Ler é Perigoso

André Derain, A chávena de chá, 1935

1. A satisfação não me satisfaz

Se há matéria em que somos todos sobre-dotados- é, de certeza, a Insatisfação: O dia foi belo, mas à noite sentimos uma pontadinha: ele não telefonou; a festa de anos foi magnífica, mas não percebo por que razão a minha filha estava tão amuada; a minha vida corre bem, mas de manhã dou comigo a sonhar deixar tudo e correr o mundo de barco; adoro a minha mulher mas quantas vezes sonho com aventuras donjuanescas; gosto da minha profissão mas dou comigo a pensar que devia fazer outra coisa; ontem o meu marido ofereceu-me flores, isso tem água no bico, estou a achar estranha tanta demonstração; gosto da minha casa na praia, mas estou farta dos fins-de-semana sempre iguais, o que eu queria mesmo é não ter nada, despojar-me de tudo! Tenho um rapaz, mas como a minha vida seria muito mais bela se tivesse tido uma rapariga, a rapariga dos meus sonhos!

Pois é isto mesmo: a insatisfação é a lei que regula a nossa vida. Por que razão? Arrisquemos algumas respostas:

… Porque tal como não se fazem bons romances com bons sentimentos (palavras do escritor André Gide) também não se faz uma vida com satisfação. Um romance recheado de bons sentimentos será tão entediante como uma vida plenamente satisfatória, o que nos leva a reconhecer que a insatisfação é o motor da vida.

… Porque se estamos insatisfeitos- por não termos dinheiro, saúde, trabalho, calma interior, etc- desejamos obter estes bens. Se os temos, temos medo de os perder, a satisfação levando assim à angústia.

... Porque o motor da própria sociedade vai no sentido de uma cultura da insatisfaçã: a toda a hora somos aliciados com novos destinos de viagens, novos looks, novos sabores, novas experiências que nos são apresentadas como aventuras imperdíveis e se recusamos participar nesta grande farra, ouvimos sempre alguém dizer-nos que estamos a perder algo de único, por vezes mesmo a falhar a vida.

… Porque em todos nós dorme uma criança que sonha. A criança de outrora, apesar de ter passado uma parte da sua vida a querer ser grande, não gostou muito de se ver crescida. Queria ser grande enquanto isso era uma espécie de miragem no deserto da sua pequenez e insignificância. Mas mal deixou de se pôr em bicos de pés, o mundo visto de cima revelou-lhe ruas sinuosas, estreitas e escuras. Então, decepcionada, começou a sonhar em ser de novo criança despreocupada e alegre, daquela alegria feita de desafio e luz. Mas como é difícil esta tarefa!

... Porque em nós dormita a Deusa de Emma Bovary: a frustração.

  1. Madame Bovar

A história de Emma Bovary escrita por Flaubert entre 1851 e 1856, é sobejamente conhecida. Um dos seus temas chave é o adultério, um tema muito comum no romance do século XIX. O adultério está intimamente ligado aos temas da insatisfação sexual, do papel da mulher na sociedade e dos tabus sociais e religiosos. Neste sentido, numa época em que o divórcio é uma prática corrente e em que as mulheres passaram a assumir papéis iguais aos dos homens, o romance correria o risco de estar bastante datado. Ora, se assim fosse como explicar que ele seja um dos romances mais estudados pela crítica e que mais tem influenciado escritores- europeus, americanos, sul-americanos e outros-, assim como cineastas, ilustradores, autores de banda desenhada e encenadores.  Uma leitura superficial pode levar-nos a pensar que Emma Bovary é uma mulher fútil e alienada por romances cor-de-rosa, uma provínciana frustrada com uma vida rotineira e monótona que tenta encontrar distracção no adultério. Mas o romance é muito mais do que isto. Na verdade, Emma é, sobretudo, uma alma assolada de vazio, a incarnação de um profundo vazio existencial.

