Ler é Perigoso

Caravaggio, S.Jerónimo

 1. EXPULSOS DO PARAÍSO.  

Todos gostávamos de ser únicos, insubstituíveis, indispensáveis. Se existe paraíso infantil, ele durará apenas o tempo abençoado em que a criança se sente o Deus da casa. Mas muito cedo ela aprende - com o nascimento de outro irmão ou qualquer outra experiência- que  não é única e que terá de partilhar o afecto e o amor dos seus progenitores. Ser expulso do paraíso da infância é talvez isto: aprender que não somos únicos, aprender a repartir o bolo afecto/amor/ reconhecimento, com outros, muitos, muitos outros.

 Quem teve a sorte de ter, à nascença, uma grande fatia do bolo, poderá partir para a vida menos ávido. Os que pouco ou nada tiveram correm o risco de andar a pedir esmola a vida toda e não há nada mais triste do que fazer da vida um longo peditório. No etanto, com uma fatia grande ou pequena, todos sabemos que fomos expulso do Paraíso.

Se todos o sabem, nem todos o aceitam. E uma profissão há que está no topo da lista dos que  recusam, com mais frequência, esta fatalidade: o escritor.

2. O ESCRITOR-DEUS 

Para se aceder ao estatuto de escritor, é necessário ser-se autor de uma ficção.Um escritor é, pois, aquele que cria, inventa uma ficção. A ficção materializa-se, normalmente, no género Romance (mas não exclusivamente), género que obedece a leis precisas: narra uma história- a Intriga- vivida por determinadas personagens (de uma a centenas, o número varia), que se desenrola num determinado Espaço (que pode também ser variado) e num determinado Tempo (que pode ir de um só dia a muitos anos ou séculos).

 Como criador de uma ficção, o escritor sente-se muito próximo do Criador, de um Criador que também ele, um belo dia, decidiu criar um grande Romance, com as suas Personagens- o homem e, de uma das suas costelas, a mulher (numa das versões)- num determinado Espaço- o jardim do Éden-, num determinado Tempo- ao fim de seis dias da criação do mundo. E assim, pela mão de inúmeros criadores cujos nomes se perderam na noite dos tempos, criou-se o maior Romance do Mundo, a ficção que nos guia há uns milhares de anos.

É talvez por isto que Aristóteles considera o Poeta superior ao Historiador: este, diz, limita-se a contar o que aconteceu; o Poeta, pelo contrário, narra o que poderia ter acontecido ou o que poderá acontecer. Só a ficção, partindo da experiência passada, pode (re)criar o futuro.

3. O  ESCRITOR-DEUS SEM LUGAR NO OLIMPO

Ora, se o prazer do Escritor-Deus consiste no seu seu gosto em Criar, nisto reside, também, o seu drama. Pois mal começa a criar, deseja sentar-se na cadeira do Criador e já prestes a sentar-se nela, o que vê? Que a cadeira já está ocupada. Procura um outro lugar no Panteão, mas estão todos ocupados. Todas as cadeiras estão ocupadas, a lotação do Olimpo está lotada. Quando, inconformado, protesta, ouve a seguinte voz:

- Mas olha lá, alguém te pediu para criares essas criaturas? Tiveste alguma encomenda especial, urgente, de alguém importante?

Esta pergunta deixa o escritor atordoado! Realmente é verdade, ninguém lhe pediu para criar coisa alguma, apenas a sua voz interior, uma voz persistente a que ele teve de obedecer!  E sem saber muito bem o que responder, balbucia:

- Estás muito enganado se pensas que as minhas criaturas não me pediram para existir. Pois garanto-te que me imploraram de joelhos.
- E o que te deu para atenderes a esse pedido? Não achas isso uma irresponsabilidade num mundo superpovoado, sobre-lotado de criaturas? Tu já viste bem os problemas que o excesso de população está a gerar no mundo? Não achas isso uma leviandade? Não seria melhor dedicares-te à agricultura, que tantos braços precisa?
- Mas as minhas criaturas são muito belas, únicas, originais, têm uma luz, uma chama, uma diferença que pode fazer mudar o mundo- responde, irritado, o escritor e ainda não tinha acabado a frase quando foi interrompido por uma olímpica gargalhada:
- Olhem só para este! Com que entãomais um defensorzinho do Monoteísmo! ”As minhas criaturas são únicas, belas…” ! Tretas, caro amigo. Isso é o que dizem todos quando aqui se querem sentar.Lá fora, é só bazófia: pluralismo p’ráqui e p’rácoli. Uns verdadeiros democratas, defensores acérrimos do Politeísmo. Mal chegam aqui, não sei o que vos dá, convertem-se, em segundos, ao Monoteísmo.
- Penso que não me entendeu bem, não foi isso o que eu quis dizer; o que eu estava a dizer é que há obras e obras e esta…
- Não me digas, é Única!
- É que eu estudei os clássicos, posso comparar e digo-lhe: este romance que acabei de escrever não é um qualquer, não é obra de um garoto, é fruto de muita maturidade, de uma longa experiência…
- Pior, pior, amigo, às tantas falta-te o fulgor da juventude; a experiência não prova nada, muitas vezes até atrapalha.
- Não concordo, não, não concordo, eu vejo a diferença! Hoje, já ninguém escreve como deve ser, hoje .... mas diga-me: não haverá por aí alguém que esteja prestes a reformar-se?
- Reforma, aqui? Pois é esse o problema, aqui ninguém se quer reformar! Quantos mais velhos, mais agarrados à posteridade… Lamento! Mas há males piores. E segue o meu conselho: dedica-te à agricultura.

