Ler é Perigoso

Uma Aventura de Verão

 

1. Sair de casa tem os seus riscos

A vida é uma aventura permanente. Por isso, quando se sai de casa, nunca se sabe o que pode acontecer. Como é sabido, das quatro estações, o Verão, que nos empurra para fora de casa, é a mais pródiga em aventuras. Mas há aventuras e aventuras e elas tanto podem ser exaltantes como funestas. Na verdade,  apesar do canto da rola, do canto do grilo e das cigarras nos convencer que o Verão é uma sinfonia triunfal de acordes perfeitos, nela não faltam, por vezes, notas dissonantes. Sair do conforto da casa tem muito que se lhe diga e foi talvez por isto que o filósofo Pascal (1623-1662) disse que a infelicidade do homem deriva do   desejo em sairem do seu quarto. Palavras de um homem sisudo, claro, mas apesar de tudo palavras filosóficas se tivermos em conta a aventura funesta vivida pela senhora Isotta Barbarino num certo dia de Verão ( “A aventura de uma banhista” conto do livro Os Amores difíceis de Italo Calvino, Teorema, Tradução de José Colaço Barreiros).
Se ela adivinhasse o sarilho em que se ia meter teria meditado nesta sentença do filósofo francês. Mas o Verão não é amigo de filósofos sisudos que apregoam a vacuidade do mundo, a falsidade das relações humanas, a eterna corrupção dos governos e os perigos que se escondem por detrás de um dia de sol. O Verão não é uma estação para pessimistas mas para filósofos do tipo Pangloss, braço direito do Cândido de Voltaire (Cândido ou o optimismo, 1759), um optimista inabalável que defende que tudo está bem no melhor dos mundos e ponto final.
Mas a aventura da senhora Isotta prova que Pangloss disse muitas tolices, pois a verdade é que nem tudo está bem no melhor dos mundos. Imagine-se uma senhora muito composta que se mete no mar feliz com a perspectiva de um belo banho e que, no momento de regressar à praia, fresca e renovada, se apercebe que perdeu a parte de baixo do biquíni! Poderia ela ouvir as parvoíces de Pangloss sem reprimir o gesto de lhe dar um valente tabefe? Este tipo de filósofo é daqueles que dirá sempre, seja qual for a situação: se isto aconteceu é porque tinha de acontecer e por isso tudo está bem no mais perfeito dos mundos.
Pobre senhora Isotta! Pois, para ela, tudo estava mal no mar onde, desesperada, tentava encontrar uma solução para o seu drama! Tinha ido sozinha passar o dia à praia e não podia naturalmente valer-se de um familiar ou amigo. Ninguém conhecido que a pudesse ajudar. O que fazer?
Várias etapas vão assinalar este drama que decorre entre o meio-dia e o final da tarde e que por pouco não resultou numa tragédia.
A senhora Isotta começa por inspeccionar os banhistas, nadadores e os veraneantes que se passeiam nas gaivotas, à procura de um rosto caridoso que a encoraje a pedir auxílio. Nada fácil. Quanto mais inspecciona os rostos, mais intimidada se sente e as oportunidades de salvação passam sem que ela consiga sair do seu impasse. Dá-se, aliás, uma situação trágico-cómica: no seu exame atento dos homens, a ânsia estampada no seu rosto é tal, que eles vêem naquela expressão um convite suspeito, insinuações dúbias e os equívocos da troca de olhares atingem um ponto insustentável. A senhora Isotta sente-se perdida.
Decide então examinar as mulheres que passam perto de si a nadar, na esperança de encontrar alguém mais compassivo mas nelas sente uma agressividade que a demove. O tempo passa por entre inúmeros pensamentos e reflexões que, não a ajudando a resolver o seu problema, só contribuem para aumentar a sua angústia. No final da tarde, transida de frio, já roxa e em perigo de vida, a senhora Isotta é salva por um homem e pelo seu filho. Este, ao mergulhar perto dela com arpão e máscara, deu conta do sucedido, logo avisando o pai que foi buscar um saiote e assim salvou a banhista que levou sã e salva para a praia.