O vazio de Emma, como vazio que é, não tem nome: mas o que a tornava tão infeliz? Onde estava a catástrofe extraordinária que a transtornava? E levantou a cabeça, olhando em sua volta, como para procurar a causa que a fazia sofrer. Emma Bovary sofre, como lhe diz a criada um dia, do mesmo mal que uma sua conhecida: uma espécie de nevoeiro que ela tinha na cabeça, e os médicos para isso não podiam nada, nem tão pouco o senhor prior.

Um nevoeiro que se vai tornando cada vez mais denso, pois incapaz de vislumbrar raios de luz por entre as abertas, ele acabará por se transformar-se numa consciência acusadora que lhe sussurra pela calada da noite: olha à tua volta, Emma, tens um marido que te adora, uma linda filha, uma situação estável, o que te falta, afinal? Pois é este precisamente o problema: aparentemente nada lhe falta e tudo lhe falta.  Curiosamente, dado raro na época, tem um marido que a adora. Ora, esta adoração é mais um elemento que contribui para a sua repugnância pela vida. Por que razão? Se o seu sentimento de vazio decoresse apenas da entediante vida doméstica e da cinzenta província em que se sente morrer, o drama de Bovary seria banal e pouco digno do seu talentoso autor. É aqui que Flaubert tem uma ideia de génio. De forma a dar toda a dimensão à insatisfação de Emma, coloca-lhe à frente um homem que é exactamente o seu oposto: um homem profundamente satisfeito. Charles Bovary, médico de província, loucamente apaixonado pela mulher e julgando o seu amor retribuído, é um ser extremamente bondoso, criado no campo, sem pretensões, desprovido de ambições, plenamente satisfeito com a vida que leva. É deste tête-à tête entre duas pessoas tão diferentes que Flaubert tira todos os efeitos dramáticos do tema que se propõe tratar.

Emma, apesar de ser também filha de um camponês, estudou no convento e aspira a uma vida diferente. Ao ver-se reclusa na província, ao lado de um homem decepcionante, o seu coração rebenta de raiva: Ela estava cheia de desejos, de raiva, de ódio. Aquele vestido de pregas direitas ocultava um coração transtornado, e aqueles lábios tão púdicos não diziam a tormenta que lhe ia na alma (…) O que a desesperava era que Charles não parecia fazer a menor ideia do seu suplício. A convicção em que ele vivia de torná-la feliz parecia-lhe um insulto imbecil, e a sua segurança a esse respeito uma ingratidão(…) Portanto, fez recair apenas sobre ele o ódio múltiplo que resultava dos aborrecimetos (…) A mediocridade doméstica impelia-a para fantasias luxuosas, as ternuras matrimoniais para desejos adúlteros. Teria preferido que Charles lhe batesse, para poder detestá-lo com mais razão e vingar-se dele.

Mas Charles não lhe bate, pois adora-a e assim, só lhe rest ela bater em si própria, mais e mais, até ao flagelo final: o suicídio. Ema tem uma filha, mas acha-a horrorosa e feia, a maternidade não lhe proporcionando quaisquer alegrias (pode perceber-se, apenas por estes exemplos, o choque provocado por este romance nos meados do século XIX, razão que o levou a ser acusado de ofensa à moral pública). Como nada a preenche, mergul de ternuras, ora sentia vontade de viajar ou de voltar para o seu convento. Desejava ao mesmo tempo morrer e morar em Paris.
Insatisfeita, infeliz, como os marinheiros em perigo, ela passeava pela solidão da sua vida uns olhos desesperados, procurando ao longe qualquer vela branca nas brumas do horizonte. As velas brancas encontra-as nos homens, no adultério, que lhe dará alegrias tão exaltantes como quedas monumentais num ainda maior vazio e desespero. E após dois casos amorosos, acossada por dívidas que não consegue pagar e que o marido desconhece, Emma mata-se.

