Ler é Perigoso

 

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Há sempre um dia em que os segredos, fechados no cofre forte da nossa vida, se revelam.
Dez homens e nove mulheres deram-me a chave do cofre de onde saíram, dolorosas ou divertidas, dezanove confissões.

 

 

APRESENTAÇÃO DO LIVRO

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Elisa Costa Pinto - Texto de apresentação do livro

(Lisboa,14 de Dezembro 2016)

A confissão é um motivo com vastíssima tradição literária, sejam as confissões assumidamente autobiográficas (Santo Agostinho, Rousseau, Tolstoi, Umberto Eco), sejam as ficcionais (As Confissões de Felix Krull, de Thomas Mann, A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, As Confissões de uma Máscara, de Mishima, A Confissão da Leoa, de Mia Couto).

Confessar é revelar o feito e ganha frequentemente o sentido de confidenciar, mas o peso trazido ao verbo pela acepção jurídica e sobretudo pela acepção religiosa do catolicismo, encaminha-nos muito directamente para a ideia de pecado e de culpa. Esta ideia é, como sabemos, muito aliciante em Literatura, por isso, um Livro de Confissões com um sensual, ou dramático, cortinado vermelho na capa é uma gulosa tentação, ainda mais, quando a contracapa nos promete escancarar cofres de segredos.

1. 10 HOMENS E 9 MULHERES NO DIVÃ
Estas confissões não são autobiográficas, nem saem da boca de uma personagem ficcional única. São 19 confissões, tantas quantos os contos e respectivos protagonistas, reunidos atrás deste cortinado que é o livro preparado para ser aberto.

O conto, que como sabemos, exige uma mestria literária difícil, pois habita aquela zona estreita do cruzamento da contenção da poesia com a peripécia narrativa, é habilmente manejado neste livro, onde meia dúzia de páginas bastam para encerrar um segredo, uma revelação, uma vida.

A voz que escutamos em cada um deles é uma voz singular, como singular é a confissão que faz e nos confere o imprevisto lugar do psicanalista silencioso que escuta, mais do que o de voyeur que espreita pela fechadura ou até o do leitor. Na verdade, este livro é um consultório por onde desfilam 19 alminhas atormentadas ou aliviadas, enraivecidas ou apavoradas, desencantadas ou apaziguadas. A ligá-las, a condição humana contemporânea de homens e mulheres sem qualidades, gente “banal, quotidiana e tributável”, gente que caminha pela vida guiada por um cego e continua a caminhar, uns na mesma direcção, outros mudando de rumo, graças a um qualquer clic existencial, a um acaso, a um estremecimento.

A maioria está a meio da vida e sentindo-se à beira do caminho sem retorno, marca consulta consigo mesmo e olha o espelho de frente. Passar para o lado de lá ou permanecer estático e imutável, eis a questão.

2. CONFISSÃO E CULPA

Regresso à ideia da tradição literária das confissões e por muito estranha que a mim mesma me possa parecer, é das Confissões de Santo Agostinho que aproximo este livro. Talvez esta aproximação me tenha ocorrido na primeira leitura do Índice, que nos repete, em ladainha “eu, fulano, me confesso”, porque activou as campainhas da noção da confissão de um pecado, ainda que esse pecado seja enunciado como um terror, um lamento ou uma acusação.

Mas acontece que o primeiro conto – “Eu, Pedro, me confesso: aterroriza-me a ideia de uma vida depois da morte” - é, nesse sentido, esclarecedor. Sacudido pela morte do pai que desejava seu, o arquitecto alentejano escreve ao amigo transmontano (o verdadeiro filho) e, lembrando a epifania vivida há 30 anos face à insuportável beleza do Douro, reafirma a sua descrença na eternidade, justificando-a com o medo de enfrentar mais uma perda (“Sim, João, já acreditei em pais natais e em amanhãs que cantam e já os enterrei bem enterrados. Então, qual a necessidade de mais enterros?”).

Não será por acaso que a autora escolheu para abertura este conto tão dissonante dos demais, pela problemática existencial e metafísica que encerra. Diria que é sobretudo esta abertura que nos obrigará a um constante recentramento do foco, lançando luz sobre a banalidade das vidas que ecoarão na quase totalidade das narrativas e conferindo-lhes a densidade de que, aparentemente, são desprovidas.

3. CHIPS E TEIAS DE ARANHA

Quem são ou o que de essencial nos deixam ver estas personagens? Categorizá-las seria inútil e sobretudo desinteressante, mas um olhar rápido permite-nos encontrar algumas linhas cruzadas que gostaria de interpretar.

