Ler é Perigoso

Perante a profusão de debates e discursos inflamados sobre a questão do assédio sexual que nos últimos tempos tem agitado os media, as redes sociais e as conversas de café, muitas são as perguntas que nos ocorrem. Uma delas imagino que estará na ponta da língua de muitos: mas quais são os limites daquilo que é considerado assédio? Tem a mesma gravidade um acto de violência sexual e um piscar de olhos, uma mão que toca num braço ou numa perna? Esta é a questão sobre a qual as posições se têm extremado, pois se teoricamente as diferenças são óbvias e reconhecidas por lei, na prática não é bem assim.

Alguns episódios recentes têm-no provado. Um deles deu-se no passado mês de Setembro, no programa francês Salut les Terriens, quando Laurent Baffie, um dos animadores, no seu estilo provocatório e divertido, no âmbito de uma piada levantou ligeiramente a saia da convidada, a cantora Nolwenn Leroy. Foi o suficiente para inflamar as redes socais Ela, aliás, pressentindo-o de imediato, apressou-se a dizer, com um rasgado sorriso e pegando na mão de Laurent Baffie, que eles se conheciam há muito tempo e eram amigos. Mas o “mal” estava feito e aquele gesto jocoso foi o suficiente para lançar sobre Baffie insultos ignóbeis. O mais curioso deste episódio é a reacção crítica ter ignorado o comportamento da cantora: apesar da própria “lesada” ou “vítima” ter entrado com todo o à vontade e descontracção no jogo divertido de amigos, isto não impediu uma cascata de protestos contra os abusos masculinos, o que levou Thierry Ardisson o apresentador do programa, a redigir uma resposta-defesa firme, condenando estas reacções histéricas e injustas que colocaram a cantora num papel de vítima e Baffie no papel de carrasco.

Até onde isto nos poderá levar? Façamos um exercício de imaginação: imaginemos um futuro próximo em que a noção de assédio se estenda a um simples olhar. Um mundo em que um olhar masculino “inapropriado” lançado sobre uma mulher possa ser considerado crime de assédio. Um mundo em que os homens se inibissem em demonstrar o mais pequeno sinal de agrado relativamente a uma mulher. Como seriam, então, as relações entre homens e mulheres? Seriam elas mais ou menos livres?
O romance A Identidade (1997) de Milan Kundera poderá ajudar-nos a reflectir sobre este assunto.

 Milan Kundera: A Identidade
Eis o começo desta história: Chantal e Jean-Marc, um casal apaixonado. programam um fim-de-semana numa vilazinha à beira-mar. Chantal decide ir sexta à tarde, Jean-Marc no dia seguinte. Para sua surpresa, ele vai encontrá-la triste e abatida. Pergunta-lhe o que a perturba, ao que ela responde, após algumas hesitações: os homens já não se voltam por minha causa. Com efeito, na véspera, a caminhar na praia e a observar as famílias que passeavam, apercebeu-se que os homens já não a olhavam como habitualmente. Um sentimento de vazio e abandono invade-a, uma sensação de estranheza afunda-a num misto de desorientação e de tristeza. Jean-Marc ouve-a espantado e tranquiliza-a: isso não tem qualquer importância, diz-lhe, visto que a ama e não pode viver sem ela. Mas o seu discurso amoroso não surte o efeito desejado, já que ela repete, desalentada, o mesmo triste desabafo: os homens já não se voltam por minha causa. Jean-Marc fica perturbado, de certa forma até escandalizado: mas por que razão Chantal dá tanta importância ao olhar dos outros homens? Não deveria o seu olhar, o seu amor ser suficiente? Ao reflectir sobre o assunto, uns dias depois chega a uma conclusão: Chantal, como toda a mulher, mede o grau de envelhecimento a partir do interesse ou desinteresse que os homens manifestam pelo seu corpo.

Secretamente, e de forma a restituir-lhe algum ânimo perdido, Jean-Marc decide fazer-se passar por um admirador anónimo e começa a escrever-lhe cartas de amor.
Mas as melhores intenções nem sempre têm os melhores resultados e esta decisão de Jean-Marc vai fazer vacilar o edifício calmo em que repousara, até aí, o amor estável do casal. Dada a relação de grande cumplicidade entre eles, Jean-Marc esperava que ela lhe revelasse o estranho acontecimento, esperava que no dia em que recebesse a primeira carta Chantal lhe contasse o sucedido. Ora, tal não acontece e, atraída como todo o ser humano pelo gosto do mistério e do segredo, Chantal esconde a primeira carta (e todas as que se sucedem), na gaveta da cómoda (onde guarda a lingerie, pormenor que não passa despercebido a Jean-Marc). Como se isso não bastasse, ao vê-la mais alegre, animada e disponível para o amor, Jean-Marc começa a sentir ciúmes do fantasma que ele próprio criou. Entretanto, após muitas conjecturas sobre a identidade do autor das cartas, Chantal começa a suspeitar de Jean-Marc, ao aperceber-se que ele mexeu na gaveta onde as escondia.

