Ler é Perigoso

Coubert, Bom dia senhor Courbet (1854)

1. JOVENS À BOLEIA NOS ANOS 70

Andava-se muito à boleia por esses anos. A estrada estava feita para socorrer pobres, aflitos e jovens sem dinheiro, sem carro, sem moto, sem nada. Apenas com vontade de passarem uma tarde no rio ou na praia. O número de auto-estradas era também menor, os carros não eram ainda tão potentes e parava-se com muita naturalidade para levar alguém que estivesse necessitado de uma boleia. Mas o mundo, como diz o poeta é sempre composto de mudança e este gesto natural foi desaparecendo.   A urgência, a velocidade e, sobretudo, a desconfiança e o medo tomaram-nos refractárias a meter desconhecidos num carro, no meio de uma estrada. Se a linguagem politicamente correcta está imbuída de discursos sobre a necessidade de nos abrirmos ao outro. este  outro,  seja qual for a sua raça, língua ou religião, deve pensar duas vezes antes de se meter numa estrada, no meio da noite, a pedir boleia. Claro, mas que ideia! Há lá alguém hoje que o faça? Claro que não. Pois o outro, para não mos assustar, precisa, pelo menso de se identificar, e quem andava à boleia nos 70, não tinha necessariamente na carteira o cartão de cidadão. Metia-se na estrada por que sabia que logo alguém o levaria ao seu destino, sem grande hesitação.  

Assim, curiosamente , por debaixo deste mundo de abertura ao outra e de tolerância, cava-se, dia a dia, mais fundo, o mundo da suspeição. Será que a demo-cracia,- governo do povo (demos= povo; cratos=poder) está a dar lugar á  suspectio- cracia, o governo da suspeição. Desconfiamos do vizinho, dos governos, da veracidade das notícias, e a desconfiança que se espalha alimenta as teorias da conspiração que em linhas gerais defende que o verdadeiro móbil da acção do mundo é invisível aos nossos olhos. Ao longo da História esta linha de pensamento tem tido famosos defensores, como o célebre Abade Barruel (1741-1820), que defendia a teoria do complot e da conspiração: o verdadeiro poder  move-se na sombra e as suas intenções são demoníacas. Para o abade Barruel o agente maligno era a ordem maçónica.

Vejamos de que forma a literatura e mais concretamente a história do romance nos pode esclarecer e ajudar a responder a esta questão.

 .2. MILAN KUNDERA: A ARTE DO ROMANCE

Kundera,MilanNeste livro, Kundera fala do romance como uma História paralela dos tempos modernos. Os primeiros romances europeus são, precisamente, romances “do andar à boleia”:

Os primeiros romances europeus são viagens através do mundo que parece ilimitado. O princípio do Jacques o Fatalista surpreende os dois heróis no meio do caminho; não se sabe de onde vêm nem para onde vão. Encontram-se num tempo que não tem princípio nem fim, num espaço que não conhece fronteiras, no meio da Europa para o qual o futuro nunca pode acabar.

No século XIX o panorama muda com a revolução industrial, cultural e política. A obra do escritor francês Balzac (1799-1850) é disto um testemunho:

Meio século depois de Diderot, com Balzac, o horizonte longínquo desapareceu como uma paisagem por detrás dos edifícios modernos que são as instituições sociais: a polícia, a justiça, o mundo das finanças e do crime, o exército, o estado. O tempo de Balzac já não conhece a ociosidade feliz de Cervantes ou de Diderot. Embarcou no comboio que se chama História. É fácil subir para ele, difícil descer.

Já houve épocas que conheceram esta ociosidade feliz. Mas se este comboio de que fala Kundera começou a fazer vacilar a despreocupação feliz do século XVIII, ele era ainda, apesar de tudo, um convite irresistível à Aventura: No entanto, este comboio não tem nada de aterrador, tem até encanto; a todos promete aventuras….  Aventuras que passaram a ser de outra natureza, mais interior: o infinito perdido do mundo exterior é substituído pelo infinito da alma.

Entramos, assim, no mundo da fina psicologia, num mundo em que o romance se faz o eco dos conflitos interiores e aspirações recalcadas, em que o ser humano afirma a sua vontade contra a ordem estabelecida (religiosa, familiar, política). Está é a razão do grande triunfo do romance no século XIX. O horizonte físico estreita-se, mas deixa um imenso espaço para o horizonte onírico: o sonho. No entanto, diz Kundera, este panorama altera-se no século XX:

O sonho sobre o infinito da alma perde a sua magia no momento em que a História, ou o que dela restou, força supra-humana de uma sociedade omnipotente, se apodera do homem.

Milan Kundera, A Arte do Romance, Dom Quixote, tradução de Luisa Feijó e Maria João Delgado, 1988

A história apodera-se do homem, diz Kundera.

Exemplo claro desta viragem é a obra Kafka (1883-1924). No romance O Processo, Joseph K., o personagem principal, é acordado por dois homens que vêm prendê-lo. K.  não praticou nenhum crime, não terá sido um engano? Não, o processo está a decorrer, dizem-lhe os guardas, terá que aguardar. K. põe-se de imediato a indagar o hipotético crime que terá cometido para se poder defender. Mas quanto mais procura, mais se vai perdendo num labirinto avassalador de burocracias sem fim, até ao momento da morte. A História atou-lhe uma corda na garganta.

Nos carris desta História já não desfila um comboio promissor de aventuras, mas um outro, que espalha, por onde passa, uma triste notícia: somos sempre culpados e estamos sempre cercados. Das Aventuras na estrada larga da vida, passámos para as Desventuras  nas teias obscuras da burocracia.

 Não será, então, chegada a altura de deixarmos esta deprimente TEIA, e andarmos de novo à BOLEIA?

Sobre Kundera, pode consultar ainda o Guia de Bordo

2 COMMENTS ON THIS POST To “DA DEMO-CRACIA À SUSPECTIO-CRACIA (MILAN KUNDERA)”

  • Miguel

    11 de Maio de 2014 at 19:02

    Um excelente livro, A Arte do Romance; a sua visão da história do romance influenciou-me muito na forma como estou a escrever o meu próprio.

    E sabia que finalmente vai sair um romance novo dele?

    http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=3771869&seccao=Livros

    • Conceição Carrilho

      12 de Maio de 2014 at 12:29

      OLá Miguel, não não sabia: e que livro é? Estou curiosa.
      E já agora, que livro está o Miguel a escrever? Se não for muita a indiscrição, poderia dar algum “lamiré”?

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