Ler é Perigoso

1. A Identidade makes the world go round

O mítico filme Cabaret (Bob Fosse, 1972), imortalizou uma canção cujo refrão sublinha uma evidência difícil de refutar: money makes the world go round. Podíamos dizer, no entanto, que uma outra força faz girar o mundo de forma igualmente poderosa: a identidade (quantas vezes ligada ao dinheiro). Religiosa, cultural, sexual, social, em sua defesa se travam inúmeras batalhas, em seu nome as nações e os indivíduos estão prontos a pegar em armas. A identidade é pois um assunto controverso, já que não lida com factores apenas de ordem colectiva e racional, mas também subjectiva. No entanto, acima destas múltiplas identidades paira uma, velha como o mundo, que procura responder à questão “quem sou eu”?

Velha, ou cada vez mais nova? Se pensarmos que as sociedades actuais têm vindo a assistir, segundo o politólogo e filósofo Norberto Bobbio (1909-2004), à transformação dos Cidadãos em Indivíduos, esta questão tornou-se de primeiríssima importância. Com efeito, antes da era da globalização, o indivíduo sentia que pertencia a uma comunidade específica (social, política, religiosa, regional, linguística, etc), mesmo quando desejava escapar-lhe. No entanto, no mundo global que vê aumentar a população urbana a um ritmo exponencial, este sentimento de pertença a um lugar com uma identidade própria tem vindo a diluir-se. Perante a dificuldade de se encontrar, no exterior, alguns pilares sólidos que nos identifiquem (pois o Cartão de Cidadão é, nesta matéria, mais do que insuficiente), vemo-nos então obrigados a uma procura cada vez maior de auto-conhecimento que nos ajude a responder à questão “quem sou eu”?

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Assim, quando no dia seguinte à comemoração das suas bodas de ouro, uma senhora de setenta anos de idade, respeitável e muito bem instalada na vida, pede ao marido que saia de casa e a deixe pois precisa de saber quem é, esta exigência absolutamente impensável no mundo das Bovarys e das Karéninas, poderá espantar-nos mas não chocar-nos : numa época que tem vindo a assistir, desde há umas largas décadas, ao questionamento de todas as instituições, hierarquias e dogmas, qualquer um de nós se vê perante uma gama infinita de possibilidades de realização pessoal, todas elas legítimas e “naturais”. As regras do jogo da vida sendo hoje muito mais flexíveis, cada um de nós é convidado a ser criativo, isto é, a reinventar, permanentemente, as regras do jogo. Queria dizer-te o muito que me gostaria que te fosses embora desta casa para sempre e me deixasses só. Vai-te embora Frederico, deixa-me só, quero saber quem sou, preciso disso.

 O leitor fica tão perplexo como o marido. Será que ouviu bem? Mas o que levará uma mulher de 70 anos a fazer tal exigência, logo no dia seguinte à comemoração das bodas de ouro? Terá ela enlouquecido? Ouçamos o que ela diz:
Os poucos anos que me restam quero gozá-los em liberdade. Tenho estado demasiado presa a ti, demasiado presa às tuas decisões, ao teu egoismo.(…) Não sei quem sou, essa é a única realidade. E, sobretudo, não sei que mulher poderia ter sido, se não tivesse estado toda a vida ao teu serviço. Decidi, nos poucos anos que me restam, averiguar quem sou eu na verdade ou, no mínimo, quem pude ser e não fui. Preciso disso.

O jogo do matrimónio acabou. Esta senhora lançou no baralho conjugal uma carta não prevista pelo marido, deixando-o completamente baralhado.

2. Quem sou eu?

Começando o romance desta forma bombástica, o leitor esperaria saber se esta mulher conseguiu alcançar o seu propósito. Terá ela descoberto quem é ou quem poderia ter sido? Não sabemos. O narrador, que tem alma de detective como todo o narrador, decide abandoná-la à sua sorte e seguir o marido. Tal atitude não nos espanta: seguir os passos de um rico burguês de Barcelona que de uma dia para o outro se vê sem casa, obrigado a procurar uma outra vida, tem muito mais hipóteses de satisfazer a gula do detective-narrador, sempre com as malas prontas para seguir viagem no encalço das suas personagens. Frederico Mayol, a personagem central deste romance, arrastá-lo-á então para um périplo pejado de encontros surpreendentes que o levarão a esquecer totalmente a sua mulher e as suas questões de identidade.

Mas se o narrador a esqueceu, o mesmo não aconteceu com certos leitores que se interrogam sobre o seu paradeiro e gostariam de saber se chegou a encontrar-se, se chegou a saber quem é ou quem poderia ter sido.
Ao marido ela confessa desejar mais liberdade. Quer soltar as amarras conjugais, de que parece ter resultado um sentimento de inexistência, de vazio. Ter vivido ao serviço dele anulou-a, diz, negou-lhe uma existência própria ao ponto de não saber quem é.
O que levará alguns leitores a sentirem curiosidade por esta mulher é saberem que, afinal, com amarras conjugais ou sem elas, este desejo de liberdade é um dos mais teimosos inquilinos do ser humano, sempre refractário a uma ordem de desejo: Libertarmo-nos da rotina pesada do trabalho, de um dia a dia cinzento, de uma família que não escolhemos, de uma cidade que nos atrofia, de um marido ou de uma mulher que não traz alegria à vida, do medo do futuro, do …. quantas amarras nos tolhem os passos a todo o momento! Um dia, porém, estes ímpetos de libertação tecidos no silêncio da rotina irrompem com a mesma determinação desta mulher que, contra todas as expectativas, se ergue e faz ouvir a sua voz. Já Marx dizia que as revoluções são como as toupeiras.
O que nos leva a sentir curiosidade por esta mulher é, pois, sabermos que as mudanças não são sempre fruto de rupturas bruscas mas de um tempo que nos vai mudando, moldando, transformando e que, quando já não é mais possível calá-la, faz soltar a voz da revolta, isto é, a voz que aspira a uma outra vida.
Uma vida que permita a esta mulher olhar o mundo sem que nele o seu olhar se cruze, a toda a hora, com o do marido; uma vida que lhe permita contemplar o mar do entardecer sem vislumbrar no horizonte a sua vida a naufragar; uma vida que lhe permita, talvez, reacender nas suas pupilas as centelhas luminosas da menina que foi outrora; uma vida, quem sabe, que lhe dará a ver o mundo com o espanto e a alegria da criança que foi um dia e que grita ainda no seu ventre quando pede ao marido que a deixe.
Uma vida bafejada pelo sopro vital, epifania de uma nova alma.

2 COMMENTS ON THIS POST To “Preciso de saber quem sou!”

  • francisco abrunhosa

    10 de Fevereiro de 2017 at 23:19

    Se Vila-Matas seguiu o périplo do desamparado sem-abrigo-burguês Frederico, parece ter deixado à solta, para quem a apanhar, a possibilidade de outrem seguir os passos libertários da ‘senhora’ (que nem direito a nome tem). Sei de uma escritora com ganas para se lançar a tal tarefa. Quem sabe?

    • Conceição Carrilho

      11 de Fevereiro de 2017 at 23:48

      Se é a escritora em que eu estou a pensar, julgo que ela não está muito “para aí virada”. Mas é como diz o Francisco: quem sabe”?

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