Ler é Perigoso

O Encanto

1. Beleza/ Encanto
Quando se trata de elogiar alguém é muito raro ouvirmos é uma pessoa encantadora. Bonita, inteligente, talentosa (etc), mas encantadora é raríssimo.
Quando dizemos de alguém é bonito ou bonita, estamos a privilegiar os traços físicos, a figura. Não raro, claro, esta beleza física resulta de algo especial, aquele não sei quê que faz a diferença, um encanto, precisamente. Assim, se a beleza implica atributos estéticos precisos, o encanto é de ordem mais subtil: é uma luz que se espalha sobre nós, nos anima, convida à alegria e mobiliza os sentidos. Manifesta-se numa pluralidade de aspectos: o modo de falar, de ouvir, de olhar, de sorrir. Atrai-nos como um íman e exerce sobre nós um poder hipnótica capaz de fazer vibrar cordas esquecidas de cantatas antigas.

A beleza é uma promessa de felicidade, disse o escritor Stendhal (1783-1842). A concordarmos com ele- e será difícil discordar- poderíamos dizer o mesmo do encanto e concordar também com aqueles que o associam à beleza. No entanto, se a beleza, como o encanto, é um convite a uma aproximação, ela actua, muitas vezes, no sentido contrário. Atordoamento, tontura, palpitações, uma sensação de mal-estar, eis um dos efeitos que a beleza pode provocar naqueles que a contemplam.
Esta reacção ficou conhecida como o Síndroma de Stendhal. No livro Roma, Nápoles e Florença, o escritor francês descreve a sua experiência em Florença, ocorrida no ano de 1817: após uma visita à Basílica de Santa Cruz, ao sair para a rua sentiu-se mal, desorientado, tonto, extremamente perturbado. Este síndroma (assim designado em 1979) é também conhecido como o Síndroma de Florença. Concentrando esta cidade um número prodigioso de obras-primas, ela favorece, frequentemente, a ocorrência deste mal-estar.
A propósito da experiência do Stendhal na Basílica de Santa Cruz é interessante sublinhar que ela está intimamente ligada a uma experiência de solidão e de recolhimento. Será muito difícil imaginar algo de semelhante nos museus do século XXI, super-povoados, barulhentos, totalmente refractários a estas experiências místicas provocadas pela contemplação da beleza.
Sem estas reacções extremas sofridas por Stendhal na cidade de Florença, todos nós já experimentámos quer o efeito entusiasmante, quer o efeito paralisante causado pela visão de algo muito belo. Ora, o encanto não tem o efeito patológico que a beleza pode desencadear por vezes. Por isso ele pode existir em alguém considerado muito feio, isto é, o encanto pode prescindir da beleza física.

É este o tema do conto Riquete do Topete, escrito por Charles Perrault (1628-1705), o autor, entre tantos outros, do célebre Gato das Botas.

2. Riquete do Topete
Conta esta história o seguinte: Uma rainha deu à luz um bebé extremamente feio e mal feito. Nasceu com uma pequena poupa de cabelo no alto da cabeça, o que fez com que lhe chamassem Riquete do Topete ( Ed Estampa/ Clássicos de bolso, tradução de Manuel João Gomes e Luiza Neto Jorge). E porque neste mundo nem tudo são desgraças, a fada que assistiu ao nascimento anuncia uma boa nova: ele não deixará de ter um espírito fino e possuirá mesmo o dom de tornar espirituosa a pessoa que ele vier a amar. Não estranhamos, pois, que mal começou a falar, logo se pôs a dizer mil e uma coisas lindas e em todos os seus actos havia algo de espiritual que encantava toda a gente.
Entretanto, uns anos mais tarde nascem num reino vizinho duas princesas: a mais velha é de uma beleza rara, mas infelizmente de uma estupidez gritante; a mais nova é de uma fealdade assustadora mas dotada de um espírito vivo e inigualável. Com o tempo, a fama da beleza rara da princesa mais velha espalha-se. No entanto, quando os jovens príncipes por ela atraídos travam conhecimento com a princesa, a decepção é imediata e dela se afastam logo, desagradados com a sua conversa disparatada e incoerente. A feia, ufana, acaba por reunir à sua volta os desencantados com a irmã. E porque a vida é tantas vezes ingrata, com a idade também os seus defeitos aumentaram A mais nova tornava-se a olhos vistos, cada vez mais feia e a mais velha de dia para dia se ia tornando mais estúpida.
Um dia, a bela princesa foi desanuviar a sua triste sina num passeio pela mata. Riquete do Topete, que viajara até aquelas paragens seduzido pela fama que se espalhara sobre a beleza desta princesa, encontra-a, chorosa. Vê-la e apaixonar-se foi obra de uns instantes. Ela confessa-lhe a sua situação deplorável: Sou imensamente estúpida e é daí que me vem este desgosto de morte- diz ela a Riquete.
Riquete diz-lhe então que possui o dom de tornar inteligente a pessoa que ele vier a amar e, dada a sua beleza extrema o ter subjugado, confessa-lhe que está disposto a casar-se imediatamente com ela. Vendo, porém, a hesitação da princesa, diz-lhe: Vejo que tal proposta vos penaliza, o que não me espanta; dou-vos um ano inteiro para tomardes uma decisão. Marcam então um encontro para daí a um ano, no mesmo local.

