Ler é Perigoso

  1. Cansado da vida universitária?

É professor Universitário? E que idade tem? Cinquenta anos, mais ou menos? Então diga lá: já amaldiçoou as fichas dos “objectivos, resultados de aprendizagem e avaliação de desempenho” que se acumulam em cima da sua secretária? Já se sentiu angustiado por não ter conseguido publicar o número de artigos exigidos pelo código das boas práticas? Já engoliu em seco ao ver que na sua distribuição de serviço constam disciplinas que nunca leccionou e que estão a anos luz da sua área de especialidade? Já se sentiu perturbado ao perceber- como se já não bastassem outras contrariedades-, que escolheu uma profissão bem singular: a única em que você tem todos os anos mais um ano e os seus alunos sempre a mesma idade? Já engoliu lágrimas amargas ao ver um colega menos habilitado passar-lhe à frente? Já teve vontade de lhe passar uma rasteira? Já chorou de raiva pela humilhação, desconsideração e pelas expectativas goradas? Já sonhou trabalhar numa casa mais acolhedora onde não corram pelos corredores aragens que provocam frequentes resfriados “na relação”? Já sonhou bater com a porta e correr desvairado e bêbedo de alegria como o prisioneiro que vê chegar o fim da pena? Então, tranquilize-se: é uma pessoa absolutamente normal.
É sinal que no fundo de si pulsa ainda uma alma ardente, um gosto pela vida e um desejo de alegria; é sinal que a sua boca gulosa ainda não se conformou com a dieta seca da burocracia; é sinal que o seu coração ainda não desistiu de se perder em noites de volúpia e baforadas de prazer e que no seu corpo correm, impacientes, desejos mais prementes do que “objectivos a atingir ou metas a cumprir”.

Mas como pessoa normal que é, teme, claro, que o corpo esmoreça quando se prepara para um novo colóquio; teme perder o alento dos amanheceres juvenis quando prepara mais uma aula; teme que os seus olhos já não consigam vislumbrar promessas de novas primaveras por entre as folhas dos livros do programa; teme que as suas pernas se verguem sob o peso da rotina e que a cada novo ano lectivo se extinga “aquele brilhozinho nos olhos” que ainda há pouco conseguia captar a atenção de uma sala cheia de ouvidos curiosos; teme, sobretudo, não ter mais a força para gritar a palavra basta com a alegre teimosia que anima o herói da Pastelaria, do poeta Cesariny:

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

2. Delirium Literarium
estudo_capa_completa_Delirium LitterariumNão sabemos se Ramiro Ataíde, professor de sociologia e herói deste romance (estreia de Joaquim Costa, professor de sociologia na Universidade do Minho), tinha muitos dentes brancos à mostra quando foi demitido da Universidade por neglicência: numas provas de mestrado de duas candidatas que tinham praticamente o mesmo nome - Carla Andreia e Joana Andreia-, Ramiro não só confundiu as teses como confundiu, também, o seu papel nas provas. Se atentarmos para os títulos das teses- O tratamento Ambulatório de Feridas Varicosas pelo Hospital de S.Marcos- Grau de Satisfação dos Utentes e O tratamento em Ambulatório de Pós- Cirurgias Varicosas pelo Hospital de S.Marcos- Avaliação de Desempenho- não podemos deixar de sorrir com o caricato da situação. Manter a sanidade mental por entre este emaranhado de feridas varicosas seria, isso si, prova de alguma loucura. Mas a junta médica psiquiátrica encarregue de estudar o desvario de Ramiro não é desta opinião e declara-o incapacitado. No entanto, a alegria de Ramiro é tal, que o leitor não pode deixar de fazer coro com os seus colegas quando dizem até parece que fez de propósito. Sabemos, no entanto, que o seu júbilo perante tal diagnóstico se deve ao facto de ter provado muitas vezes o leite azedo, talvez mesmo azedíssimo.

O leitor encontra-o uns anos mais tarde, envelhecido e doente mas bastante feliz: Sentia que, ao entrar na terceira idade, voltava a ser feliz. A infância fora-lhe boa, mas a idade activa não tinha sido mais do que uma sevícia lastimável.
Talvez porque essa vida activa na universidade não passou de um simulacro de vida. Mas onde a encontrar, então, essa vida por que aspira todo o seu ser, onde encontrar o travão que o impeça de continuar a esvaziar-se da sua substãncia como se assistisse ao lento secar da sua seiva? Como evitar o desencontro entre a pobreza da sua vida exterior e a incomensurável riqueza do seu mundo interior? Como impedir continuar a sentir que a sua vida está virada do avesso?
Precisou, pois, de encontrar um caminho que o reconciliasse consigo e o colocasse, de novo, “do direito”. Encontrou-o na Literatura. Ramiro Ataíde, como diz Stefan Zweig de Dostoievéski, refugia-se no eterno asilo de todos os descontentes, de todos os abandonados, no mundo tão variado e tão perigoso do livro.
Entra, assim, na literatura como num convento e segue-a como uma religião. O seu santuário será a biblioteca onde se torna um leitor bulímico. Por mestre, elege o célebre Quixote.
Como todo o amante de Literatura, não é discípulo de um só mestre. Nenhum missionário literário faz votos numa igreja monoteísta e assim, mesmo se o Quixote figura no pedestal dos seus afectos, são muito e variados os seus deuses: Llansol, Raul Brandão, Céline, Vila-Matas, Bernardo Soares, Vargas Llosa, Nabokov, Daniel Faria, Cesário, a lista é longa e variada.
Como Quixote, vai passar a morar na casa da ficção. Resistirá sempre ao insosso mundo prático com a mesma teimosia com que recusa o guizado de peixe com arroz e batatas preparado pela empregada, que troca, com deleite, por foie gras, vinho, uísque e cigarros. Se tem muito de Quixote, Ramiro revela também, na sua veia gourmet, uma costela de Sancho.
Como todos os que entram na literatura como numa religião, resiste a cumprir as regras dos hereges: tomar a medicação a horas, seguir uma dieta, dormir a horas normais, etc. Se, como defende Zweig o mundo do livro é perigoso é precisamente quando ele confere ao leitor uma capacidade de resistência  indomável. Ramiro resiste e é nesta teimosia que ele nos cativa. Guiado pelo seu mestre Quixote, a realidade circundante é a cada passo recriada e transfigurada, dando azo a cenas de um magnífico trágico-cómico; é o caso do episódio em que, inspirado pela leitura do Quixote, decide ir comprar mãos de vaca e se vê mergulhado numa cena burlesca imbuída de espírito quixotesco, a que não faltam insultos e pancadaria. Este episódio, como um outro que relata um passeio por Braga na companhia de vários amigos e uma prostitute, são os melhores testemunhos do espírito quixotesco do livro.
Se uma primeira leitura nos pode dar a impressão de estarmos perante um destino trágico, a lúcida aceitação do destino e uma espécie de alegre consentimento em encarar de frente a morte, anulam esta impressão.

Lemos, a dado passo, que a sua frieza para com os outros era a mesma que tinha para consigo. Não era egoismo nem maldade. Era descentramento, até de si. Estava pronto para escrever o Livro do Desapego. Neste piscar de olhos a Bernardo Soares ecoa também a voz de Bartebly, de Melville- presente na sua biblioteca: às sucessivas chamadas para a vida “real”, Ramiro responde, também, “eu preferia não fazer”. Percebeu, quando respondia “prefiro fazer”, que o resultado era uma sevícia  lastimável .

No Livro A vida eterna, Fernando Savater afirma que o segredo do livro de Cervantes reside nas palavras finais de Sancho: Ai, não morra vossa mercê, senhor meu (…) porque a maior loucura que pode fazer um homem nesta vida é deixar-se morrer sem mais nem menos, sem que ninguém o mate ou outras mãos lhe ponham fim que não as da melancolia.
A este propósito diz ainda Savater: Sancho compreende que todo o emprenho quixotesco consistiu numa prolongada batalha contra a necessidade mortal que angustia o homem: um não deixar-se morrer, um resistir à paralisia da rotina, do realismo que pouco a pouco aniquila.
Foi deste pesadelo que Ramiro fugiu, para prazer de nós, leitores, que na sua loucura encontramos, tal como na loucura de Quixote visto por Savater, uma demência salvadora da nossa humanidade.

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