Ler é Perigoso

Georges Seurat, Um banho em Asnières (1884)

1. Estará a felicidade ao nosso alance?  

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 Eu só quero ser feliz, eis o mais popular refrão que anda de boca em boca desde os tempos mais imemoriais sem sinais de  esgotamento. Nada mais natural, aliás, já que não é fácil encontrar reivindicação mais legítima do que esta.  Legítima,  sem dúvida, mas   vaga e abstracta e aqui reside o problema da sua definição. Tratando-se de algo subjectivo e variável, o que significará, em concreto, este desejo de ser feliz? O que alimentará o fervor com que se roga aos Deuses um pouco de felicidade?  Não será, sobretudo, o receio da infelicidade, o desejo de a esconjurar, de afastar do nosso horizonte a pobreza, a doença, o fracasso, a morte?

Talvez seja este receio fundo que nos leva, quando questionados sobre o que desejamos para o próximo ano, por exemplo, a responder: desejo ser feliz, mais felicidade para todos. Frase robótica, é certa, e que deixa sempre um ligeiro amargo de boca: assim expressa, a felicidade  assemelha-se ao balão colorido que as crianças puxam por uns instantes numa correria alegre e risonha e que a certa altura lhes escapa das mãos e desaparece no ar, deixando-as pasmadas e tristes. Outros dias deixa-nos aquele sentimento de  frustração típico dos jogadores semanais do euro-milhões, que vêm passar os anos por entre sonhos desfeitos.

 No entanto podemos contornar esta sensação de derrota. Se à questão o que deseja para o próximo ano, alguém responder de outra forma, por exemplo- ter a carta de condução, visitar Roma, ter mais um filho ou aprender inglês, aprender a nadar, visitar Nova York, etc,- estamos perante uma série de possibilidades de acção ao nosso alcance, capazes de proporcionarem bem-estar e felicidade.

 2.  Se quer ser feliz, evite certos clichés  

coca cola  À frase eu só quero ser feliz juntam-se outras, igualmente vagas como esta: eu tenho direito a ser feliz. Esta presta-se especialmente a uma série de equívocos. O que deixa subtender? Que se eu não for feliz não é culpa minha, mas de alguém ou de alguma entidade superior que me impede de o ser, me impede de usufruir desse direito. Desde modo, sem sabermos, sem querermos, sem o desejarmos certamente, estamos a cair na armadilha dos funcionários da felicidade, ansiosos por picar, todas as manhãs, o ponto da felicidade!

Mas a felicidade não faz parte dos direitos adquiridos. Se assim fosse, já teríamos assistido, certamente, a manifestações a reivindicarem a felicidade. E se isto ainda não aconteceu é porque o sentimento de felicidade tem uma particularidade que o distingue: trata-se, sobretudo, de algo profundamente subjectivo, pessoal, interior e para que se possa concretizar (apesar da sua fragilidade) exige da nossa parte um árduo trabalho de auto-conhecimento que nos permita conquistar, dia a dia, um pouco mais de autonomia e liberdade interior. Atingir objectivos, realizar tarefas que nos estimulam, ter bons amigos (etc), tudo isto é sem dúvida necessário para uma vida feliz. No entanto, sem um trabalho interior de fortalecimento do eu e de uma maior conquista de autonomia, é muito difícil lidar com os revezes da vida, com os seus problemas e os seus imprevistos dramáticos.

Mas o que significa esta liberdade interior? E como se poderá atingi-la? Sobre isto fala-nos Séneca na sua obra Da vida Feliz.

3. Séneca: não é porque a maioria está errada que ela tem razão

Da vida feliz (Relógio d’Água Editores, 2008, Tradução de João Forte).

Séneca (4a.C-65a.C), o célebre tutor do imperador Nero, foi um poeta, filósofo, dramaturgo político, um dos homens mais célebres e ricos do seu tempo. Profundamente marcado, desde a juventude, pela filosofia estóica, este texto é um testemunho desta influência.

Se a filosofia é a procura de uma arte de viver bem (philo-amor/ sophia-sabedoria), a filosofia estóica provou a sua eficácia em momentos difíceis da sua vida e, sobretudo, no seu fim terrível, ao ajudá-lo a encarar serenamente a ordem de Nero para se matar, quando o imperador, vítima de uma tentativa fracassada de assassinato, suspeitou de Séneca que estava, aliás, nessa altura já de alguma forma retirado da vida pública (desde 62 vivia nos arredores de Roma).

seneca e epicuro

É nesse período que escreve este texto onde expõe detalhadamente os princípios da filosofia estóica, que foi buscar ao fundador do estoicismo, Zenão de Cício ( 334 a.C- 262 a. C) e a Epicuro ( 341 a.C-270 a.C).