Na posse do amor de Riquete do Topete, a princesa torna-se extremamente inteligente e surpreende todos com a sua inexplicável metamorfose. A mais nova, coitada, não passava agora de uma macaca deveras pouco atraente. Os pretendentes afluem; um deles, bonito, inteligente e rico é um partido irrecusável. O rei manifesta o seu contentamento à filha que, no entanto, indecisa, lhe pede um tempo para pensar. Vai então passear pela mata, na esperança de conseguir tomar uma decisão. Lá chegada, assiste a uma grande azáfama que indica a preparação de um banquete. Pergunta o que se está a passar, ao que lhe respondem que se trata da preparação das bodas do Príncipe Riquete do Topete, que se realizarão no dia seguinte. Atónita, lembra-se então do encontro de há um ano- entretanto totalmente esquecido- e nesse mesmo instante depara-se com o Príncipe. O diálogo que se segue entre os dois é uma pequena pérola. A princesa confessa-lhe a sua hesitação em cumprir o prometido (os seus argumentos valem a leitura deste conto) e ele pergunta-lhe então se à excepção da sua fealdade há algo nele que a repugne, o nascimento, o espírito, o humor ou as maneiras. A isto ela responde: de modo algum, aprecio em vós tudo o que acabais de referir. Ao ouvir isto, o Príncipe confessa-lhe o outro dom que lhe foi também concedido pela fada no dia do seu nascimento: se o seu amor for correspondido, ele transformar-se-á no mais belo homem de que há memória. Ao ouvir isto, a princesa declara-lhe o seu amor e a transformação dá-se.
A forma deliciosa com que Charles Perrault descreve esta metamorfose vale a pena ser lembrada. Com efeito, aos olhos da princesa, a sua corcunda tão-só lhe parecia o jeito de alguém que curvou as costas, e que em vez de o ver coxear horrivelmente como até ali, apenas notou uma certa inclinação no andar, e que até achava graça (…) os olhos dele, que eram estrábicos, lhe pareceram mais brilhantes; que o seu ar transtornado passou, a seus olhos, por um indício de um violento e desmedido amor e que, enfim, o seu enorme nariz vermelho lhe lembrava algo de marcial e de heróico.

3. Alarguemos o vocabulário
Temos aqui, claro, a moral do ditado quem feio ama, bonito lhe parece, o que o autor reconhece, ao afirmar: Há quem assevere que não foi por condão da fada, mas apenas o amor que operou tal metamorfose.
Sem dúvida que esta é uma das morais da história, que terá inspirado a redacção do conto A Bela e o Monstro, de Gabrielle Suzanne Barbot, escrito em 1740. Mas não só. Temos, também a força do encanto, de onde nasce, precisamente, o amor. É a força do encanto de Riquete do Topete que, ao conseguir “apagar” e suspender a sua fealdade física, espalha à sua volta um lastro de luz e de sedução irresistíveis.
Este encanto é, pois, o mistério da revelação de um tesouro escondido, a erupção de uma luz até aí invisível aos nossos olhos, o vislumbrar de um novo mundo.

Não será o encanto aquilo por que todos ansiamos? Cegos pelo realismo trágico das notícias e das estatísticas, não ansiaremos ser surpreendidos um dia, em passeio pelo bosque, por um Riquete do Topete que nos lembre que a seiva do encanto dormita no tronco das árvores que povoam a floresta mágica dos nossos sonhos? Descobrir o encanto é certamente uma forma de evitarmos ficar, como a princesa mais velha antes da transformação, burros que nem uma porta, condenados a proferir, como ela,  um chorrilho de asneiras.
Talvez seja raro encontrarmos uma pessoa encantadora. Mas talvez isto aconteça porque nos recusamos a alargar o vocabulário. Se as palavras que utilizamos agem sobre nós e sobre o mundo, porque não o enriquecemos de vez em quando com palavras frescas e joviais como ENCANTO?

UM COMENTÁRIO SOBRE ESTE POST To “O Encanto”

  • José Duarte Botas

    17 de Outubro de 2017 at 14:42

    Erudição literária,Utilidade vocabular,Lucidez emocional,Clareza descritiva.Texto muito elegante.

Deixe aqui o seu comentário: