Ler é Perigoso

1. Mãe e filha

“Eu só quero que tu sejas feliz, já sabes”. Seguiam, mãe e filha, para o Porto. Tinham entrado na estação de Aveiro e a mãe, desde que se sentaram, sussurrava ao ouvido da filha um longo discurso cujo tom indicava ter algo de uma reprensão. O discurso foi rematado, enfim, por aquela frase que, pronunciada numa voz um pouco mais alta, levou a mãe a passar os olhos pelos passageiros à volta com um ligeiro sorriso, como à espera de aprovação. Sentado à sua frente, um senhor idoso sorriu-lhe. Seguiu-se um longo silêncio. A filha mantinha-se num mutismo carregado. Sentada à janela, virou-se e seguiu o voo das gaivotas sobre as ondas da praia de Espinho. A mãe olhou também a praia que começava a encher-se de banhistas. Num movimento brusco, a filha, cravando os seus grandes olhos castanhos-claros, nos olhos da mãe, perguntou-lhe:
- Mas o que é isso da felicidade?
Pronunciada de forma tão directa e inesperada, a frase fez estremecer a mãe. Agitou-se-se no banco, descruzou as pernas e olhou a filha com um sorriso embaraçado. Sentia com desconforto os olhos da filha cravados nos seus, atentos e perscrutadores. Ergueu o rosto, olhou em redor, hesitante, como a pedir auxílio e nesse instante encontrou de novo o olhar compassivo do senhor idoso sentado à sua frente. Animada por aquele ar de simpatia e de cumplicidade, respondeu por fim:
- Ora, Rita, a felicidade é…. Atingir os seus objectivos, ficar feliz com isso, estar contente com a sua vida … percebes?
Seguiu-se um silêncio. A mãe, um pouco nervosa, observava a filha. Esta olhava em frente como a tentar compreender. E de novo, no seu jeito brusco, virou-se para a mãe e perguntou-lhe:
- E tu, és feliz?
- A mãe demorou uns longos segundos a responder. Por fim, disse:
- Sim … mas … comigo é diferente …
- Porque é que contigo é diferente?
- Porque … olha, chegámos, vamos - e pegando no braço da filha, arrastou-a para a saída da estação de Campanhã.

Escusado será dizer que a mãe da Rita é de certeza uma mulher cheia de boas intenções. Como qualquer boa mãe, quer que a sua filha seja feliz. Quando a filha lhe perguntou se ela própria era feliz, viu-se que a sua resposta não foi tão pronta como se podia esperar e a chegada ao destino salvou-a de certeza de uma situação embaraçosa. A mãe já aprendera certamente da vida que a casa da felicidade tem dias e que por mais bem exposta que esteja à luz, tem dias muito sombrios. Para não falar de algumas visitas do carteiro, pródigo, certos dias, em más notícias. A mãe da Rita tem idade para saber que a vida não é um longo rio tranquilo e que nele, a felicidade corre de mãos dadas com a infelicidade.
Apesar disto, mal pressente que o caudal impetuoso que corre nas veias da sua filha ameaça extravasar, ela activa as turbinas e ergue as comportas da sua barragem à “infelicidade” . De forma a calar os protestos da filha, ela acena então com o rebuçado da felicidade, a felicidade futura que a filha encontrará certamente depois de ultrapassar algumas dificuldades.
Como tantas boas mães, a mãe da Rita quer conduzi-la sem desvios à Ilha da Felicidade. Nela tudo deverá ser perfeito e adequar-se à sua ideia de Paraíso. Mas não é esta uma tarefa desumana, quase “diabólica”? Talvez por isto Rita se esquiva a esta “ordem” materna, adivinhando, na sua intuição juvenil, que a Ilha da Felicidade sonhada pela mãe está rodeada de uma água estagnada semelhante à de certas barragens, cujo grau de toxicidade é uma ameaça à vida. No seu olhar carregado, no seu severo mutismo, Rita intui que essa  ilha está muito provavelmente atolada num lodo que ameaça asfixiá-la. E, tão jovem ainda, recusa-se a pactuar com uma morte prematura, resiste a ser aprisionada na Ilha da Felicidade.

