Ler é Perigoso

Rubens, A queda de Ícaro

 O sonho de Voar

Marc Chagall

  Voar é um dos sonhos mais comuns a todos os seres humanos. Olhamos um conjunto de pessoas que dorme. O que as distingue, para além do físico? Quase nada. Muitas, independentemente da cultura, religião ou idade, poderão estar a sonhar voar. Ei-las que se levantam e caminham, e cada uma é já uma outra, distinta e única.

No imenso mar de sonhos de que a noite é feita, jazem sonhos vazios imitando formas várias, tantos quantos as espigas que a seara produz, as folhas que o bosque tem, grãos de areia atirados na praia. (Ovídio, Metamorfoses, Cotovia, 2007, tradução de Paulo Farmhouse Alberto).Uma destas formas é a do ser alado, o homem pássaro, o Peter Pan da infância ou o Super-Homem que tanto faz sonhar.

Para grandes proezas, dois pés não chegam, precisamos de asas. Assim, na mitologia grega, Perseu, o herói incumbido de cortar a cabeça da Medusa, é ajudado pelos Deuses nessa empreitada e por entre ajudas várias, é-lhe oferecido um par de sandálias aladas, que lhe permitirão realizar a façanha com sucesso.

O número de aficcionados do salto radical não pára de crescer. Quando se lançam do alto de penhascos, falésias e torres gigantes- como dois rapazes de uma torre do Dubai- o que desejam é igualar, por breves minutos, a condição de Ícelo, um dos muitos filhos do Deus Sono, que tem a capacidade de se transformar em animal selvagem, em ave, em serpente de longo corpo (Ovídio). Não é só a ambição do quarto de hora de glória o que move estes homens-pássaro, mas o desejo de ascenderem a uns escassos minutos de Divino: minutos de suspensão no ar, meio-deuses, meio pássaros, libertos das algemas que os prendem à terra, habitantes de um outro Reino, o Reino dos Sonhos, que lhes oferece, como a Perseu, sandálias aladas.
Lá de cima, eis o horizonte desprovido de portagens, buzinadelas, fumo dos tubos de escape, néons, semáforos; lá em cima, um horizonte livre enfim de sinais vermelhos e de todos os stops  que nascem na terra como ervas daninhas. Para quem gosta de andar de avião, à medida que ele inicia a sua ascensão, quanto peso para trás das costas, quanta negrura soprada para longe por Éolo, o Deus dos Ventos, quantas dúvidas dissipadas no vasto panorama aéreo!
Leveza, libertação, clareza, eis alguns eis sentimentos que animam saltadores, montanhistas, alpinistas e amantes de aviões.

Então, se assim é, por que razão o pânico do avião encabeça a lista dos pânicos? São muitas as razões. Arrisquemos algumas:

1. As mulheres estão no top da lista dos pânicos do avião

Antes de mais, temos um dado estatístico: as mulheres são mais sujeitas a este pânico. É muito mais raro nos homens e sem querermos cair na tentação das generalizações, a verdade é que a mulher, pela sua natureza biológica- gerar e dar a vida- é um ser muito mais telúrico. Para ela, deixar a terra é ser arrancada ao seu meio natural, uma espécie de rasgão, um corte com o seu meio de eleição: a terra e a água. Pelo contrário, o ar e o sol são os elementos da simbólica masculina.

Um outro aspecto terá, também, a sua importância: o homem é mais atraído pela tecnologia do que a mulher, e tudo o que esteja relacionado com as invenções e mecanismos tecnológicos, exerce nele um fascínio incomparavelmente maior do que na mulher.

2. Privação da liberdade espacial, claustrofobia

Presos num tubo que, ao mínimo sinal, ao mais pequeno estremeção, ao mínimo alerta, ao mínimo espirro anuncia uma valente conspiração de desgraças. A mesma sensação que se pode ter, em doses menos dramáticas, num elevador.

3. Imaginário Terrorista: o ser humano indefeso

Os aviões não são locus aemenus, mas uma espécie de locus horrendus: kamikazes, ataques terroristas, sirenes que anunciam bombas sobre a cidade (etc), os aviões, são um espaço valorizado pela negativa. Se os carros, os navios e os comboios são o décor ideal para um imaginário romanesco fascinante- presente na literatura e no cinema-, que nos leva a fazer milhares de quilómetros só para podermos realizar o sonho de uma viagem no Transiberiano, os aviões são quase sempre palco de enormes tragédias e nem algumas histórias de amor em filmes rosa passadas em aviões conseguem apagar o imaginário trágico que paira sobre eles. Assim, no local onde o homem se deveria sentir perto dos deuses, sente-se, afinal, reduzido à condição de formiga, pronta a ser esmagada sem perdão.