Quase todas as mulheres se definem, ou, melhor se olham, através do casamento: a beleza apagada apreciada pelo marido; o banho de imersão com uma garrafa de champagne, pela libertação alcançada com a prisão do imbecil do marido político que se deixou apanhar; o amor incondicional da bibliotecária que só pensa no serviço doméstico ao marido alheada dos livros que a cercam; o regresso do antigo namorado que traz a insónia, enquanto o marido tranquilamente ressona; a teia matrimonial de que a engordada mulher foge a caminho do precipício. Juntemos a esta autodefinição relacional o caso da namorada que teme perder o namorado, tanto como teme a liberdade; o da jovem que enfrenta o ódio à mãe nos braços do professor da Faculdade; e, finalmente, a história da que resolve o ódio invejoso à irmã apenas quando ela morre e o arrependimento a atira para os braços da Fé.

Contrariamente às mulheres, os homens definem-se por características assumidas como intrinsecamente suas, independentemente, na esmagadora maioria dos casos, da relação matrimonial. Já aludimos à questão da perda ou ausência do Pai/Deus e recordemos agora rapidamente: o lamento alcoólico pelo casamento homossexual do filho; o ódio ao irmão olhado como parasita e incapaz; o delírio louco do Big Finger informático; a estratégia para escapar às viagens planeadas pela mulher; a gula assumida; o voyeurismo assumido também; a hipocondria transformada em auto-elogio; a pesca compensatória do casamento de que fugiu; o medo do envelhecimento convertido em sobranceria. São estes os medos e os pecados no masculino, bem diversos dos femininos.

Por outro lado, a banalidade de que falava no início não diz respeito apenas à vulgaridade das vidas, mas também, e sobretudo, aos estereótipos que as enformam: mulheres inseguras, mulheres abandonadas, mulheres silenciosamente enraivecidas, finalmente mulheres vingativas. Já os homens são avessos a entregar-se à tristeza e afogam as frustrações em substitutos laterais: uma bebedeira, o poder; uma casa de campo; a comida e o sexo em doses “pantagruélicas”; o voyeurismo; a gabarolice; a pesca; o isolamento, a sobranceria.

Não se pense, no entanto, que o masculino sai melhor deste retrato multifacetado do que o feminino. Um e outro incorporam os estereótipos mais comuns, só que de forma diferente.
A esse propósito, não posso deixar de referir um dos contos que considero exemplar: “Eu, Augusto, me confesso: sou um voyeur”. Nele, o protagonista assume a sua condição de “stalker”, imaginem, de rabos femininos, desde que, aos 16 anos, viu uma mulher nua, de costas, no vestiário de uma loja. Com o fino humor que a caracteriza, a autora brinca com a questão do arquétipo feminino, de uma forma que faria corar o beatífico Petrarca e até o vivido Camões. Diz Augusto: (ver pág. 82 e pág. 83).

Eu nunca li uma tão divertida redução fetichista da mulher que, em boa verdade, tem a sua compensação, mas também, paradoxalmente, a sua reiteração, no conto “Eu, Gustavo, me confesso: sou, sempre fui muito guloso”. Para se vingar da insignificância a que a família o condenou, atribuindo-lhe um ridículo diminutivo, transformou-se num gigante guloso da comida e de mulheres. Inspirado pela pintura de Botero, cita o mestre numa mortífera declaração sobre a destituição do olhar nos corpos pintados. (ler pág. 70).

É claro que a autora destes contos é a mesma que escreveu o provocador romance E Se D. Juan Fosse Mulher? Também por isso, ou porque o mundo é como é e as pessoas são como são, numa leitura com rede mais fina, percebemos que a segurança dos homens é uma fuga e uma capa milenar contra os medos que não ousam admitir. E a insegurança das mulheres é, também, não raras vezes, a capa que cobre a silenciosa vingança preparada solitariamente e servida fria. Penso, particularmente, em Deolinda, Sílvia, Manuela, Juliana, Rosa e Helena. Mas este modo de ser no feminino também ele não deixa de obedecer a um modelo ancestral.

Quem tem razão, como sempre, é o louco, esse Gino do incrível conto 7 (belo número para chave) que leio como metáfora e metonímia de todos os outros. É que o Google que hoje nos controla, o “Chip” que, segundo Gino, “Eles” nos querem implantar, é a figuração daquele que alimentamos há milénios, os valores ou desvalores que nos condicionam e que só em alguns momentos históricos parecem cair por terra e ainda de que só alguns, muito poucos, deles se vão libertando. Mas mesmo esses podem descobrir, atónitos, que a libertação é ilusória, como acontece ao desgostoso e envergonhado António, no conto 3 que confessa: (pág. 23).