2. D.H.Lawrence: o Homem que amava ilhas

D.H. LawrenceSir Cathcart, um homem de 35 anos, gostava de ilhas. A tal ponto as amava que decidiu comprar uma e fazer dela a Ilha da Felicidade. Não nos espanta, aliás, que a sua escolha para criar um local reservado à felicidade tenha recaído sobre uma ilha: Longe de influências externas, uma ilha terá, à partida, mais hipóteses de fazer perdurar a felicidade. O idílio durou quatro anos, o que deixou este amante de ilhas bastante decepcionado, pois acreditara que a estadia no seu Éden seria mais duradoura.

O que terá falhado então, se estavam reunidas as condições para tudo dar certo: a natureza maravilhosa, o pessoal simpático de trabalhadores (feitor, pedreiro, carpinteiro, mordomo, etc), a presença de animais domésticos e um tempo maravilhoso? Por que razão foi tão efémera a Ilha Felicidade?
Podíamos adiantar desde já o seguinte: o que deitou tudo a perder foram precisamente as boas intenções deste homem amável, tão amável como a mãe da Rita: O senhor não era um tirano. Ah, não! Era um Senhor dedicado, sensível, bem parecido, que queria que tudo fosse perfeito e toda a gente feliz. Claro, devia ser ele a fonte dessa felicidade e perfeição.
Como a mãe da Rita, Sir Cathcart está impregnado de boa vontade. Mas infelizmente, o que é triste é que a boa-vontade generalizada cai sempre a quem a recebe como uma espécie de insulto; e, portanto, gera uma maldade especial (…) a boa-vontade generalizada não pode ser senão uma forma de egoismo.

Não espanta, pois, que o edifício comece a desmoronar bem depressa. O espaço exíguo propicia conflitos, geram-se ódios, falta dinheiro e um a um, quase todos acabam por abandonar a ilha. Sir Cathcart decide então partir para uma outra ilha mais pequena, acompanhado apenas do carpinteiro, da viúva e da sua filha. Mas chegado a esta nova morada ele já não é o homem entusiasta do início. Carece de anima, sente-se vazio, sem desejos. Seria a felicidade aquela espécie de ataraxia paralisante? Envolve-se com Flora, a filha da viúva, o que agrava o seu mal-estar, pois percebe que não passou de um acto mecânico, fruto das circunstâncias, sem que nele houvesse qualquer sentimento. Flora  engravida. Ele fica apavorado. Mesmo assim, decide casar e esperar o nascimento do bebé. Nasce uma filha e ele anuncia à mulher a sua partida.

Vai então viver para uma outra ilha (a terceira ilha), minúscula, inóspita, despojada de vegetação e de fauna. Está só. Abandonou o livro sobre flores que estava a escrever. Tornou-se um homem vazio de sentimentos, sem quaisquer ligações ao mundo. Ao ver transformado em cinzas o seu sonho da Ilha da felicidade, a espécie humana passa a inspirar-lhe uma verdadeira repulsa. Ao perceber que o seu ideal de felicidade não tinha sido partilhado- descobriu que a governanta o roubou- fica totalmente desorientado.

É este o destino de todos os que sonham com o Paraíso, que fazem tudo para o pôr de pé: ao verem o seu projecto desabar, sentem-se incompreendidos e amargos, podendo cair, como aconteceu a este amante de ilhas, numa terrível misantropia e azedume: não queria que se aproximassem dele. Não queria ouvir vozes (...) não queria árvores nem arbustos. Pareciam pessoas demasiado presentes. Mais não queria do que a ilha baixa e nua, no meio do mar azul pálido.

 Os poucos animais que lhe faziam companhia- as aves, uma gata e uma gaivota- desaparecem. A sua reclusão é total. A Ilha vai-se transformando num imenso caixão que uma prolongada tempestade de neve selará para sempre.

Afinal, o homem que tanto gostava de ilhas luxuriantes e de pessoas felizes, acaba enterrado numa ilha assombrada. D.H. Lawrence (1885-1930) parece ter razão quando afirma, neste belíssimo conto: quem quer que o mundo seja perfeito, tem de ter o cuidado de não gostar nem de desgostar a fundo de nada nem de ninguém.

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