Ler é Perigoso

Viajar: Experiência ou Aventura?

Até há umas décadas atrás, na preparação de uma viagem espalhava-se uma impaciência febril, uma xcitação, um alvoroço. Por mais que se estudassem mapas e roteiros, no ar pairava o irresistível e inebriante apelo à viagem: o encontro com o desconhecido. Assim, de pequena ou longa distância, no seu horizonte acenava, luminosa, a bandeira da Aventura.
No mundo do low cost, GPS, hiphones, de google maps, de visualizações prévias do quarto do hotel onde vamos pernoitar e da leitura dos comentários dos viajantes que por lá passaram, a viagem foi-se despindo dos seus atributos romanescos e afastando do clima de sedutor mistério que a envolvia em promessas de felicidade.
Ajoelhado no altar do controlo e obcecado pela necessidade de um contacto permanente, o viajante de hoje passou a colocar a viagem na lista, mais prosaica, das suas Experiências. Mais do que um aventureiro, o cidadão do século XXI é um coleccionador de experiências, um Experienciador e como o mítico Don Juan, gosta de as somar pelo prazer de as pôr na lista.
Na verdade, numa época em que tudo é visto, primeiro, no écrã. algumas destas viagens podiam até dispensar-se. Mas tendo o preço dos bilhetes baixado substancialmente, o coleccionador vive no afá de somar o maior número possível de experiências:
In Italia seicento e quaranta;
In Alemagna duecento e trentuna;
Cento in Francia, in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son già mille e tre.
( D.Giovanni, Mozart)
Saltamos, assim, de avião em avião e não descansamos enquanto não atingimos o número de mil e quatro, apesar de uma grande parte delas se poder inscrever na lista das Não Viagens: Não há muito a dizer da maior parte das viagens de avião. Qualquer surpresa é por força desastrosa, assim se define um voo pela negativa: não foi sequestrado, não caiu, não se vomitou, não chegou atrasado, não se ficou nauseado com a comida. ( Paul Theroux, A Arte da Viagem).

1. VIAGEM- AVENTURA- EXÍLIO

Naturalmente que as Viagens-Aventura, cada vez mais raras, são de vários tipos, sendo cada uma única à sua maneira. No entanto, há um tipo de viagem que abre de imediato a porta da grande Aventura (feliz ou funesta): o exílio.
Muitos têm sido aqueles que se vêem obrigados a deixar a casa contra vontade. Lançados à força no desconhecido, vêem-se obrigados a enfrentar, de forma brutal, aquela que será, porventura, a mais profunda condição humana: todo o homem nasce rei, e a maioria dos homens, como a maioria dos reis, morre no exílio (Oscar Wilde, A sabedoria e o Humor de Oscar Wilde).
A Viagem-Exílio demarca-se claramente da Viagem- Experiência: ela não lida com números, não se presta a contas de somar, não é mais uma linha a acrescentar ao currículo da vida. É, sobretudo, um corte que rasga a vida em duas, estabelecendo um antes e um depois. É uma viagem rebelde a roteiros previamente traçados e por guia só tem o acaso que, como se sabe, tem dias: tanto pode estar disposto a dar-nos uma mão na condução do barco da vida, como virar-nos as costas e deixar-nos à deriva, numa perigosa Viagem Vertical. Foi isto o que aconteceu a Frederico Mayol, o herói do romance A Viagem Vertical, de Enrique Vila-Matas.

2. A VIAGEM VERTICAL

a-viagem-verticalVinte e oito séculos após a saída de Ulisses de Ítaca, a sua terra natal, um catalão rico e respeitável de setenta anos é também obrigado a deixar a sua Barcelona natal. Isto sucede no momento menos indicado, precisamente quando se preparava para gozar, com a calma merecida, a sua bela reforma. Uma tarde em que observava a horta da sua casa de campo enquanto a mulher descascava ervilhas, ouve-a dizer-lhe:
- Queria dizer-te o muito que me gostaria que te fosses embora, que te fosses embora desta casa para sempre e me deixasses só. Vai-te embora Frederico, deixa-me só, quero saber quem sou, preciso disso.

