Ler é Perigoso

Edward Hopper. Compartimento C, Carruagem 293 (1938)

1. VIAJAR DE AVIÃO

    Diz  Paul Theroux  sobre a viagem de avião:

Não há muito a dizer da maior parte das viagens de avião. Qualquer surpresa é por força desastrosa, assim se define um voo pela negativa: não foi sequestrado, não caiu, não se vomitou, não chegou atrasado, não se ficou nauseado com a comida. Por isso se fica agradecido. A gratidão provoca um alívio tal, que a mente fica em branco, o que é adequado, porque um passageiro de avião é um viajante no tempo.

( A Arte da Viagem, 2012, Quetzal, Tradução de Freitas e Silva).

Para este viajante amante de comboios, a viagem de avião é a Não Viagem por excelência. De certa forma, o passageiro de avião que chega incólume ao seu destino sente-se sempre um sobrevivente e por isso agradece. A viagem de avião é, ainda segundo Theroux, uma viagem que se reduz ao tempo, a um tempo “vazio”, pois carece de Espaço.

o viajante entra num tubo alcatifado que cheira a desinfetante e aperta o cinto de segurança para regressar a casa, ou para partir dela (…) a sua mente concentra-se na chegada. Isto é, se estiver no seu perfeito juízo. Se olhasse pela janela, não veria muito mais do que a  tundra de uma camada de nuvens e, por cima dela, espaço vazio. O tempo é brilhantemente cego: não há nada para ver.

A Viagem de avião não entra, assim, na categoria Viagem. Pelo contrário, uma jornada de comboio é viagem; tudo o resto- especialmente aviões- é transporte.
Não é, pois, de estranhar que a literatura não seja grande amiga de aviões: não há literatura da viagem aérea, nem grande coisa sobre as jornadas de autocarro, e os navios cruzeiros inspiram observação social mas pouco mais.

 Talvez seja por isto que os filmes passados em aviões recorram muitas vezes ao tema clássico do desvio do avião por terroristas. E os filmes  que escolhem o aeroporto como espaço de acção, como o Terminal de Aeroporto, de Spielberg (2004) acabam por se revelar bastante cinzentos: Uma Não viagem apela a uma Não vida, ou a uma vida em suspenso, como a de Viktor Navorski, o protagonista deste filme, à espera, no aeroporto, de ver os seus documentos legalizados.

No avião, a vida fica ENTRE, entre parêntesis, em suspenso. Sem assento real na terra, ou seja o que for de concreto (o que explica certamente as fobias do avião vividas por tantos de nós), no avião sei que não tenho poder sobre mim, sinto a minha autonomia cortada, e suspensa  a minha capacidade de mobilidade e de acção. Por isso o alívio e a gratidão da chegada, referida por Theroux: as palmas que se ouvem, as exclamações de júbilo, as caras que se desenrugam e desanuviam, os sorrisos que se esboçam.

Quando apanho um comboio para um determinado sítio, sei que posso muito bem mudar de ideias a meio do caminho. No momento em que entro no comboio, não tenho o sentimento de perder a minha autonomia, não tenho a sensação de ser transportada. De alguma maneira, eu transporto-me, eu conduzo também aquele comboio.

Para isto contribuem (entre outros aspectos) os movimentos oculares: Os olhos não cessam de olhar, de seguir o desfile de paisagens cidades, terras, apeadeiros, estações, pessoas que entram e saem. Sempre solicitados, os olhos são a nossa VIDA, e como crianças embaladas pela terra mãe, a certa altura fecham-se, sonolentos e esquecidos, para nos mergulharem  no sono beato da infância.
Não estranhamos, pois, que os comboios tenham inspirado e continuem a inspirar pintores, cineastas e escritores. O fervilhar onírico, policial e romântico dos comboios continua a exercer sobre todos nós um irresistível poder de atracção, poder que exerce ainda hoje sobre nós o romance A volta ao mundo em oitenta dias, de Jules Verne, todo passado num comboio.

2.JULES VERNE (1828-1905): A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS

Phileas Fogg, o herói deste romance, é um gentleman inglês cuja vida é regulada pelos ponteiros do relógio, por uns ponteiros que nunca se atrasam. Os seus dias sucedem-se uns aos outros matematicamente iguais e a mais pequena alteração é punida.Assim, quando a história começa acabara de despedir o seu criado, apenas porque cometera a falta de lhe trazer, para a barba, água a oitenta e quatro graus, marcados pelo termómetro Fahrenheit, em vez de oitenta e seis, como deveria ser.
(A volta ao mundo em oitenta dias, Bertrand Editora, Tradução de A.M.Cunha).

Os seus dias são passados no Reform Club, onde almoça e janta sempre à mesma hora, onde joga whist e lê os jornais. Sai e chega a casa sempre à mesma hora, sem um segundo de atraso: Não dava uma passada a mais e seguia sempre pelo caminho mais curto. Não perdia o tempo, nem sequer um instante, a olhar para o tecto. Não permitia a si próprio um gesto supérfluo.

Não é casado, (vive apenas com um criado) e sobre ele pouco se sabe de concreto, o que cria à sua volta um halo de mistério: o que ele fazia era sempre tão matematicamente a mesma coisa que a imaginação, descontente, procurava além do que via.

Na vida deste homem acontece então o impensável: vai fazer uma viagem à volta do mundo! E apenas em oitenta dias!
Como? Porquê?