Os valores, os medos e as frustrações que se entranharam desde a infância são mesmo os chips, amigo Gino, de nada servirá o teu drone destruidor. E são eles que, laboriosamente, tecem a estratégia da aranha da qual temos de nos libertar, com sangue, suor e às vezes voos no precipício (não é Helena?), mesmo que, para isso, aceitemos, desde que sejamos nós a guiá-la, a ajuda do caçador que existe no final de todas as travessias da floresta.

4. ORFEU OU O PERIGO DE OLHAR PARA TRÁS E AINDA O PRAZER DO MOMENTO
O mergulho do ser em si mesmo implica o regresso ao passado. (Eu bem avisei que o Freud andava por aqui…)
Esse regresso, inevitável e perigoso, acontece das mais diversas formas, em muitos dos contos mais fortes. Já percebemos que muitas das personagens construíram as suas vidas sobre escombros do passado que o tempo foi, insidiosamente, ocultando.
Mas é o conto 18 - “Eu, Duarte, me confesso: chateia-me a ideia de envelhecer” - aquele em que a reflexão sobre esse regresso, aqui recusado, ganha um significado que poderemos estender a todo o livro.
É verdade que, para entender o presente, é necessário – quantas vezes – ressuscitar o passado, revisitá-lo, matá-lo. Mas quanto sofrimento e quantos perigos podem estar à espreita nesse recuo. Escutemos Duarte: (pág. 117-118)

Pois é! Lembremos Orpheu, que os mitos, esses, sim, estão vivos: olhar para trás é muito perigoso, pode transformar-nos em cinzas que é a matéria de que o passado é feito, quer nos agrade, quer não. Viver então o presente, de preferência com um olhinho no futuro, é, apesar de tudo, a máxima deste livro que, não obstante o título e tudo o que sobre os seus habitantes ficou dito, não é nenhum muro de lamentações. Longe disso. Diria que é mais uma boa gargalhada.

A vida está sempre aí, cheia de promessas, que se nos oferecem em formatos variados: um reencontro no Natal, uma escapadela com o colega na sala de reuniões, uma “Sagres, a loira irresistível dos nossos corações”; uma garrafa de Veuve Clicquot, um franguinho de caril, um corte de cabelo à Juliette Binoche, uma colombiana gordinha, os braços de um professor de Literatura Comparada, um belo traseiro, a luz da Fé, um campo de treino de tropas de elite, as lágrimas de alívio, a pesca de uma corvina, um comprimido para dormir, uma madura checa conhecida num congresso, enfim, um caçador salva-vidas.

E não é o que mais nos faz falta? Um salva-vidas, seja ele exterior ou interior?

“Vamos beber à nossa saúde que é o que importa? Claro, vamos a isso, vamos beber à saúde das nossas escapadelas, dos nossos engates, das nossas folias passadas, dos nossos projectos, sim, tens razão, é só isso que importa, tudo o resto são ninharias. (…) somos pó, cinza e nada e afinal, só este céu importa (…) olhar o firmamento, princípio e fim de todas as coisas… à tua” (pág. 24).

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ISABEL CRISTINA MATEUS- Abril 2017

Desde Santo Agostinho que as “confissões” se foram afirmando ao longo do tempo como género literário situado na zona de fronteira com o diário e a autobiografia, se não mesmo com o ensaio, as memórias ou o monólogo interior. Santo Agostinho deixou-nos nas suas “Confissões” o retrato sincero da inquietação que atormentou a vida do homem (e do homem religioso em que veio a converter-se, em particular), uma escrita que brota de um desassossego interior, da procura de um sentido que, embora por razões distintas, não deixamos hoje de ler como nosso. Optar pela “confissão” como género significa assim optar por um registo intimista, confidencial, privado, que de alguma forma se confunde com o diário ou mesmo com o ensaio enquanto escrita do eu, tal como o viria a conceber Montaigne no século XVI.
Confirmando esta porosidade do género ao longo do tempo, Bernardo Soares haveria de chamar, muitos séculos mais tarde, aos fragmentos da sua “autobiografia sem factos”, o mesmo é dizer, às páginas soltas do seu “diário ao acaso”, as suas “confissões”, acrescentando que se “nelas nada digo é que nada tenho a dizer”. Ainda que com elas componha um interminável livro que nunca o foi, o livro do seu íntimo desassossego.
Pese embora a distância temporal e a (des)crença que os separa, um e outro procuram descobrir-se nos mais ínfimos gestos e movimentos de alma, dar conta das suas angústias e contradições, das suas dúvidas e deslumbramentos, confidenciar-nos o modo como olham o mundo e nele procuram ser felizes.

O mesmo poderia dizer-se das dezanove personagens do livro “Confissões” de Conceição Carrilho. Dez homens e nove mulheres assumem-se (quase sempre) como voz narrativa de um diário escrito a várias mãos que, frequentemente, cede à tentação autobiográfica e ao monólogo interior, se não mesmo ao ensaio. Nesse gesto íntimo de desocultação acabando por confessar o que de mais inconfessável há nas suas vidas, aquilo contra o qual se rebelam ou se resignam, aquilo que só pode ser dito à luz da escrita, melhor dizendo, no confessionário da escrita. Do homem que recusa envelhecer ou do pai resignado mas incapaz de aceitar a homossexualidade do filho ao que vive atormentado pelo medo das doenças, da mulher que odeia a mãe, da que se sente incapaz de decidir perante a infinita liberdade de escolhas no mundo moderno à que abdicou de viver para viver em função dos outros ou ainda àquela que decide pôr fim a um casamento asfixiante.
Entre risos e lágrimas, o véu que estas confissões levantam é o véu da (auto)ironia e do humor, pecados para os quais não parece haver absolvição possível nestes tempos de máquinas e de desumanização crescente. Desta forma descobrindo os muitos interditos sociais que nos atormentam, nos tolhem os gestos e fazem da nossa vida um quotidiano rosário de lamúrias. Ao mesmo tempo que desmontam as convenções e as frases feitas que ameaçam transformar a nossa vida numa “beleza apagada”, condenando-nos a ver passar ao lado a felicidade que afinal estava ali tão perto, bem ao alcance das nossas mãos. Tenha ela a forma de uma garrafa de Veuve Clicquot ou de uma qualquer página em branco de um livro de confissões.

“Livre, livre, livre... Sonho ou realidade? Realidade, realidade, livre enfim... já não era sem tempo. Isto, minha querida, merece festejo. É mesmo isso, vou preparar um banho de imersão, cheio de espuma e, já agora, vinha mesmo a calhar um bom champagne. É isto mesmo! Afinal nem só as despedidas de solteira e os casamentos merecem festejos. Os divórcios deviam também entrar na lista das grandes celebrações. Quantas vezes bem merecidas! Pois não mereço eu uma boa recompensa por tantos anos desperdiçados? Burra... Mas feliz, agora, aproveita então, deixa as queixinhas. Vou desligar o telemóvel. Não quero ser interrompida e já sei como é, não tarda nada está aí tudo a perguntar como me sinto, depois da assinatura do divórcio. A minha primeira comemoração é comigo mesma, mereço este momento a sós comigo. Esta oferta de sais de banho foi providencial... as essências de alfazema são um bom relaxante! Um banho de espuma, há quanto tempo não tinha esta ideia! Ah, já agora uma boa música, isto não pode faltar. O que é que me apetece ouvir? Uma coisa calma... Katie Melua? Não, Norah Jones! Falta o principal, uma boa bebida. Deixa cá ver... Não digas nada, menina, que não tens nada à mão. Não acredito... mas... não, não é possível...
Espera, onde está aquela caixa de Veuve Clicquot que ele tinha comprado em caso de vitória nas eleições? Tenho a certeza que ela estava aqui na despensa.”

“Eu, Sílvia, me confesso: casei-me com um imbecil”. Confissões, p.25.

2 COMMENTS ON THIS POST To “O Livro das Confissões”

  • Maria Fernanda Campos

    14 de Setembro de 2016 at 17:41

    Já estou a salivar. Quando chega a Coimbra?
    Por que razão as mulheres estão em minoria? O (a) narrador(a) também mete a colher? Mas isso é “jogo viciado”!

    Abraço,
    M. Fernanda

    • Conceição Carrilho

      17 de Setembro de 2016 at 18:27

      Olá Fernanda, que saudades! pois irei com todo gosto “confessar me” a Coimbra; depois combinamos. Sobre as mulheres estarem em minoria, acontece que ao meu confessionário acorreram mais homens do que mulheres talvez o leitor me ajude a desvendar este facto inesperado… Um grande abraço

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