Ler é Perigoso

Pode a literatura salvar vidas?

1. Literatura e Salvação

Pode a literatura ajudar à salvação? Quando se coloca esta questão- e de uma forma geral quando se refere a função salvífica da arte-, o que está em jogo é não só a sua capacidade de nos ajudar a viver mas, também, a capacidade de nos afastar da vizinhança da morte: ajudar a superar uma depressão ou uma doença, restituir um sentido à vida, esbater a dor de uma tragédia, servir de estímulo para tomar decisões há muito adiadas, etc. Bóia de salvação, empurrão para a vida, mão capaz de nos arrancar do pântano do absurdo, um encontro com um livro consegue todas estas proezas. Por vezes, basta a lembrança de uns versos para, em momentos trágicos, restituir à vida a força e o sentido necessários, como nos conta Primo Levi no relato da sua passagem por Auschwitz em E se isto é um homem. A um dado momento, a lembrança de uns versos da Divina Comédia de Dante leva-o a dizer: por um momento esqueci-me de quem sou e onde estou.

Mas a ideia da salvação não se move, apenas, nesta esfera de grande dramatismo. A literatura ajuda, também, a salvar-nos do tédio, da tristeza, da falta de imaginação, da rotina, da solidão e, mérito assinalável, do excesso de realismo a que o mundo obcecado pela informação, por sondagens e estatísticas nos condena. É sabido que o poema que este mundo exaltante da sobre-informação mais nos incentiva a memorizar  e a termos sempre na ponta da língua, versa sobre as belezas poéticas do montante da dívida, do pib, do deficit e de todos os rankings mundiais. E depois ainda há quem se admire dos progressos galopantes da doença de Alzheimer!?

O prazer e a alegria que dá a literatura é, pois, um dos seus maiores méritos, apesar de serem muitos os que dele parecem envergonhar-se. Esta atitude não é de espantar: numa sociedade dominada pela ideia fixa da utilidade, a literatura entrou, nos discursos oficiais, no lote das actividades úteis, ela tem de servir para alguma coisa, ela deve servir propósitos elevados na formação dos nossos jovens. Obrigada, assim, a seguir a dieta do dever, ela foi-se afastando do prazer e da alegria e os banquetes literários foram deixando de ser temperados por uma certa folia libertadora.

Mas se a literatura consegue, como todo o amigo fiel, salvar-nos de uma série de impasses “ligeiros” é dos de maior fôlego que ela tira a sua carga dramática e se torna interessante. É quando ela salva literalmente da morte que se torna todo poderosa e nos aguça a curiosidade. Talvez por isto, Mira Nair, realizadora do filme O Bom Nome (2006) começa o filme com esta ideia: um jovem estudante indiano está de regresso a casa. Viaja num comboio apinhado e nas mãos tem um livro de Gogol, O Capote. À sua frente está um homem que começa a conversar com ele, o interroga sobre o livro que está a ler e lhe pergunta, a dado momento, se está a pensar viajar. Resposta do rapaz: o meu avô diz-me que a grande viagem é a leitura. O homem ri-se daquela resposta que parece considerar pueril e diz-lhe que ele é novo, livre e se quiser vir a ser alguém terá de viajar, deixar a Índia, ir viver para Inglaterra ou para os Estados Unidos. Uns minutos depois dá-se um terrível acidente. O jovem sobrevive. O capote de Gogol foi o seu anjo da guarda ( o que o espectador só descobrirá mais tarde). E as palavras do homem encontrado no comboio cumprem-se: uns anos mais tarde o rapaz parte para os Estados Unidos estudar e aí seguirá uma carreira académica. Ao seu filho dá o nome de Gogol, nome que colocará ao rapaz uma série de problemas e alimentará, em parte, a trama narrativa deste belo filme.

2. Um caso extraordinário: Goethe

Goethe 1Se o salvamento abençoado por livros é um tema apaixonante, há uma história que nesta matéria merece ser contada. Passa-se em 1823 e o seu protagonista é o escritor alemão Goethe (1749-1832). É-nos contada por Stefan Zweig, no livro Momentos Estelares da Humanidade (Círculo de leitores, 2007).
Goethe tem 74 anos. Acabou de lhe ser recusada a mão de Ulrike von Levetzow, de 19 anos. Na viagem que o leva de Marienbad- estância termal na moda, onde passou o Verão com a família da sua apaixonada-, até à sua cidade, Weimar, ele sente-se morrer de desgosto. Surpreendentemente novo para a idade, vive esta paixão com a intensidade de um jovem e é com esta mesma intensidade que se sente afundar num profundo desgosto. Durante a viagem não profere uma palavra. Sempre que param para uma pausa, Goethe aproveita para escrever. Escreve sempre que pode. Chegado a casa, passa três dias consecutivos a transcrever as suas notas, num estado febril. Será a célebre Elegia a Marienbad. Ele mesmo se encarregará de encadernar o manuscrito. Nos meses seguintes cai num estado de torpor que parece conduzi-lo à morte. Os médicos não sabem o que fazer e, julgando-o perto do fim, alguns amigos decidem chamar o músico Zelter, grande amigo e confidente do escritor.

 Ao chegar de Berlim, Zetler confirma a gravidade do estado de saúde do amigo. Conta Zweig que Zelter confessa ter encontrado “alguém que aparenta suportar no seu âmago todo o amor da juventude, juntamente com todo o tormento que lhe corresponde”. Zelter tem então a ideia de ler ao amigo, uma série de vezes, a Elegia de Marienbad. No livro de Régine Detambel Les livres prennent soin de nous, pour une bibliothérapie créative (Actes Sud, 2015), a autora, que consagra também umas páginas a este episódio da vida de Goethe, diz que na noite da sua chegada, entre o pôr e o nascer do sol, Zelter leu ao amigo 21 vezes a Elegia!
O efeito da leitura é prodigioso e, na companhia do amigo, Goethe sai do seu torpor e renasce. Morrerá muito mais tarde, aos 83 anos, e neste período escreverá, entre outras obras primas, o célebre Fausto.
Nas palavras de Zelter, conta Zweig, deu-se “a cura mediante o dardo que o havia ferido”. A cura poderá também, segundo Régine Detambel, dever-se à magia da oralidade, pois a melodia e o ritmo reequilibram e acalmam, sobretudo quando o leitor é um amigo querido como neste caso.
Sendo a literatura uma recriação e transfiguração do mundo - neste caso, o sofrimento amoroso é transformado por Goethe em consolo e beleza estética- ela opera naquele que escreve, naquele que lê e naquele que a ouve, notáveis metamorfoses.

Em 1957, Albert Camus (1913-1960) recebe o Prémio Nobel. No discurso proferido em Estocolmo por ocasião da entrega do prémio, disse, a propósito da sua geração: Sem dúvida que cada geração se supõe votada a refazer o mundo. A minha sabe, contudo, que não o refará. Mas a sua tarefa talvez seja maior. Consiste ela em impedir que o mundo se desfaça (O Avesso e o direito, Livros do Brasil 2007).
Pois talvez seje esta, também uma das funções da literatura, hoje: impedir que o mundo se desfaça.

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