4. O sonho/ fascínio da Morte

A atracção pelas alturas não está isenta do seu reverso: o fascínio e a tentação da queda, o fascínio da Morte, um outro Sonho que dormita em todo o homem. O que explica (em parte), as vertigens: Um desejo e, ao mesmo tempo, um pânico de saltar. Um desejo de sucumbir ao fascínio irresistível do vazio, do nada, da morte. Os extremos tocam-se, esta é uma das leis da vida. Assim, no desejo de subir espreita o “desejo” e a tentação da queda. No fascínio das alturas está, mais vivo do que tudo, o fascínio pelo poder: poder do sobre-humano. Uma embriaguês, uma plenitude, um perder, a cada degrau subido, a sensação da pequenez humana, um ganhar, a cada degrau vencido, a noção de uma missão na terra: estar perto do divino, de Deus, lá nas alturas. E a embriaguês, de tão grande, entontece, dá vertigens.
Assim, por debaixo do corpo atlético que galga, célere, como se tivesse sandálias aladas, o escadório do triunfo- que o faz olhar, lá de cima, para os pobres mortais com a compaixão que merecem todos os que não conseguem passar do primeiro degrau- , jaz a sombra da morte: Ícaro

5. O Mito de Ícaro

icaro

Carlo Saraceni

A história de Ícaro é, como muitos outros mitos, uma históridedesobediência. Ícaro é filho de Dédalo, o arquitecto do labirinto de Creta, construído a pedido de Minos, rei de Creta, para lá esconder o minotauro, fruto dos amores da sua mulher, Pasífae e de um magnífico touro branco. Nele eram sacrificadas jovens atenienses e Teseu, um dos maiores heróis de Atenas, decidiu pôr um cobro a essa matança. Para isso, precisa de descer ao labirinto, matar o minotauro e, proeza nada fácil, conseguir sair de lá. Ariadna, filha de Minos, apaixona-se por Teseu quando o vê chegar a Creta e decide ajudá-lo. Com a ajuda de Dédalo, entrega-lhe um fio que fica atado a uma das portas da saída do labirinto. Teseu mata o minotauro – que, por sorte, estava a dormir-e consegue sair do labirinto através do fio (o lendário fio de Ariadna). Minos, sabendo da cumplicidade de Dédalo, decide vingar-se e fecha-o no labirinto, juntamente com o seu filho, Ícaro. Ao ver-se prisioneiro, Dédalo percebe que só tem uma saída: a fuga pelos ares. Constrói, assim, umas asas com penas. No dia da fuga, Dédalo avisa o filho: deve voar a baixa altitude de forma a evitar derreter a cera que cola as penas das asas. Mas Ícaro, deslumbrado com as alturas, esquece os avisos do pai, aproxima-se demais do sol, as asas derretem e ele cai.

Os mitos são narrativas recheadas de temas e peripécias, tendo todas igual importância. Neste, o tema do labirinto é crucial. Não esqueçamos que Ícaro acaba de sair do labirinto onde esteve prisioneiro e podemos imaginá-lo embriagado pelo ar puro, tão feliz, alegre, ufano de juventude e de confiança na vida que, naturalmente, esquece os conselhos paternos.
O desejo de voar, de subir muito alto- mais forte na juventude- é, pois, ainda mais forte quando se acaba de sair de um Labirinto. Depois de um tempo condenados a darmos voltas e voltas à vida sem vislumbrarmos uma saída, mal a encontramos a bebedeira pode ser tão avassaladora que queremos mais e mais brilho, luz só não chega e inflamados de luz, como Ícaro, caímos, para todo o sempre, no mar.

6. O Castigo da hybris

A hybris ( desmesura) é um dos temas centrais a muitos dos mitos gregos. Dédalo, construtor brilhante e engenhoso, aplica o seu talento a artes desconhecidas e revoluciona a natureza (Ovídio), criando então as asas que o farão sair do labirinto.

Mas quando se revoluciona a natureza, a factura a pagar pode ser elevada. O preço pago por Dédalo foi altíssimo. Quando saem, por fim, do labirinto, o pai apela Ícaro à virtude do meio termo: Voa a meia altura, Ícaro, recomendo-te, para que, se fores demasiado baixo, o mar não pese nas penas, e, demasiado alto não as queime o fogo. E quando se apercebe da tragédia, chama pelo filho: Ícaro, berrava, Onde estás? Onde hei-de procurar-te? Ícaro, gritava. Então avistou penas a boiar nas ondas. E amaldiçoando as suas artes, sepultou o corpo do filho num túmulo.

Icaro esqueceu que, se queremos dominar a natureza, temos de obedecer às suas leis. Dédalo esqueceu que há sempre um preço a pagar pelo progresso.

E este mito lembra-nos (entre outros aspectos) que a euforia que nos leva a aplaudir todas as invenções capazes de nos arrancarem do labirinto da vida- o labirinto do atraso, do medievalismo-, tem asas que, afinal, podem derreter a qualquer momento. Por vezes tem fúrias: cheias, tornados, tsunamis, sinais claros de que nunca o homem poderá vencer a Grande Deusa que reina no Olimpo: a Natureza.

E tal como no ateu mais convicto, uma tragédia inesperada lhe coloca nas mãos um terço e as ladainhas capazes de minimizarem os efeitos do “castigo”, assim, também, os que temem o avião, mal se sentam, ouvem a voz de Dédalo- voa a meia altura, Ícaro, recomendo-te. E quando vêem o avião engalanado nos cumes mais altos do céu, benzem-se em segredo e prometem ir a Fátima a pé se dele saírem com vida.

 

E ainda sobre o tema da  hybris, visite o Guia de Bordo

 

 

 

 

 

 

 

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