Ler é Perigoso

Percurso de Vida

1. Licenciatura

Quando concluí a minha licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade Nova de Lisboa, em 1983, entrei na Universidade do Minho, em Braga, como professora de Literatura.


2. Primeira paixão Literária

Viagem ao fim da noite

Mal cheguei à universidade do Minho, jovem, rebelde, e amante de todos os espíritos virulentos e cáusticos, perdi-me de amores pelo escritor L.F.Céline, aliás, por uma obra deste autor, Viagem ao fim da noite, um dos romances europeus mais marcantes do século XX.

3. Estadia em França

Ville de Nantes

Creperie Jaune em Nantes - França

Galette

A famosa Galette

De forma a conhecer melhor a pátria da revolução francesa e os seus espíritos aguerridos, como Céline, fiz as malas e viajei para a terra dos gauleses, onde vivi três anos, de 1990 e 1993. Escolhi a cidade Nantes, cidade de Jules Verne, na confluência da Bretanha e de Anjou.

Nesta cidade portuária tornei-me uma gourmet e fã, entre muitas outras delícias, das célebres galettes feitas de farinha de trigo preto.

O pecado da gula valeu-me uns quilitos a mais-o que acontece aos melhores no país que se vangloria de ter um maior número de queijos do que de dias do ano- indispensáveis para suportar as agruras inerentes à redacção de uma tese de doutoramento.

LINK:

Le Journal d´une Femme de ChambreLe Journal d´une Femme de Chambre

4. De regresso a Portugal

Portugal desfigurava-se sob o motor furioso de milhares de gruas.

Prédios em Braga

Fotografia da Cidade de Braga

Regressei a Portugal e a desfiguração da paisagem do meu país, da paisagem natural e urbana, deixou-me à beira de uma crise de nervos. Portugal desfigurava-se sob o motor furioso de milhares de gruas que colocavam prédios hediondos e estradas inúteis em qualquer sítio, em qualquer lugar, à revelia de todo o gosto e bom senso.

A beleza do meu país era dia a dia estrangulada sob o olhar cúmplice de muitos que agora vociferam contra a Troika.

Tinha escrito uma tese sobre A Viagem ao fim da noite e agora estava a assistir a uma viagem igualmente sombria, cujas consequências seriam claramente dramáticas, para quem estivesse realmente disposto a ver.

LINKS:

Pulpit rockLuchini diz Céline Voyage au bout de la nuitVoyage au bout de la nuit

5. Jornalismo e Associativismo

Comecei a escrever no jornal local de Braga, Diário do Minho, alertando para o caos urbanístico. Escrevi neste diário entre 1995 e 1997.

Em 2001 integrei a Associação dos Cidadãos Auto-Mobilizados e demos início a uma série de iniciativas, sobretudo contra as horríveis passagens aéreas que desfiguram de forma brutal o centro da cidade.


6. De Céline a Cervantes

O maior coup de foudre da minha vida: o D.Quixote, de Cervantes.

D.Quixote de Cervantes

G Doré, D.Quixote

Concluída a tese de doutoramento senti-me esgotada. Como diz Diderot, só os maus livros são inocentes, e o romance Morte a Crédito, ( Assírio e Alvim, tradução de Luiza Neto Jorge), de Céline, objecto de análise desta tese, foi uma segunda etapa da viagem ao fim da noite, uma viagem que em muitos momentos mais se parecia com uma batalha. E como em qualquer batalha, o risco de ficar depenado é grande....

Temendo ficar depenada, decidi ir à procura de novos ares, novos caminhos: por que não uma viagem ao começo da vida? Deu-se, nesse momento, o maior coup de foudre da minha vida: o D.Quixote de Cervantes.

Leitor, cuidado, os livros são perigosos e isto de ler tem muito que se lhe diga: gera paixões, ciúmes, simpatias, antipatias, amores e fanatismos, um monte de problemas...

7. Escrita romanesca e espartilhos académicos

Fim do Caminho

Quando a paixão é intensa, ela rebenta pelas costuras. De forma a aliviar a tensão acumulada, escrevi o livro Da impossibilidade de viver sem ter lido o D.Quixote.

Ao escrever este livro percebi que o meu espírito sofria imenso com o espartilho da escrita e do espírito académicos.

Além do horror que tenho a espartilhos, que me sufocam e provocam asma - doença que sofri até conseguir arrumar com todos os espartilhos no lixo- persistir no caminho académico com as suas exigentes notas de rodapé perturbava algumas das minhas convicções.