O que nenhum leitor deste romance espera é o final surpreendente, onde tudo parece virar-se de pernas para o ar, para nos deixar a chorar de compaixão por Charles e quase a cairmos na tentação ( de que nos livramos a tempo, claro) de amaldiçoarmos Ema Bovary. O que acontece então? Charles, o satisfeitinho, o provinciano, o rude, o limitado, transforma-se, perante os nossos olhos abertos de espanto e de incredulidade, numa personagem Sublime, que nos arranca um caudal de lágrimas.
A sua vida tinha tido apenas um eixo à volta do qual gravitara: Emma. O seu estilo, beleza, delicadeza e, sobretudo, tudo o que nela lhe era estranho e incompreensível, exerciam nele uma sedução ímpar. Não espanta, assim, que a morte da mulher o mate, também. Viverá muito pouco tempo, o tempo de o descobrirmos de uma forma cativante e irresistivelmente enternecedora: Para agradar-lhe, como se ela vivesse ainda, adotou as suas predileções, as suas ideias; comprou botas envernizadas, passou a usar gravatas brancas. Punha cosméticos no bigode e, tal como ela, assinava letras à ordem. Emma corrompia-o do além túmulo.

Até à morte de Emma, nunca suspeitou dos seus amantes.No profundo desmoronar da sua vida após a sua morte- vende tudo para pagar as dívidas que ela deixara- descobre a verdade. Um dia, numa escrivaninha até aí fechada, descobre as cartas que ela escrevera a um dos amantes, Rodolphe, com quem tinha, a certa altura,  decidido fugir. Charles lê-as e relê-as, deixa de sair, fecha-se em casa e começou a constar que ele se fechava para beber. Um dia, Charles vai ao mercado vender o seu cavalo- depois de ter vendido tudo o que tinha- e encontra Rodolphe. Empalideceram ao verem-se. O antigo amante da mulher convida-o para uma bebida. Rodolphe, belo homem, falava, falava e Charles perdia-se em devaneios diante daquele rosto que ela amara. Parecia-lhe tornar a ver qualquer coisa dela. Era um deslumbramento. Teria querido ser aquele homem. E, sem mais, diz-lhe Charles:
- Não lhe quero mal
Rodolphe ficara mudo.
E Charles, com a cabeça entre as mãos, com uma voz apagada e com o tom resignado das dores incomensuráveis: -Não, já não lhe quero mal! E.crescentou mesmo uma grande frase, a única que jamais dissera: a culpa foi da fatalidade!
No dia seguinte foi encontrado morto num banco e segurava na mão uma comprida madeixa de cabelos pretos.

Flaubert disse: Madame Bovary sou eu. Esta frase ficou lendária. O que queria ele dizer com isto? Não sabemos. Sabemos que ele mostrou como nenhum autor conhecido antes dele ( e depois, talvez), que a frustração é uma areia movediça que nos puxa para o fundo do pântano da vida. Mas mostrou também que só deste pântano podemos ver emergir criaturas comoventes e de certa forma sublimes, como Charles Bovary.

   E ainda sobre este romance, visite o Guia de Bordo

4 COMMENTS ON THIS POST To “Em todos nós dormita a Deusa de Emma Bovary: a frustração (Flaubert)”

  • sergio budrin lopes

    21 de Fevereiro de 2015 at 6:03

    seguir

  • Johnd555

    26 de Maio de 2014 at 18:42

    Thank you for your blog article. Great. fdakfadbfcfb

  • Miguel

    5 de Maio de 2014 at 23:00

    Na verdade, Flaubert não disse “Madame Bovary sou eu.” Isso é um mito e merece ser exorcizado.

    • Conceição Carrilho

      6 de Maio de 2014 at 12:12

      Pois, Miguel, obrigada pelo reparo. Diz que a Flaubert não escreveu esta frase. Se assim é, como garante, a razão do mito é o que nos deve interessar, pois se o coração tem razões que a razão que desconhece, o mesmo se passa com os mitos. A obra e a correspondência de Flaubert são muito elucidativas a este respeito: em inúmeras passagens o autor reconhece ter nascido com um “embêtement” radical ( cartas a Louise Colet), com um tédio radical, inapto para a felicidade, sujeito a estados “bipolares”. Sobre este assunto alongou-se tanto, que se não escreveu ou pronunciou a frase “Madame Bovary c’est moi”, pensou-a e viveu-a intensamente.E exorcismos por exorcismos, haverá outros mitos mais importantes a exorcizar, não lhe parece?

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