Ler é Perigoso

Europa, je t’aime

 

Botticelli (1444-1510) O nascimento de Vénus

1. Um sonho chamado Europa

Quando Neil Armstrong chegou à lua e viu a terra, achou-se pequeno, muito pequeno. Da Lua, o tamanho da terra era assustador. Mas se imaginássemos a possibilidade de ver a terra, não já da lua, mas de Saturno, seria exactamente o oposto: teria um choque ao ver a pequenez da terra. Tudo depende, pois, do ponto de vista.
Mas não só: tudo depende, também, do Tempo em que vivemos.

Quando era criança, o planeta terra parecia ter a mesma imensidão (não certamente tão angustiante) daquela entrevista, da lua empoeirada e cinzenta, pelo célebre astronauta. Com o passar dos anos e a canonização da Deusa Velocidade, a Terra foi ficando cada vez mais pequena. Os prodigiosos milagres operados por esta deusa desconhecida da Grécia antiga foram inúmeros e um deles, entre outros, assinalável: fez do nosso querido Phileas Fogg, o célebre herói do romance A volta ao mundo em 8o dias de Jules Verne, um ancião bolorento. Este inglês fleumático ficou conhecido por ter feito e ganho uma aposta arriscadíssima: dar a volta ao mundo em 80 dias. Isto passou-se no ano de 1873. Hoje, passados 141 anos, a viagem realizava-se em poucos dias.

Para mim, nascida numa pequena cidade de Portugal- e imagino que o mesmo se terá passado com tantos outros nascidos noutras pequenas cidades de outros países- o planeta terra era qualquer coisa de incomensurável! Pois se o nosso nosso próprio país, mesmo pequeno, como o meu, parecia imenso! Se ir a Lisboa era já uma Aventura! Tudo era longe, tudo era distante, e como tudo era longínquo e inacessível, a terra vivia envolta num manto de mistério e de magia. De belezas escondidas que desejávamos conhecer, um dia, mais tarde, quando fôssemos grandes. Um dia, quando fôssemos grandes e independentes, iríamos descobrir as belezas espalhadas pela Europa, de que tanto ouvíamos falar: as belezas de Paris, de Londres, de Roma de Veneza, de Amsterdão.

Aos nossos olhos jovens, a Europa tinha a imensidão de um sonho que nunca acaba, a magia de todos os El Dourados, o sorriso convidativo de uma bela barqueira desejosa de nos fazer visitar locais paradisíacos: os boulevards de Paris, os pubs de Londres, a Via Veneto, as gôndolas de Veneza, os canais da Europa do Norte. Paraísos que, como paraísos que eram, estavam ancorados sobre mitos poderosos, como, por exemplo, o de Paris dos anos loucos, da qual dirá um dia, já velho, o escritor Hemingway, a propósito da temporada que lá passou: nunca fomos tão pobres e nunca fomos tão felizes.

Viagem ao fim da noite ilustrada por Tardi

Como sonho, a Europa não era um território a que eu julgasse pertencer. Só na maturidade me senti europeia, facto estranho, pois no mapa, Portugal situava-se (e situa-se ainda, penso) na Europa. Mas nunca me senti europeia, sabia apenas que era portuguesa, algo também de indefinido, como é sempre a nacionalidade quando se é muito jovem. E Isto lembra-me uma história contada pelo historiador José Mattoso. Andava o rei D.Carlos nos mares do Norte de Portugal, quando encontrou uns pescadores, a quem perguntou: vocês são portugueses? E eles responderam: não, somos de Vila do Conde. Da mesma maneira, se me tivessem perguntado, em miúda: és europeia? Eu teria respondido como os pescadores: não, sou portuguesa.

A Europa era algo de demasiado grandioso, imponente e quando aos dezoito anos juntei uns dinheiritos e rumei a Paris, senti-me uma espécie de Gulliver quando chegou a Brobdingnag, à terra dos gigantes. Sobre essa minha chegada a Paris, poderia fazer minhas as palavras de Bardamu, o herói do romance Viagem ao fim da noite, de LF. CÉLINE (1894-1961), quando chega a Nova York. de barco.

Como surpresa, foi das maiores. Era de tal modo espantoso o que acabávamos subitamente de descobrir através da bruma, que recusámos, a princípio, a acreditar no que víamos e até depois, quando nos encontrámos bem à frente das coisas, não houve galeriano que deixasse de gozar um bom pedaço ao ver tudo aquilo, assim erecto diante de nós. Imagine-se que estava de pé, a cidade deles, absolutamente perpendicular. Nova York é uma cidade de pé. Tinhamos já visto cidades, claro, muito belas também, e portos bastante famosos por sinal. Mas entre nós as cidades estão deitadas à beira-mar ou junto dos rios, estendem-se pela paisagem, esperam o viajante, enquanto que aquela, a Americana, não ia em desmaios, não, mantinha-se toda empinada, ali, pouco disposta a carinhos, empinada de meter medo. Divertimo-nos como papalvos. Forçosamente tinha graça uma cidade assim construída para o alto.
Viagem ao fim da noite, tradução de Aníbal Fernandes, ed Ulisseia, 1983

Esta descrição é de 1932, num mundo entrevisto por um pobre tripulante de um navio que chega a Nova York vindo de África. Para mim, com dezoito anos passados numa pequeníssima cidade de um província portuguesa, em Paris fiz também figura de papalva, em êxtases de admiração perante uma cidade que me aparecia, também, construída muito para o alto, muito empinada e senhora de si.
A Europa era então aquilo, pensei! Parecia-me mesmo altíssima e não me cansava de a olhar, assustada e maravilhada, com vontade de a abraçar e receosa do gesto, por ela me parecer tão sobranceira e altiva por entre as suas belas pontes, talvez por eu estar a chegar de uma cidade de pedras e de granito sem uma única ponte, sem a hipótese de dizer, pela manhã: vou do outro lado do rio fazer compras!