Este candidato a Deus é teimoso. Não é daqueles que se dá por vencido, não desmoraliza com facilidade. Sonhou com o Olimpo e não desiste do sonho em morar nas alturas. Nunca gostou dos rés-do-chão, sofre aí de falta de ar. Sabe, também, que neste mundo global há Deuses para todos os gostos e Olimpos de todos os tamanhos e feitios. Visita outros Olimpos, bate a muitas portas, escreve cartas, emails, sms... A todos pede que atentem na sua voz única, merecedora de um trono imperial no mundo das letras. Até que  um dia recebe a Boa Nova: foi admitido. Entrou no Panteão dos Escritores! Aleluia! Célere, irrompe a vaidade: eu bem sabia que as minhas criaturas  eram merecedoras de apreço, eu bem sabia que a minha obra tinha rasgo, eu sabia que tinha um certo génio. A vaidade fá-lo gaiteiro e por vezes, coitado, até lhe esganiça a voz.
E os anos passam. Muitos anos.
Um dia, já velho e cansado, visita um museu. O primeiro quadro que vê é o São Jerónimo, de Caravaggio. E não vê mais nenhum, nesse dia. O quadro prendeu-o a um banco onde se sentou para o poder contemplar à vontade. Não sabe quantas horas ali passou numa muda e aflita contemplação. Preso ao banco, preso ao quadro, tem dificuldade em levantar-se, como se tivesse levado um valente bofetão na cara, como se uma rajada fria de vento por ali tivesse passado e feito cair, uma a uma, as penas das suas brilhantes plumas de genial criador. Quando deixa o museu, após longas horas de observação e de meditação, percebe que, afinal, está mais nu do que o santo tradutor da Bíblia.

4. UM VALENTE BOFETÃO: A VANITAS

caravaggioO que aconteceu? O que viu ele? Viu o São Jerónimo (347-420), na sua representação habitual: coberto apenas por um manto, sentado a uma mesa onde pousa uma caveira, concentrado a traduzir a Bíblia. Um típico quadro barroco, no seu jogo de luzes chiaroscuro.
Quem foi este santo? Depois de uma vida boémia de estudante, em Roma, e após algumas viagens, São Jerónimo retira-se para o deserto para dar início a uma vida de contemplação e de meditação. De seguida, decide aprender o hebraico e estudar a Sagrada Escritura, É ordenado sacerdote e, em Constantinopla, começa a sua longa tarefa de tradução da Bíblia. Ainda regressa a Roma para se tornar conselheiro do papa S. Dâmaso e depois da morte deste papa, S.Jerónimo regressa a Belém, onde se fixa em 386. Aqui, durante 30 anos, redige as suas obras e traduz a Bíblia para latim (a conhecida vulgata).

Este quadro insere-se num género pictórico que surge no século XVII, no período da Contra-Reforma: as célebres vanitas. Escolhem, de preferência, santos penitentes- São Jerónimo, S.Francisco ou Maria Madalena-, como símbolo da ascese e da libertação de todos os prazeres e vaidades mundanas. A presença da caveira faz deste quadros um memento mori. Inspiradas pelo Eclesiastes, o livro do Antigo Testamento que apela ao abandono de tudo o que é acessório, inútil e supérfluo, as vanitas são uma longa meditação sobre a vida e a morte.

Foto:AKG Berlin Teutonenstr. 22 / D-14129 Berlin Tel. 030-803 40 54 / Fax 030-803 35 99 Bankverbindung: Dresdner Bank Berlin BLZ 100 800 00 Konto 462732500 USt.Id DE 136 62841 AKG BerlinNuma célebre vanitas, de Georges de La Tour (1593-1652), vemos  Maria Madalena sentada com uma caveira no colo; as  jóias acabadas de tirar estão pousadas em cima da mesa,  onde está, também, uma vela e um espelho. No reflexo do espelho vemos apenas a luz da vela, a luz que passará a alumiar o seu novo caminho. Já não interessa, a Maria Madalena, ver-se ao espelho- para quê?- mas apenas ver a luz que lhe indicará o caminho a seguir. A imobilidade de Maria Madalena traduz a serenidade do novo rumo da sua vida.

O São Jerónimo de Caravaggio perturbou o escritor por uma outra razão, ainda: todo o escritor é um tradutor. Um tradutor de si próprio e do mundo que o rodeia. Teria sido ele um bom tradutor? Teria ele conseguido despojar-se de todos os colares e anéis da existência, de todas as vestes brilhantes, de todas as palavras vãs, de todas as máscaras? Teria ele sido capaz de escapar à tentação do brilho e  de sondar, bem fundo, a sua alma nua para  dela extrair toda a luz?

E sobre as vanitas, visite o Guia de Bordo

Deixe um comentário