Começa assim, esta extraordinária aventura: dá-se um roubo ao Banco de Londres, o que deixa a cidade em polvorosa. O roubo, efectuado com a maior das facilidades, é o assunto que anda na boca de todos os londrinos que conjecturam sobre a identidade do enigmático ladrão. Acreditam tratar-se de um ladrão pouco comum, talvez da alta sociedade, profundo conhecedor do Banco. A jogar whist no Reform Club, Phileas Fogg debate o assunto com os amigos de jogo. Um dos seus parceiros defende que, mesmo se o roubo foi obra de mestre, o seu autor terá dificuldade em escapar, já que o mundo, com os novos meios de transporte está muito mais pequeno e com mais escassas capacidades de fuga. Esta afirmação leva o grupo de jogadores a uma acalorada discussão. Dividem-sem as opiniões: uns defendem que assim é, o mundo reduziu a olhos vistos desde que existe o comboio- Phileas Fogg e Ralph defendem esta posição. O outro grupo defende o contrário, pensa que o mundo não está maior nem menor e que o ladrão poderá sempre escapar com facilidade. A discussão aumenta de tom, o que leva Phileas Fogg a afirmar que se pode dar a volta ao mundo em 80 dias. O partido adverso protesta e Phileas Fogg, que é tão teimoso como pontual, decide apostar: ele mesmo fará a volta ao mundo e provará que isso é possível em apenas 8o dias. Perante a incredulidade dos amigos que o alertam para a loucura de tal aventura, para todos os imprevistos que não deixarão de surgir e lhe inviabilizarão o cumprimento da aposta, Phileas Fogg mantém-se imperturbável:

Um verdadeiro inglês não graceja nunca quando se trata de uma coisa tão séria como é uma aposta- redarguiu Phileas Fogg. Eu aposto vinte mil libras contra quem quiser que farei a viagem à roda do mundo em oitenta dias, pelo menos, ou, por outras palavras, em mil novecentas e vinte horas, ou cento e quinze mil e duzentos minutos. Aceitam?

A sua partida deixa a cidade de Londres tão agitada como o roubo do banco. O mais divertido de tudo isto é que muitos se convencem que ele é o autor do roubo, que esta é a razão que o levou a apostar. A polícia põe-se em campo, o que dará ao romance um halo de comédia policial recheada de equívocos divertidos.

3. VIAJAR DE COMBOIO

viajar de comboioTendo em conta a psicologia do nosso herói, imaginamo-lo perfeitamente como a incarnação perfeita do herói da Não Viagem. Mas para isto, teria sido necessário existirem já aviões em 1872, data em que se passa esta história. E neste caso, imaginaríamos perfeitamente o fleumático Phileas Fogg a ser transportado, a entrar, nas palavras de Paul Theroux,  num tubo alcatifado que cheira a desinfetante e sentar-se em cadeiras semelhantes às do dentista. Imaginamo-lo sentado muito compenetrado no avião, convicto de que a pontualidade seria dificilmente perturbada.Imaginamo-lo  a saltar de avião em avião com o passo pausado, certo de ganhar a aposta.

Mas Phileas Fogg não entra num avião, mas num comboio e a diferença é enorme. Aparentemente ele comporta-se, no comboio, como se estivesse em casa, como se nada de extraordinário se estivesse a passar na sua vida. Na carruagem de comboio joga whist e come a horas regulares, as suas actividades principais, totalmente indiferente aos locais que atravessa até porque era dessa raça de ingleses que fazem visitar pelos seus criados os países que atravessam.

Mas, o que ele não era capaz de adivinhar quando se sentou na carruagem com a sua calma habitual, é que o comboio muda-nos, altera o programa traçado e assim esta viagem levará Phileas Fogg a zonas onde ele nunca antes poderia ter imaginado, nem nos dias de imaginação mais delirante.

Nos Estados Unidos é atacado por índios e liberta o criado que tinha sido feito prisioneiro; na Índia salva uma jovem viúva de ser queimada; compra por uma quantia astronómica um elefante quando o comboio interrompe a viagem por já não haver mais linha férrea; é perseguido pela polícia, e por entre uma série de aventuras rocambolescas, fugas, perseguições, prisões, raptos, separações e reencontros com o criado, apaixona-se por Aude, a jovem viúva. À medida que as aventuras se sucedem, Phileas Fogg revela, sob a capa do frio autómato, um coração generoso e bom e Passepartout, o criado que de início estranhava o novo amo, passa a ser o seu mais fiel admirador, formando com ele uma dupla inesquecível.

No final desta enorme Aventura, escusado será dizer que Phileas Fogg ganha a aposta e para que tudo acabe mesmo bem, casa-se com a encantadora jovem.

Na viagem, utilizara todos os meios de transporte, paquetes, comboios, carruagens, iates, navios mercantes, trenós e um elefante. O excêntrico cavalheiro desenvolvera nesta empresa os seus maravilhosos dotes de sangue frio e de exactidão. Mas, afinal, o que tinha ganho nesta deslocação? O que alcançara com a viagem?
Nada, hão-de dizer. Nada, na verdade, a não ser uma sedutora mulher- que, por muito inverosímil que isto pareça- o tornou o mais feliz dos homens!
Em rigor, não se faria ainda por menos a volta ao mundo?

Será que estes deliciosos encontros- amorosos- e não só- seriam possíveis se Phileas Fogg tivesse viajado de avião?

Será que um homem que desce todo o admirável vale do Ganges sem pensar sequer em lhe deitar uma olhadela, poderia ser acordado e despertado para a paixão numa viagem de avião? Não teria regressado desta ainda mais embotado, insensível, espartilhado, como amante dentro de uma armadura  (Theroux)?

Eis uma pergunta que nos faz certamente pensar…. e apanhar, nas próximas férias, o Expresso do Oriente para Istambul.

E sobre Paul Theroux, pode seguir para o Guia de Bordo

 

 

 

 

 

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