Ler é Perigoso

Pouco riso, pouco siso?

Pintura de Johannes Moreelse (1630)

1. A comunidade do riso: a nossa verdadeira família?
Imaginemos alguém a chorar sozinho num banco de um jardim. Certamente não faltarão pessoas que, movidas pela compaixão, se aproximam e propõem ajuda. Imaginemos agora alguém nesse mesmo banco a rir sozinho. A reacção mais provável é olharmos essa pessoa com estranheza, perplexidade e até com alguma desconfiança: estará a rir de mim? Assim, mesmo se a vontade de rir sozinho em público é grande, tentamos domá-la pois sabemos que pode ser mal interpretada.

Estes homens de Juan Muñoz ( conjunto de estátuas intitulado treze a rir uns dos outros, no Porto, jardim da Cordoaria) estão a rir uns dos outros, a rir do mundo e talvez de si próprios. Riem naquela alegre cumplicidade dos que riem juntos. Há quem defenda que a verdadeira família é a que ri das mesmas coisas: numa determinada situação, a espontaneidade de uma gargalhada revela, muitas vezes, uma aliança mais sólida do que a dos laços de sangue. Isto leva-nos também a concordar com aqueles que defendem que o verdadeiro amigo é o que se alegra com as nossas alegrias, já que para ajudar a secar as lágrimas se infiltram, entre os amigos, alguns abutres sequiosos de sangue.

2. Rir: sair do espaço e do tempo?
A tragédia prega-nos ao chão, verga-nos e, sobretudo quando é inesperada, coloca nos olhos uma venda que não deixa ver, no horizonte, quaisquer promessas de uma vida futura. Pelo contrário, o riso suspende por momentos o peso da existência, o fardo que a pressão do tempo e das suas agruras coloca em em cima dos nossos ombros. Por momentos, sob o efeito de uma feliz amnésia, o tempo liberta-se das contingências quotidianas e abre-se, tal a sumptuosa cauda do pavão, à alegria multicolor da vida. O corpo crispado desenruga-se, não para se pavonear, mas para se “esborrachar” de riso, como os homens de Juan Muñoz.

3. Riso: a liberdade possível ao nosso alcance?
Poderíamos então colocar a seguinte questão: os momentos de riso, esses breves hiatos no veloz correr do tempo, esses raios que abrem no céu sombrio focos de luz, não serão aqueles em que nos sentimos inteiramente livres? A liberdade total- não aquela, em pequenas doses, que experimentamos de forma intermitente ao longo da vida- é uma quimera e, como todas as quimeras, alvo de incessantes projecões e fantasmas. Nas sábias e profundas páginas finais da Guerra e Paz, Tolstoi afirma precisamente que a liberdade total não é possível já que exigiria um ser humano que vivesse fora do tempo, do espaço e das “leis” da causalidade, isto é, não sujeito a quaisquer influências externas. Ora, tal ser humano nunca existiu, não existe e nunca poderá existir. Não poderíamos assim ver nos breves instantes de riso a realização dessa utopia da liberdade?
Com efeito, a tragédia (e o trágico) colam-nos ao acontecimento, inviabilizam qualquer distância. Pelo contrário, a comédia (e o cómico) afastam-nos dele e o seu poder de actuação é tanto mais eficaz quanto é maior a distância a que se observa o acontecimento. Na cultura chinesa diz-se que há duas formas de olhar a vida: a da águia e a da tartaruga. Esta última seria então o olhar da tragédia, enquanto o olhar da águia seria o da comédia. Com efeito, à medida que se afasta da terra e se distancia do mundo, o olhar humorístico, despido da barreira dos preconceitos e tabus, consegue voar, livre, de ideia em ideia. Não é, pois, por acaso que o fanático receia o riso. Colado ao chão como a tartaruga, sujeito à sua visão limitada, enfiado na carapaça dos seus dogmas, ele torna-se incapaz de vislumbrar outros mundos para além daquele estreito caminho que percorre e que acredita ser o único possível.

4. Mundo mediático: vitória da tragédia?
No teatro clássico distinguia-se a comédia da tragédia a partir de alguns tópicos: um deles afirma que na comédia acaba tudo em casamento e na tragédia em morte. Um outro tópico aponta para a relação entre as personagens: na comédia o mundo divide-se entre os que burlam e enganam e os que são enganados; a tragédia privilegia uma relação entre carrascos e vítimas.
Ora, a sociedade hiper-mediática de hoje, de tendência hiper-realista e dramática, colada ao presente, empurra o cidadão comum para o mundo espectacular da tragédia e leva-o a engrossar a procissão que precisa de mártires, de vítimas e de carrascos para cumprir o seu dever de purga. Como todas as procissões exaltadas, elas clamam por mais sangue e mais vítimas, de modo que os carrascos brotam todos os dias e já ninguém sabe muito bem de onde nem por que razão. Claro está que não nos referimos aqui aos crimes colectivos e individuais sobejamente conhecidos por todos. Falamos aqui, sobretudo, de uma tendência, de uma forma de estar e olhar o mundo.
A tendência para a vitimização constitui – ideia partilhada por alguns sociólogos- um dos reversos das democracias actuais, resultante do abandono progressivo do sentimento de responsabilidade. As múltiplas teorias do complot que assolam hoje o mundo são disto uma prova clara. O complot é isto mesmo: uma negação total da minha responsabilidade perante as forças dominantes, tanto mais poderosas quanto são ocultas. De um lado estão os culpados, do outro os inocentes. De um lado os carrascos, do outro as vítimas.
Pelo contrário, o mundo da comédia, que se articula à volta da relação enganados/ enganadores, é mais indulgente. Sabe que somos todos “pecadores”, dignos de compaixão e de riso. Na comédia vinga a comiseração que todos inspiramos, explora-se aquilo que Aristóteles designa, no seu estudo sobre a Comédia, de Ridículo, aquele pequeno defeito risível, a fraqueza que faz de nós seres humanos.

Curiosamente, este mundo dos pequenos ridículos parece-me bem mais real do que o outro, de vocação trágica. Afinal, em menor ou maior grau, de forma mais evidente ou mais secreta, em todos nós vive um mentiroso como o Tartufo de Molière, um hipocondríaco como o herói do seu Doente Imaginário um forreta, como Harpagão, herói do divertidíssimo Avarento, um misantropo como Alceste (O Misantropo), uma sabichona pretensiosa (As preciosas Ridículas) ou um ciumento (Esganarelo ou o Cornudo imaginário). Mas é mais raro ver a nossa alma possuída pelo ciúme patológico de um Iago (personagem da peça Otelo, de Shakespeare), que não descansa enquanto não semeia a morte e a destruição à sua volta ou, ainda, habitada pelo desejo sanguinário do mítico Macbeth.

 

 

Assim, talvez não fosse má ideia espalharem-se pelas cidades mais estátuas como estas dos Treze a rir, para nos lembrar que a leitura que os media nos apresentam do mundo só ganharia, por vezes, em passar pelo filtro capaz de provocar uma boa gargalhada.

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