Como na véspera tinham celebrado as bodas de ouro, Frederico Mayol julga ter ouvido mal. Mas não é o caso e perante a sua incredulidade, ouve a mulher insistir:
- Os poucos anos que me restam quero gozá-los em liberdade. Tenho estado demasiado presa a ti, demasiado presa às tuas decisões, ao teu egoismo.(…) Não sei quem sou, essa é a única realidade. E, sobretudo, não sei que mulher poderia ter sido, se não tivesse estado toda a vida ao teu serviço. Decidi, nos poucos anos que me restam, averiguar quem sou eu na verdade ou, no mínimo, quem pude ser e não fui. Preciso disso.

Um império que demorou anos ou séculos a construir, pode explodir em poucos segundos. Assim, bastaram algumas frases pronunciadas pela mulher para fazer ir pelos ares a longa vida de Frederico Mayol assente numa belíssima fortuna e numa sólida vida familiar. Como qualquer ser desprevenido perante os golpes inesperados do destino, Frederico Mayol não sabe o que fazer. Decide falar com os filhos. Pede-lhes que dêem uma palavra à mãe, que lhe façam ver a situação dramática em que ela o está a colocar. Mas todos os esforços se revelam vãos: a mulher mantem-se inabalável.
O que fazer? Uma viagem parece ser a saída mais airosa deste impasse medonho. Mas para onde? E como deve ele proceder, um homem de setenta anos e ainda por cima sozinho? Quando viajas com alguém tens sempre tendência para ver o que te rodeia com estranheza, enquanto que, quando viajas só, o estranho és sempre tu.

É precisamente isto o que Frederico Mayol irá descobrir ao longo da viagem que o conduzirá a Portugal, num périplo que começa no Porto, segue para Lisboa e “acaba” na Madeira: Via-se a descer em posição radicalmente vertical para o mais absoluto vazio, a caminho do afundamento total, numa vertiginosa descida em si próprio à procura de uma outra vida, já que, como diz a um dos filhos, a vida que levou até aí foi-lhe roubada. Trata-se, pois, de uma viagem contrária à Viagem Horizontal, feita de um sucedâneo de experiências em que o estranho é sempre o outro, um outro que gostamos que seja exótico, diferente, surpreendente. Na Viagem Vertical, o exotismo sai das nossas entranhas não para nos convidar a mais uma alegre fotografia mas para nos revelar, sem fotoshop, o desconcerto da condição humana.
Uma viagem a pique de onde se espera, também, sair renovado e retemperado: inconformado com a interrupção dos seus estudos, na altura da Guerra civil espanhola, Fredrico Mayol, que tem um sobrinho a viver no Funchal, incentiva-o a abrir uma livraria, uma forma de colaborar num projecto cultural e também de ajudar o sobrinho, que está a viver uma grande crise existencial. Para além disto, decide instruir-se, faz novos amigos e torna-se, mesmo, uma personagem de romance. Morte e renascimento coabitam nesta aventura e o seu desaparecimento misterioso, no final, convida a esta leitura.
Dono de um fino sentido de humor (marca inconfundível deste prolixo escritor), que nunca o abandona ao longo da sua viagem, Frederico Mayol é, como todo o humorista, um hábil inversor do drama:

quem diria, sentir-se um velho cada vez mais afundado proporcionava-lhe uma estranha e saudável felicidade, como se o seu projecto deliberado de se afundar no fundo do seu próprio abismo estivesse a dar por fim um sentido à sua vida.

2 COMENTÁRIOS SOBRE ESTE POST. To “Viajar: Experiência ou Aventura?”

  • Glória Fernandes

    2 de Fevereiro de 2017 at 11:17

    Espetacular! Conceição Carrilho, tal ela dona de um fino sentido de humor :)

    • Conceição Carrilho

      2 de Fevereiro de 2017 at 13:18

      Pois, Glória, um dos efeitos mais entusiasmantes que resultam do convívio com a literatura é (entre outros), o de exercitar o nosso espírito humorístico, isto é, conduzir o nosso olhar sobre o mundo através de uma lente especial: a do distanciamento crítico e da auto-ironia.

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