Ler é Perigoso

1. Luxúria: o pecado capital  do abandono confiante

Comandados pelos mandamentos ir à luta, ser forte, ser vigilante, batalhar, orquestrados pela batuta destas palavras de ordem, os nossos comportamentos obrigam-nos a enfiar a farda de soldados hiper-vigilantes e a adoptar uma postura rígida, capaz de agir com eficácia nas manobras de ataque e de defesa.
Ora, neste panorama, a luxúria não pode deixar de figurar no topo da lista dos pecados capitais, mais grave do que a ira, a inveja, a gula, a avareza, a preguiça e a vaidade. Com efeito, as posições a que a luxúria convida são dignas de figurar no mais severo Index do século XXI. A rigidez e a verticalidade não são amigas íntimas da luxúria, já que esta Deusa, como se sabe, é fã incondicional de certas posições horizontais mais propícias ao prazer do abandono e da volúpia. Eis uma amiga, esta sim, íntima da luxúria: a volúpia, Deusa que tem também os dias contados neste planeta que corre veloz e galga os cinco continentes como Phileas Fogg, sempre a olhar para o relógio.

A luxúria não aprecia a pressa e é uma inimiga fidagal da urgência. Quando é obrigada, por entre os lençóis do leito onde se espraia e deleita, a atender alguma chamada de certos aparelhos muito inconvenientes (hiphone, smartphone, ….), fica uma fúria. Pois, é verdade, tem um fraquinho por um outro pecado capital, a Preguiça. Mas não suporta reprimendas pois defende, e muito bem, que o ócio e um certo espírito de far niente são os pais de todas as virtudes, uma fonte eterna de juventude de onde brotam as gotas necessárias à renovação da imaginação. A prová-lo estão todas as descobertas e invenções realizadas durante os momentos de lazer e durante o sono, cuja lista, grande demais, não pode ser aqui enumerada. Sim, a Luxúria é uma Deusa extremamente imaginativa e da sua arte e engenho depende uma grande parte da felicidade do ser humano.

renoirOlhemos para estas banhistas de Renoir. Abandono, calma, satisfação, uma voluptuosidade de gatas ao sol, despreocupadas e serenas. Nos corpos em ondas e curvas palpita uma respiração suave, como um hino a uma existência telúrica (tão característica deste pintor amante das mulheres). Talvez seja por esta capacidade de aliar o banho e a nudez à natureza, que o tema da banhista tem acompanhado a longa História da pintura. A relação perfeita corpo/ paisagem é um convite à luxúria.

 

 

 

 

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E o que dizer das personagens pintadas por Botero, todas em ondas e refegos? Não parecem elas oferecer-se ao nosso olhar como um  chocolate que apetece trincar e morder? O pecado da carne, pecado capital da luxúria, afinal tão próximo de um outro: a Gula. E numa época que mede e pesa, aflita, tudo o que ingere, estas tendências não podem fazer boa figura nos manuais  das boas práticas.

Talvez a pintura seja a arte que nos coloca de forma mais imediata em presença da luxúria, exactamente como quando estamos perante uma natureza exuberante: absorvidos pelo espectáculo contemplado, ficamos mudos e o embotamento do espírito é proporcional ao despertar dos sentidos, como se no nosso corpo vibrassem, em uníssono, todas as cordas sensoriais. Nesses momentos desperta em nós algo de muito raro: o sentimento de comunhão, de fusão, de harmonia, a descoberta de que fazemos parte de algo mais vasto e poderoso, que nos completa e dá um novo alento à vida.
Porque será então a luxúria um pecado capital? Talvez não o seja, afinal, pelos prazeres da carne mas pelo que estes implicam: alegria, sensualidade, calma, abandono, fusão e comunhão. Isto é, a expulsão do medo, da desconfiança, do cepticismo, do sentimento de exclusão.
A luxúria reconcilia-nos com o mundo e numa época que nos ensina a cautela, a desconfiança, a suspeição, em suma, um viver des- carnado, ela estará condenada, muito possivelmente, a passar um mau bocado.

2. Lutar é sempre preciso? Talvez não

Em Lisboa, na sede do Partido Socialista, no Largo do Rato, está escrita uma frase de Mário Soares: só é vencido quem desiste de lutar.
Se é uma frase justíssima, em qualquer situação e em qualquer regime, sobretudo numa ditadura como a que viveu Mário Soares, também é verdade que não desistir de lutar não é a única forma de ser vitorioso.
A visitação do altar da Deusa Luxúria, a prática do abandono confiante pode ajudar-nos a ver a vida de um outro ângulo.

capa_ZaZenO Za-Zen, que significa meditar sentado (za significa sentar-se e zen meditação, concentração). é uma prática que o ensina, ao incentivar em permanência a flexibilidade do pensamento e do espírito. Uma história contada no livro de Taisen Deshimaru, Za-Zen, la Pratique du Zen ilustra este ponto de vista. Conta o seguinte:

A um jovem monge foi delegada uma missão: levar uma carta a uma cidade próxima e entregá-la pessoalmente ao destinatário. Na entrada da cidade há uma ponte. Nela está um samurai que fez uma aposta: desafiar em duelo os primeiros 100 homens que lá entrassem. Matou já 99, o jovem monge sendo o centésimo a entrar na ponte, o último candidato, também, ao mesmo destino infeliz. O monge, no entanto, pede-lhe que o deixe entregar a carta primeiro e promete-lhe que, mal tenha concluído a sua missão regressará à ponte e lutará com ele.

Entregue a carta, decide ir despedir-se do seu mestre, pois sabe o destino que o espera. O mestre, ao ser informado do sucedido, diz-lhe que, com efeito, nada há a fazer pois é muito difícil um rapaz inexperiente na arte da espada poder vencer um reputado samurai. Só lhe resta, diz-lhe, aceitar dignamente a morte e, neste sentido, dá-lhe um conselho: mal chegues à ponte deves erguer os braços acima da cabeça e manteres-te imóvel com a espada nas mãos, Deixas-te ficar totalmente imóvel e nessa posição esperas calmamente o golpe fatal. Quando sentires um frio na cabeça, sabes que chegou o momento da morte.

O jovem monge regressa à ponte e cumpre rigorosamente os ensinamentos do seu mestre. Estático, com as mãos em cima da cabeça a segurar a sua espada, fica totalmente concentrado na sensação do frio e não se mexe. O samurai, espantado não só por ver que o jovem cumpriu a promessa de voltar, mas também pela sua estranha atitude, fica desorientado. Pensa, então, que ele é certamente um bravíssimo samurai, tão poderoso que nada teme e se pode dar ao luxo de estar naquela calma imperturbável perante um homem poderoso como ele. Ao ver que o jovem continua imóvel, começa a ter medo e a confirmar as suas suspeitas: trata-se, sem sombra de dúvida, de um reputadíssimo samurai. O medo é cada vez maior e, de tão forte, o gigante lutador cai aos pés do jovem monge e suplica-lhe que lhe poupe a vida e o aceite como seu discípulo.

Aprender esta calma, eis um dos luxos ao nosso alcance, tão extraordinariamente rico que só ele, talvez, nos garanta uma vida luxuriante.

2 COMMENTS ON THIS POST To “Luxúria, uma utopia para o século XXI?”

  • francisco abrunhosa

    23 de Maio de 2017 at 12:58

    A fábula do jovem monge, aos olhos de hoje, parece encerrar uma contradição insanável: alguma vez o samurai nos deixaria adiar o confronto sem exigir garantias impossíveis de cumprir, redigidas por causídico e assinadas e reconhecidas em notário? Duvido. Já não há samurais românticos como havia antigamente!
    Ainda assim, porém, perante os samurais possíveis, momentosos, a atitude aconselhada pelo mestre de Za-zen ao jovem monge é bem avisada e possibilitadora de bons resultados. Não se trata, contudo, de uma postura pusilânime, nem de desistência. Ao invés, trata-se de usar a arma suprema da inteligência, conjugando a confiança em si mesmo com o exercício da paciência: saber esperar é uma arte. Saber esperar, de braços abertos, sem desperdiçar energia, inutilmente, dá essa alegria, esse abandono, essa fusão, essa sensualidade, expulsa o medo e é atraente. Sim, isso também é luxúria! E só pode ser pecado para quem passa a vida a fugir dela, acreditando na felicidade acumulável em pacotes de experiências, pagas a crédito, e que nunca soube o que é perder-se nas sombras de uma pintura, nos recantos de um poema, nos ecos de uma partitura ou nas dobras de pele de um abraço querido.

    • Conceição Carrilho

      23 de Maio de 2017 at 17:24

      Pois concordo, saber esperar é uma das artes supremas da luxúria. E, também,por vezes (muitas vezes) não pensar, deixar-se levar pela forma suprema de inteligência: a intuição. Como dizia Agustina Bessa-Luís algures (
      penso que é no Dicionário Imperfeito), “cada gesto recria o mundo, cada pensamento o destrói”.

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