Quem é, afinal, o homem com quem vive, que se presta a jogos que ela não entende? - pergunta Chantal. E porque precisa Chantal do olhar dos outros homens, quando ama exclusivamente Jean-Marc? E continuará ele a ver em Chantal a mesma mulher que até esse momento exerceu nele uma atração exclusiva? O casulo de amor em que vivem começa, assim, a acusar algumas rachas. Sobreviverá ele a estas intempéries? O amor não chega?
A resposta de Kundera é de uma grande sagacidade:

O amor, mesmo quando é recíproco, feliz, intenso (ou por isto mesmo) tem uma tendência natural a fechar ou a isolar os amantes numa redoma. Pois se o amor é uma força capaz de nos arrancar do anonimato do mundo- e por isto uma força salvadora-, ele pode também isolar e afastar dos outros. Apesar de ser um estímulo e uma base sólida, o amor não chega, como Chantal reconhece. E porquê? Porque como se diz a certa altura no romance, a vida é uma árvore de possibilidades cuja seiva o amor exclusivo pode secar.
Esta ideia é crucial pois articula-se directamentete com a noção de liberdade. Se à partida uma escolha põe de lado uma série de possibilidades, ainda assim, dentro de cada um de nós existe a consciência da possibilidade de mudar. Eu posso escolher um determinado trabalho, uma cidade, uma casa, uma pessoa com quem viver, escolhas que naturalmente eliminam outras possibilidades. Mas para as conseguir viver plenamente é necessário ter consciência de uma intrínseca liberdade interior que me permita, se for preciso e se assim o entender, optar por outra possibilidade de vida.
Assim, os olhares dos homens sobre Chantal não lhe provocam, sequer, a maior parte das vezes, qualquer desejo de aventuras; eles são, sobretudo, uma garantia dessas possibilidades de uma outra vida, de uma mudança. Chantal não está dependente dos olhares dos homens para se sentir viva- o que a tornaria uma escrava dos outros- mas apenas para sentir pulsar em si a hipótese de outras vidas e, sobretudo, para afastar de si a ideia de um fim, da clausura, da velhice, da solidão e da morte. Os olhares dos homens são uma forma de reconhecimento e, neste sentido, uma forma de consolo.

Fraquezas humanas? E de que outra matéria será feita uma grande parte da vida? Se Chantal precisa do olhar dos outros homens para poder mergulhar na massa anónima, na sua corrente, de que o amor exclusivo pode afastar, é precisamente para se sentir mais forte. A perplexidade e o desalento de Jean-Marc perante o comportamento de Chantal leva-o a algumas reflexões que vão precisamente neste sentido: não, não é de um olhar do amor aquilo que ela precisa, mas a inundação dos olhares desconhecidos, grosseiros, concupiscentes, e que poisam nela sem simpatia, sem escolha, sem ternura nem delicadeza, fatalmente, inevitavelmente. Esses olhares conservam-na na sociedade dos humanos da qual é separada pelo olhar do amor.

É destas subtilezas que vive o amor, é destas nuances que ele se alimenta. Subtilezas caras aos escritores, sobretudo a este fino analista dos paradoxos que regulam os comportamentos humanos e os mecanismos das sociedades contemporâneas. Kundera sabe que a literatura, nas palavras de Baudelaire, é a suspensão do julgamento divino. Antes de julgar, há que compreender. Mas a urgência da “democracia do teclado” (expressão do historiador Rui Tavares) sofre de uma alergia visceral à ponderação.

 

4 COMMENTS ON THIS POST To “Um olhar sobre o assédio (Milan Kundera)”

  • Linda Bringel

    17 de Janeiro de 2018 at 0:01

    A moda do assédio tolerado já passou, passou mesmo a constituir crime. Agora o texto de Kundera já não se enquadra beste nosso presente. Os homens já não assobiam, silvam, ou sopram quando se cruzam com uma jovem mulher. As mulheres já não irão notar a diferença da juventude perdida, pelo menos neste campo. As Chantals não terão este termo de comparação, de mais idade menos assédio masculino. Chantal pode questionar, é isto uma boa coisa? E os homens, deixaram de cortejar por recearem as represálias da justiça? Ou será que simplesmente, já não sentem desejo de possuir, de se arrepiarem com a onda de sexualidade desencadeada pela presença de uma certa mulher? É assim que queremos? Então está bem.

    • Conceição Carrilho

      17 de Janeiro de 2018 at 19:58

      Não sei se concordo consigo quando refere a anacronia do romance de Kundera. Penso que, ao lidar com a complexidade dos sentimentos humanos (frequentemente inconfessáveis) é de uma enorme actualidade e pertinência. São questões muito íntimas, profundas (que lidam com o não-dito) e que muito dificilmente uma revolução dos costumes consegue arrumar por decreto na prateleira. É disso que ele fala e muito, muito bem.

  • Glória

    14 de Janeiro de 2018 at 19:11

    Há por detrás desta vaga de revolta de certas mulheres uma hipocrisia extraordinária.
    Cresci numa época em que “chatear” uma miúda com gracejos (com educação, claro está), não era assédio sexual, era antes lisonjear.
    Tudo era muito bem determinado.
    Agora tudo é assédio.
    Hoje em dia um “simples cumprimento” é assédio. É um toledo completo!
    Se a nossa amiga Chantal, vive-se na nossa época sentir-se-ia muita confusa!

    Lá diz o proverbio “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”

    • Conceição Carrilho

      17 de Janeiro de 2018 at 19:48

      Pois é, Glória, já dizia o poeta: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades!

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