2. E o sonho faz-se realidade!

Depois do 25 de Abril, a Europa começou a ficar mais próxima, com as negociações para entrarmos na Comunidade Europeia. Afinal, a nossa Identidade passava pela Europa e não só por outros continentes, como África, cujas estações de caminhos de ferro nos tinham obrigado a decorar na escola primária, como bons papagaios do Império Colonial!
Afinal, Já não éramos sós portugueses, mas também europeus. Em 2002, com a nova moeda europeia, já não havia lugar para dúvidas: pertencíamos, definitivamente, à grande família europeia. Os nossos filhos já não precisavam de nascer envergonhados por serem parentes afastados, em terceiro, quarto ou quinto grau da bela Europa. Esta parente afastada e finalmente ressuscitada, acolhia-nos nos seus braços!
E não só nos acolheu nos seus braços, como abriu os cordões à bolsa e entregou-nos uma fortuna, dizendo: construam estradas, escolas, universidades, hospitais, modernizem-se, tornem-se europeus.

O país mergulhou numa azáfama sem fim. Uma actividade frenética de modernização, um afã de, desta vez, não ir em desmaios e se empinar. O país desdobrava-se em projectos e a crença no sucesso era bem superior às dúvidas. Mas aconteceu o mesmo que acontece muitas vezes com alguém que, remediado, recebe de repente, de um parente rico, uma grande fortuna: perde a cabeça.
Por essa azáfama, rios de dinheiro eram desviados das rotas principais- educação, saúde, etc- para locais que não vinham assinalados no guia de instruções. E quando os desvios se tornaram desvarios e começaram a avolumar-se e a fazer entupir o curso natural do nosso rumo ao “sucesso”, começou a ouvir-se por todo o lado que a Europa estava esgotada, que não passava de um velho continente estafado, velho, caduco e ressequido. Que a Europa estava trôpega, asmática, doente! Que afinal, a Europa era o mal dos nossos pecados!
E não só portugueses mas muitos europeus que, todos em coro, começaram a deitar a língua de fora à Europa.

3. O Mito Europa à espera de se reinventar

deusaComeçaram os inquéritos, as avaliações, as investigações: mas o que se passou? Foi a corrupção? Foi a revolução tecnológica mais impressionste dos últimos séculos, que tem atirado para o desemprego um pouco por todo o lado centenas de milhares de pessoas? Foram as revoluções de ordem social, cultural, de mentalidades? O capitalismo selvagem?

NÂO. Foi a EUROPA, a Megera, o continente enlameado em teias de aranha, o novo Bode expiatório de tragédias gregas, portuguesas e outras…

Na mitologia, Europa é uma princesa fenícia de beleza ímpar. Um dia em que andava nuns campos à beira-mar, é vista por Zeus, o D. Juan do Olimpo. É amor à primeira vista e Zeus transforma-se então num magnífico touro. Europa aproxima-se, afaga o animal e, maravilhada com a sua brandura, monta o belo touro. Nesse mesmo instante Zeus levanta voo e leva a princesa Europa para Creta. Desta união união nascerão quatro filhos.

Talvez precisemos de mais ZEUS, por ela apaixonados e desejosos de a raptar, de europeus menos desgastados pelo discurso da Velha Europa, menos estafados pela idade que surge, traidora, e nos ameaça com o pior. Já não existe dentro de cada um de nós música suficiente para fazer dançar a vida, aí está (…) Para onde ir agora, pergunto, depois de não possuirmos em nós a soma bastante de delírio? ( Viagem ao fim da noite).

Será que vale a pena indagarmos sobre quem errou, sobre onde estará a verdade? Talvez só haja uma verdade: a Verdade que se encontra, se o quisermos, na nossa capacidade de ficção. Só se construirmos de novo uma ficção podemos (re)construir o mundo, a vida, a Europa. Não chegamos lá com mais relatórios de contas, com mais dados, com mais estatísticas nem com mais avaliações, mas talvez só com o delírio capaz de fazer nascer dentro de nós, de novo, a música suficiente para fazer dançar a vida e, com ela, a princesa Europa.

Disse TOLSTOI: se quiseres ser universal, começa por conhecer a tua aldeia.
Gostava de ser universal, de conhecer todos os continentes, as suas línguas e culturas. viajar pelas Áfricas e Américas, mas até novas indicações, dizem-me que só tenho uma vida.
Assim, para já, prefiro conhecer melhor e mais profundamente a minha aldeia bem-amada: a Europa das cidades deitadas à beira-mar ou junto dos rios e que se estendem pela paisagem à espera do viajante.

 E sobre o romance Viagem ao fim da noite, visite o Guia de Bordo

 

 

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