de pijama, ao lado de uma figura eminente, numa viagem oficial, ou a tocar guitarra descalços.
Como ele, dei por mim a voar. Voava por sobre os rios, talvez os de Babilónia.
Como ele, entro frequentemente nos filmes que marcaram a minha vida. Contracenei, nos sonhos do meu sonho, com muitos actores.
Como ele, estamos na praia mas não conseguimos chegar ao mar.

Como ele somos, igualzinhos a António Valadares; uma imensa comunidade de Antónios Valadares, prova de que a igualdade existe, mesmo se só numa versão nocturna. Alegrem-se, pois, os mais cépticos: um terço da nossa vida é passada no reino da mais absoluta e perfeita igualdade democrática. Ela afinal existe, tem é uma natureza morcega, a luz faz-lhe mal à vista, provoca-lhe miopia.

Mas se o sonho é o garante da nossa mais absoluta igualdade, para isto contribui um outro factor: disse Oscar Wilde que nascemos para reinar mas a maior parte de nós morre no exílio. E apesar de fazermos o possível e o impossível para suavizarmos esta condição primordial de exílio, apesar de recorrermos a uma série de máscaras  para fingirmos que somos reis em terra firme e bem nossa, o sonho vem lembrar-nos, noite após noite, este exílio ontológico (como diria Manuel Alegre, na Arte de Marear).

4. O sonho, exílio inevitável do ser humano

Se é verdade que o sonho gosta, de vez em quando, de se fazer anunciar com cânticos de alegria, o rosto que ele mais aprecia é o do chato apostado em nos enfiar em maus lençóis: António Valadares, como qualquer homem saudável, sonha muitas vezes com mulheres, frequentemente com actrizes, mas também com a mulher Mistério, que se assemelha, certas noites, a Ava Gadner:
estivemos já na cama muitas vezes, eu dentro dela a cavalgar, cavalgar, cavalgar (…) Mas nunca chego ao fim porque, aí está, quando tal se aproxima, o homem sem rosto entra no quarto. E então a magia acaba.

Morfeu escarrapachou na tela a palavra FIM ainda tudo estava inconcluído! Após uma noite turbulenta de coitos interrompidos, de autocarros que partiram sem nós, de malas que não conseguimos acabar de fazer e de outras tantas aventuras funestas, quantas vezes ele se ri com o nosso terror ao vermos que nos falta uma perna, um olho, os dentes, a voz! Acordamos aflitos  e corremos para o espelho à procura de conforto, de ali, pelo menos, nos podermos reconhecer tal como imaginamos que somos. Pois nesse momento dramático, quem ouvimos? Morfeu, que nos diz, sobranceiro: “Desiste, não vale a pena procurares-te. Olha-te bem ao espelho e diz-me o que lá vês. Pois é, é isso mesmo, um Homem sem rosto, tu próprio, isto é, Ninguém”. E, logo de seguida, condoído com o nosso desalento, acrescenta: “calma, não é caso para dramas, afinal Ninguém não é um qualquer. É Ulisses, o nosso irmão mais velho, o que andou a vida inteira com a mala às costas pelo mundo … ou pelo sonho, como quiseres, se é que Ulisses já não existia antes de Ulisses, antes de Homero, antes de nós, se é que Ulisses, afinal, não somos todos nós, desde que se viaja à volta do quarto.

Somos tudo e nada, António Valadares ou Ulisses, o herói grego que, para salvar a pele das garras vorazes de Polifemo, o monstro que se preparava para o comer, anunciou, de forma a camuflar a sua identidade, chamar-se Ninguém. Uma noite, ao regressar a casa, António Valadares encontra um vagabundo sentado à porta do prédio. Diz-lhe que não pode estar ali e responde-lhe o vagabundo:

- Discriminação de classe, para não dizer outra coisa.
Não me deixo intimidar, insisto com ele para que se levante e vá embora.
- Estou a ver que não me reconheces.
- Nunca o vi.
- Porque nunca te viste a ti mesmo. Olha bem para mim.
Ele levanta a cabeça e olha muito direito. Não quero acreditar no que vejo, aquele vagabundo tem a minha cara.
- Não estou a perceber- tartamudeio, incomodado.
- Pois não. Alguma vez te viste? Nem tu nem ninguém a si mesmo se vê. O espelho é uma traição. Como ter a certeza que aquele que vês és tu? A imagem está sempre ao contrário. O braço direito à esquerda. O esquerdo à dieita. O mesmo com os olhos e o perfil. É tudo um engano. Agora, sim, este que vês és tu.
- E quem é o senhor?
- Ele aponta para mim e diz:
- Ninguém.

- Morfeu, Morfeu meu, diz-me: afinal quem sou eu?
- És um parente próximo de António Valadares e agora cala a boca e deixa-me dormir.

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