2. Aventuras/ Desventuras

Esta é uma das treze aventuras que constituem Os amores difíceis (A aventura de um fotógrafo, a aventura de um poeta, A aventura de um míope, A aventura de um casal, A aventura de um leitor, etc).
Treze aventuras reunidas num livro com este título poderia ter algo de intrigante. Mas como esta história da banhista o demonstra, vemos que no cerne de toda a aventura ou desejo de aventura não se agita apenas a Deusa Ventura mas também a sua rival Desventura. Por isso as aventuras são sempre amores difíceis, claro. Sobretudo aquelas, talvez as mais profundas, que levam o ser humano a mergulhar na sua profunda e irremediável vulnerabilidade. Este tipo de aventuras são em tudo opostas aquelas que nos impelem a desafiar rotinas e convenções das quais pretendemos obter algum sentimento de felicidade ou de glória pessoal, Ao contrário destas, as aventuras como a que viveu a senhora Isotta são de natureza interior e resultam de um desmoronar das nossas defesas e protecções habituais. São experiências que nos põem a nu, indefesos face ao olhar dos outros.

Como qualquer ser humano numa situação destas, a senhora Isotta passa por várias fases:

1.Desejo de fuga: Visto que o corpo a trai, a deixa ficar mal, a envergonha, ela precisa de se libertar dele, desejo impossível, claro: e atrás dela vinha sempre este ofensivo corpo nu. Era uma fuga do seu corpo que ela tentava, como de outra pessoa que ela, a Senhora Isotta, não conseguia salvar num transe difícil e já não lhe restava senão abandonar à sua sorte. Se somos, em princípio, proprietários do nosso corpo, a senhora Isotta descobre que, afinal, a consciência deste seu direito desaparecia no meio de antigos medos, na ameaça daquela praia gritante.

2. Medo do olhar dos outros: Ameaça não só de um olhar, mas das centenas de olhares que povoam a praia e que a julgarão certamente de forma errada, quando na realidade ela era uma senhora como deve ser e uma boa dona de casa.
Mas afinal o problema não residirá apenas no terror do olhar do outro? Olhar que nos acusa quando estamos inocentes, que exige que sejamos um corpo vestido e não nu, como se a nudez carregasse uma culpa impossível de erradicar. Porque aquela nudez que de repente lhe parecia como se tivesse crescido com ela sempre a aceitara não como uma culpa sua mas como a sua inocência ansiosa, como a fraternidade secreta com os outros, como carne e raíz do seu estar no mundo e eles, pelo contrário, os atrevidos das barquinhas e as impávidas dos chapéus de sol, que não a aceitavam, que lhe insinuavam como um crime, como um ponto de acusação, só eles eram os culpados. Não queria pagar por eles.

3. A Culpa: Mas será assim tão simples? Estará o mundo dividido em dois, entre a sua inocência e a culpa dos outros?  Não será também ela culpada da sua aventura funesta? Não teria sido demasiado ousada na compra daquele biquíni? Não teria ela sentido um ímpeto de libertação e de arrojo na decisão de usar um moderno biquíni? (Convém lembrar que este conto é dos anos sessenta e o biquíni é nesta altura uma novidade revolucionária). Não estaria, assim, a pagar este gesto de ousadia e de rebelião relativamente à sua pacata condição de dona de casa exemplar? Mas talvez aquele seu abandono balnear, aquele seu desejo de nadar sozinha, aquela alegria do seu próprio corpo dentro do fato de banho de duas peças escolhidas com demasiada ousadia, não seriam sinais de uma fuga iniciada há tempo, o desafio a uma inclinação para o pecado, as etapas de uma louca corrida àquele estado de nudez que agora lhe aparecia em toda a sua mísera palidez?
E porque no alto mar estes pensamentos brotavam das entranhas e a picavam com a força das verdades secretas, quando a senhora Isotta regressa à praia na lancha salvadora ela bem gostaria que a viagem ainda continuasse.

Imaginemos agora que este homem e o seu filho, adivinhando os seus pensamentos, a levavam para muito, muito longe. Neste caso sim, podíamos dizer, como Pangloss, que tudo está bem no melhor dos mundos. Hélas ...

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