Uma delas é esta: depois dos quarenta não temos de dar provas a ninguém a não ser a nós próprios. A ideia de ter de me sentar mais uma vez no banco dos réus para prestar provas sobre o meu saber afigurava-se algo de contrário à adulta que queria ser, a todo o custo.

Esta minha convicção partiu de um escritor, como quase todas as grandes convicções da minha vida, neste caso de uma escritora:

Quando a obra nos ocupa desleixa-se a carreira.- Agustina Bessa Luís

E de que obra se trata? Da vida, com as suas ninharias saborosas.

E esta frase lembra-me uma maxima de Oscar Wilde:

Põe na tua vida todo o teu génio e na obra só o talento.- Oscar Wilde

LINK:

Pulpit rockDa impossibilidade de viver sem ter lido o D.Quixote

8. Confesso: Sou uma Casanova Literária

Sou uma prodigiosa aventureira, totalmente insaciável

Paixão pelos Livros

Para além de Cervantes, tenho outras paixões arrebatadoras. Em matéria literária sou uma prodigiosa aventureira, totalmente insaciável. Por isso, na Universidade, nunca me fechei em especialidades e fui sempre trabalhando e ensinando os autores que me ensinaram a viver: Kafka, Vila-Matas, Gogol, Maupassant, Melville, Flaubert, Proust, Homero, Ovídio e tantos, tantos outros.

Molière é um deles, As farsas, As comédias, O Avaro, O Misantropo, O Cornudo Imaginário e, sobretudo, o Dom Juan.

Sou, assumo-o, uma verdadeira Casanova literária: passo de um para outro autor com ânsias e suspiros dignos de uma adolescente que já não sou. A propósito, nasci em 1958, podem ver como tudo isto é um pouco infantil ... mas em matéria literária a carne é fraca ... e sempre jovem.

Desta vez, subjugada pela prodigiosa força donjuanesca, fui obrigada a exorcizá-la como pude. Escrevi então: Quando Marinela Salero Cortez decidiu imitar Dom Juan.

LINKS:

Pulpit rockErwin Schrott canta Don Giovanni Voyage au bout de la nuitLa nuit de Valognes, 1991

9. Viagem a Itália

Fieldade dos Livros

Sou, também, uma cinéfila, amante de cinema italiano e uma fâ da Viagem a Itália de Rosselini, um dos meus filmes de travesseiro.

Entretanto, entre muitas e muitas outras paixonecas, que seria impossível e fastidioso enumerar, surgiu o príncipe dos príncipes: Italo Calvino. Desta vez, o meu amante levou-me até Itália.

Vivi em Itália alguns meses do ano de 2007 (em Bolonha), onde aprendi Italiano, um pouco mais de literatura italiana e fiz as habituais rotas perigrinantes: os lugares onde nasceu, onde escreveu, onde viveu. Porque o amor é ávido e canibal...

Quando estava a viver na pátria dos tortellinis e das lasanhas, um livro de Calvino, O dia de um escrutinador, reteve a minha atenção.

O livro conta as aventuras de Amerigo, um intelectual comunista chegado, em 1961, ao Cottolengo de Turim - uma instituição de caridade que albergava pobres, deficientes, doentes mentais e toda a espécie de abandonados à sorte- para ajudar numa mesa eleitoral. Uma das suas tarefas consistia, como acontece aos que estão numa mesa de voto, em conferir o eleitor a partir da fotografia do cartão. A certa altura, entrou na sala um grupo de freiras e Amerigo deparou com algo surpreendente: as freiras não apresentavam o típico rosto de quem se deixa fotografar – olhos arregalados, as feições inchadas, um sorriso que não condiz, neles reconhecendo a sua própria falta de liberdade diante do olho de vidro que nos transforma em objectos, a sua falta de desprendimento para consigo mesmo, a neurose, a impaciência que prefigura a morte nas fotografias dos vivos. As freiras não: posavam diante da objectiva como se o rosto já não lhes pertencesse: e desse modo saíam perfeitas.

Li e reli esta passagem intrigante que me obrigou a encarar um dos maiores medos da minha infância: posar para a fotografia.

LINK:

Pulpit rockViagem a Itália de Rosselini

10. Medo de ser fotografada

Medo das Fotos

Tive, desde criança, um pavor tremendo em posar para uma fotografia. Sentia um medo, um terror, uma ameaça. Seria, ainda nas palavras de Calvino, a ânsia, a carga que torna rígidas as faces ao relâmpago do fotógrafo e não nos deixa satisfeitos com o que somos?