Viver de acordo com a natureza., eis uma máxima estóica que nos é muito familiar. Máxima que, no entanto, levanta muitas questões, pois a palavra natureza reveste, na filosofia estóica, muitos e variados sentidos. Um deles, o que nos interessa agora, está relacionado com a nossa natureza interior.

O preceito estóico mais importante tem a ver com a capacidade de forjarmos uma convicção interior- baseada num profundo auto-conhecimento- tão profundo que nos permita não sermos afectados por aquilo que os outros pensam de nós. No limite, temos esta situação: a sociedade acusa-me de um crime mas eu estou inocente. Se a minha consciência não me acusa, a acusação que impera sobre mim é-me indiferente ( exactamente o que aconteceu a Séneca).

Para um estóico, a felicidade é, pois, independente dos governos, regimes, situações históricas ou de qualquer outro tipo. Para Séneca e os pensadores estóicos, ela só é possível quando o profundo conhecimento de nós próprios consegue demarcar-nos da opinião da multidão, da maioria.

Começa assim, o texto Da vida Feliz:

Toda a gente, meu irmão Gallion, deseja uma vida feliz; mas quando se trata de ver claramente aquilo que a torna assim, é a confusão total. (…) É preciso, pois, começar por definir bem o objecto do nosso desejo, e examinar depois com cuidado o modo mais rápido de nos dirigirmos para ele; se a via é correcta, dar-nos-emos conta, durante a própria viagem, dos progressos feitos todos os dias, e da nossa aproximação de um fim para o qual nos impele o desejo natural.

Neste ponto reside o problema. Porque o desejo natural está muitas vezes obscurecido pelo desejo dos outros e defini-lo é uma tarefa épica. Mesmo se queremos sondá-lo, já não somos capazes, pois a vida dilui-o de tal forma na massa informe dos desejos da multidão, que já nem sabemos nem quem somos, nem o que queremos. Por isso, diz Séneca:

enquanto errarmos por aqui e por ali sem guia, obedecendo aos rumores e aos gritos discordantes dos homens que nos chamam em direcções opostas, usaremos uma vida que os nossos enganos tornam breve (…).

Escolher um bom guia é, pois, fundamental, já que a vida não é uma viagem qualquer; a viagem da vida, diz Séneca, difere das outras ao não ter nenhum trajecto previamente traçado, sendo assim enorme o risco de nos perdermos; assim, o guia deve ser criteriosamente escolhido: mas como sabermos que estamos a fazer a escolha certa? Para o encontrarmos, o melhor, diz Séneca, é fugir da multidão:

A primeira a coisa a fazer é não seguir como uma ovelha, o rebanho das pessoas que nos precede, pois nesse caso encaminhar-nos-íamos, não para onde é necessário, mas para onde vai a multidão. Nada nos arrasta mais para grandes males do que a conformação à voz pública, o pensar que o melhor está ligado ao assentimento do grande número, de tal modo que vivemos, não de acordo com a razão, mas por espírito de imitação.

E atente-se nesta saborosa imagem que nos dá Séneca do caminhar na multidão:

Daí resulta este amontoado de pessoas que desabam umas sobre as outras. Um tal estado de coisas surge quando os homens estão demasiado apinhados, e se comprimem, e se comprimem mutuamente, e ninguém cai sem arrastar o outro na sua queda.

Voltando aos nossos desejos e votos diários de felicidade, não estarão as frases que pronunciamos todos como carneiros a desabar por cima de nós, a apinhar-nos, a comprimir-nos, a evitar o verdadeiro segredo da felicidade, que consiste, segundo Séneca, em preferir um bem que possa sentir a um bem que possa expor? 

Assim se entende a resposta do escritor francês Marcel Proust (1871-1922) quando interrogado sobre o seu sonho de felicidade: Tenho medo de o destruir, ao pronunciá-lo.

 

E se quiser espreitar o Guia de bordo, clique aqui

 

 

2 COMMENTS ON THIS POST To “Eu só quero ser feliz, bolas! É pedir muito? (Séneca)”

  • Felisberto

    10 de Janeiro de 2014 at 17:27

    Gosto!
    Se a felicidade é rara, não poucas vezes destruímos as nossas hipóteses de felicidade.
    “O inferno somos nós” dizia Carlos Amaral Dias.

    • Conceição Carrilho

      10 de Fevereiro de 2014 at 21:41

      Pois é, e ele tem razão. E uma das coisas boas de “enclassicar” e não envelhecer ( palavra que o LEP rejeita, como sublinhou no artigo “Não tenha medo de envelhecer) é aumentar as nossas hipóteses de encontrarmos o paraíso.

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