Desejosa de saber de onde teria nascido este pânico, comecei a escrever um romance, Esmeralda odiava ser fotografada, cuja heroína é precisamente uma fotógrafa.

Desta vez viajei um pouco mais por mim própria: foi mais trabalhoso, mas resultou; não descobri a razão do pânico, mas deixei de o ter.

Sempre acreditei que escrever era mais eficaz do que consultar psicólogos, psiquiatras e psicanalistas.

Basta um diário, os resultados são fabulosos, acreditem.

11. Desgosto

Tenho um grande desgosto: não saber desenhar.

Decidi contorná-lo começando a interessar-me pela História da pintura e das suas relações com a literatura, um permanente objecto de estudo e de interesse até hoje.

Aventurei-me, assim, a estudar alguns pintores, de onde saíram, entre outros, os tabalhos seguintes:

Notas:

Cahiers Mirbeau, nº 7, 2000
Le peintre vampire ou la ruptura artiste/société pendant la deuxième moitié du XIX siècle: Mirbeau, Zola, Maupassant.

Rev Ariane, 2001-02
L.F. Céline e Francis Bacon

Colóquio M.G. Le Clézio, 2009
Frida Kahlo vista por Le Clézio

Seminário Univ do Minho,2012
O não sorriso de Frida Kahlo


12. Animação Cultural

Foi também algo que sempre me entusiasmou: gerar eventos, criar acontecimentos que reúnam pessoas à volta das quais nascem projectos.

Entre 2002 e 2006 estive à frente do Departamento de Francês da Universidade e aproveitei esta tarefa para me dedicar ao gosto da animação cultural. Espectáculos de música ( Luís Madureira), de dança ( Boris Vian dançado) de teatro ( Sarraute encenada Por Diogo Dória), colóquios sobre os temas mais variados ( literatura policial, Napoleão, literatura e cinema, o Humor, etc) e conferências ( Lipovestky, Wolton, Diogo Dória, João Botelho, etc), mobilizaram e entusiasmaram alunos e professores.

Nota:

A recompensa

Quando realizamos uma acção a pensar na recompensa, pode sair bem feita, claro, mas arriscamos a insatisfação e a frustração. Porque caso ela não tenha a recompensa esperada, caímos num estado de vazio existencial e ao seu inevitável desabafo: e eu que dei tanto e recebi tão pouco!

A única fonte de reconhecimento e de satisfação deve alimentar-se do prazer que temos em realizar uma determinada tarefa. Dito assim, parece tão sensato como banal mas não há nada mais difícil, sobretudo no mundo das sobre- avaliações de hoje. Difícil, também, porque exige de nós o mais difícil aperfeiçoamento: não o que faz de nós melhores políticos, professores ou empresários, mas melhores seres humanos. É tarefa para uma vida inteira.

Foi, assim, com alegria que, seis anos depois de ter dirigido o Departamento de Francês, recebi a distinção de Chevalier dans l’ordre des Palmes Académiques, concedida pelo Ministério da Educação Nacional e do Ensino Superior Francês.

13. Mudança de vida: evitar o bolor e o SBN

Medo das Fotos

As Aventuras de Tintim

Entretanto os anos passaram: à primavera seguiu-se o verão, ao verão o outono, ao outono o inverno, e eu, no meio de tantas estações sempre a rodarem à volta do mesmo, acabei um dia por me lembrar das palavras do meu primeiro amor, L.F. Céline: quando ficamos muito tempo num sítio, começamos a apodrecer.

Gostando tanto da vida e temendo mais a putrefacção que o diabo a cruz, percebi que corria perigo. Entrar todos os dias no mesmo local de trabalho, nas mesmas salas de aula e falar com os mesmos colegas ameaçava bolorizar-me.

Lembram-se daquele cheirinho de naftalina que havia nos baús das nossas avós, hoje substituído por alfazema?

Pois um dia tive esta visão: eu a decompor-me e a tresandar a naftalina, a que me agarrava como náufraga à tábua de salvação.

Quer, agora, o Estado, que os professores ensinem até esgotarem o stock de naftalina.

Além disto, quer transformá-los em burocratas cinzentos ao serviço do SBN: Serviço Bolorcrático Nacional.

Não sei, talvez desta vez precisemos de uma revolução com menos cravos e mais espinhos, ou então cravá-los bem na ferradura.

Como as grandes revoluções têm muitas vezes de partir das pequenas, decidi, em Maio de 2013, abandonar a profissão para me dedicar a outros projectos.

14. E viva o Nomadismo

E viva o Nomadismo

Georges Seurat (1859-1891), Le Cirque

O gosto do nomadismo acompanhou-me desde sempre, faz parte do meu imaginário. Talvez porque em criança havia mesmo ao lado da minha casa uma grande comunidade cigana e a sua célebre heroína, Laranja, uma bela rapariga que adorava agitar o bairro com motins passionais.

Outras viagens se impõem agora, que ponham o sangue a circular, o corpo a mexer.

Vou seguir estrada fora, em profunda e total imitação da minha mais perene paixão: D.Quixote.

E espero que a minha caravana quixotesca, que dará a volta a Portugal brevemente, se encha de saltimbancos numa viagem au bout de la vie.

15. Download do PV

Poderá fazer o download do meu PV em 3 linguas: Português, Francês e Italiano

Versão Portuguesa:

Versão Francesa:

Versão Italiana:

4 COMMENTS ON THIS POST To “Percurso de Vida”

  • Isabel, a bolorenta inconformada

    6 de Fevereiro de 2014 at 23:02

    Eu, bolorenta, me confesso.
    E me angustio, me escarneço e envelheço.
    E odeio – como é feio! Mas anseio
    E desejo, logo “arejo” :D, pois cortejo
    Os sonhos, os sentidos, os segundos
    De outros mundos, tantos!, fundos…,
    Em que a vida possa ser promessa,
    Uma peça (de teatro!) que esclareça
    O porquê desta luz que sempre cessa.

    [Agora vem a parte da “graxa”]

    Por isso, ao ver alguém que em frente ruma
    Leve e só, quase às cegas, e que apruma
    Esse trejeito de desprezo tão alerta,
    Sinto a brisa, o frescor que se liberta…
    E aí, prontamente, a frase certa
    Ganha corpo e o medo enfim se esfuma.

    À São Carrilho, de uma admiradora
    (que chacina a métrica e assassina a rima :D)

    • Conceição Carrilho

      7 de Fevereiro de 2014 at 10:01

      Estou RENDIDA! Subjugada! O ritmo incantatório ( e a graxa, claro, à mistura) fazem deste poema uma obra prima. Sinto que está a germinar, por aí, uma OBRA!
      Em frente, ragazza e grazie mille.

  • Maria Arejada

    23 de Outubro de 2013 at 20:33

    Eu bolorizo, tu bolorizas, ele boloriza, …a fronteira dos filiados pardacentos no SBN estende-se muito além do Ensino!
    Este bolor tem uma persuasão que muitos vendedores porta-a-porta, e angariadores de seitas religiosas arriscariam couro e cabelo para possuir.
    Ficar acomodadinho no cantinho bem quietinho no servicinho…no mundinho do “-inho” é fácil, quando nos deixamos render pelo fatalismo da crise, mais o seu discurso do “está dificil”, “tem cautela, tu aperta cinto que vai piorar!”. E que muitas vezes, qual cãibra na canela, nos paralisa e faz calafrios só de pensar em verbalizar termos como: inovação, sonho, aventura, … que já nos soam ao impropério do pecado só de formulados no emaranhado das nossas mentes. Capazes de fazer arregalar olhares de crítica da beatice formatada nacional.
    Deste modo, como trauteiam os Deolinda: “(…)deixo-me andar aqui bem sentada, braços cruzados, perna traçada, que esta vontade, um dia, há-de passar (…)”.
    Mas a vontade não têm que passar, há que iniciar o movimento do SAN: Serviço do Arejamento Nacional, abrir as janelas de par em par, e pôr todos esses bolores ao sol! Português que se preze não se enrasca e não se encolhe com dificuldades, afinal de contas crise é sinónimo de novas oportunidades, ou seja, de mudança!

    P.S. Quanto às alfazemas, em vez de compradas sempre na esquina da Rua da Rotina colham-nas no acaso do campo…desentope os pulmões e é bom para o reumático, é dos melhores medicamentos anti-enpodrecimento.

    Atenciosamente,

    Maria Arejada

    • Conceição Carrilho

      27 de Outubro de 2013 at 17:23

      O ler é perigoso contragula-se desde já com a participação criativa desta Maria Arejada.
      O SBN estava mesmo a precisar de um SAN, cheio de odores de alfazema colhidas no campo.

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