Ler é Perigoso

1. Acredita no habitual ou no sobrenatural?

No Livro A vida eterna, Fernando Savater conta um divertido episódio passado numa feira do livro em Madrid: depois de ter autografado o livro a uma senhora, esta aproximou-se dele e perguntou-lhe, baixinho: “o senhor é crente”? Diz Savater que decidiu responder com outra pergunta, seguindo a táctica que a sabedoria atribui aos nossos irmãos galegos: “crente em quê?” A boa mulher imobilizou-se vagamente, consultou rapidamente o marido- que a contemplava com uma certa reprovação condescendente e prosseguiu: “ bem, não sei … no habitual”. Concluí: “certamente, senhora, claro que creio no habitual. No que não creio é no sobrenatural .
Ao fingir não perceber a pergunta, Savater, com o seu humor habitual, criou um divertido quiproquo. Na verdade há crenças e crenças e por isso ele exige que a senhora especifique a crença a que se refere. Acontece que para ela, como para a maioria das pessoas, o habitual tem a ver com a crença nalgum Deus ou religião (o sobrenatural). Mas para Savater o habitual parece ser algo de muito mais concreto- talvez algo como acreditar que a terra gira à volta do sol. Assim, ao responder que acredita no habitual, isto é, no concreto e demonstrável, Savater afirma não acreditar no sobrenatural, no transcendente, no que não pode ser provado. Se o filósofo espanhol se divertiu, imagino, com esta espécie de trocadilho, a verdade é que a maioria dos seres humanos quando confrontada com a questão “é crente”, pensa de imediato na crença religiosa e o seu pensamento situa-se, sem qualquer hesitação, no mundo do transcendente. Isto, certamente, por uma razão simples: afinal o concreto não precisa de ser acreditado, precisa apenas de ser testemunhado ou comprovado.

No entanto, a questão da crença não se move apenas- longe disso- no espinhoso território dos dogmas professados pelas diferentes religiões. Ela lida com um mundo mais difuso, irracional, misterioso, próximo da superstição, das crenças populares, um mundo profundamente íntimo, pessoal, que dispensa categoricamente o imperativo “ver para crer”.
É isto o que explica que nenhuma descoberta científica tenha sido capaz, até hoje, de destronar a apetência pelo irracional e pelo transcendente, tendo até, em parte, contribuído, por vezes, para a aumentar. Este mesmo livro de Savater o prova, ao revelar, no capítulo introdutório, um inquérito realizado em 1916 e em 1966 e dirigido a cientistas, no qual se perguntava: “acredita em Deus”? Nos dois inquéritos com 50 anos de intervalo, 40% dos cientistas respondeu afirmativamente.

Com efeito, o impulso- podíamos até dizer biológico- do ser humano, não o leva, apenas a espreitar pelo buraco da fechadura, mas a pôr-se em bicos de pés para perscrutar o horizonte. E nas noites límpidas de Verão, quando o observa, mesmo se é capaz de identificar algumas das estrelas e planetas, este conhecimento científico não o impede de sentir a sua pequenez e de se deixar seduzir pela imensidão misteriosa do firmamento. De certa forma somos todos espectadores felizes de um espectáculo de magia e não há nada pior do que termos sentado ao nosso lado um pretendente a sabichão que nos segreda no momento de maior suspense: “eu sei como isto se faz”. Quantas vezes, mesmo depois de nos explicar o funcionamento secreto do truque mágico, o nosso cérebro, resistente milenar à prosaicidade do realismo, parece esquecer depressa a explicação minuciosa, para nos fazer navegar, de novo, no arrebatador oceano dos mistérios da vida.

O Invisível atrai-nos como um íman e numa época mergulhada no Visível, tudo indica que o seu poder de atracção se exercerá com redobrado vigor. Talvez tenha sido esta intuição que levou o escritor André Malraux (1901-1976) a anunciar que o século XXI seria religioso. Terá ele intuído que estaríamos tão saturados de visível, de selfies, de fotografias, de imagens e de écrans, que precisaríamos de nos virarmos para o lado onde, vendo apenas com a alma, se prescinde dos olhos? Terá ele percebido que, ligados aos nossos écrans, precisávamos de nos Religarmos com o mundo de forma mais anímica, num confiante e calmo abandono às forças cósmicas e telúricas?
Se a questão da crença é crucial e incontornável, é porque lida com o sentido último da vida. Todo o ser humano procura dotar a sua vida de sentido, sendo muito diversas e pessoais as formas de o atingir e quantas vezes, para nosso infortúnio, o sentido parece difícil de encontrar ou perder-se pelo caminho! Nesses momentos seria bom lembrar as palavras de Victor Frankl ( 1905-1997) no livro O homem em busca de sentido. Diz este médico que, se o mais comum é não sabermos o que queremos da vida, ela, pelo seu lado, sabe o que quer de nós: a questão do sentido da vida pode na verdade ser posta ao contrário. Em última instância, o Homem não deveria perguntar qual é o sentido da vida, mas antes reconhecer que é ele quem se vê interpelado. Numa palavra, cada pessoa é questionada pela vida.

Ora, para que cada um de nós possa responder aos chamamentos da vida e aos seus desafios, uma atitude se impõe: é necessário parar, deixar de nos agitarmos para a podermos ouvir com atenção, não fazermos ruído para a podemos escutar. Talvez fecharmos os olhos, ficarmos em silêncio e aprendermos a vê-la com os ouvidos.

2. Dostoiévski: O Idiota
IDIOTADostoiévski é o homem dos ouvidos, diz Stefan Zweig (Três mestres, Balzac, Dickens, Dositoiévski). O imenso confessionário que “resume” a obra deste escritor russo provém duma acuidade prodigiosa do ouvido, diz Zweig. Svetlana Aleksandrovna, autora (entre tantos outros) do livro O Fim do Homem soviético, defende que um escritor é, sobretudo, um ouvido e a avaliar pelo imenso confessionário que constitui também a sua obra, é muito possível que se tenha inspirado neste seu antepassado.
Quem sabe ouvir bem, sabe também dar respostas mais acertadas. É esta a particularidade do Príncipe Lev NiKoláevit Míchkin, personagem central de O Idiota.

O romance começa com ele a chegar da Suiça onde passou largos anos a tratar-se da epilepsia. É ele o Idiota, uma espécie de criança grande, de ingénuo, com um lado de Quixote. A doença dotou-o de uma sensibilidade extraordinária que fez dele um ouvinte ímpar. A sua espontaneidade desarmante nunca é travada por qualquer preconceito e talvez por isto percebe o que mais ninguém percebe, vê o que mais ninguém vê, diz o que ninguém ousa dizer. Em pouco tempo torna-se o centro à volta do qual todas as outras personagens gravitam, sendo as suas opiniões sofregamente escutadas.
Uma das personagens com quem o Príncipe se cruza é Rogójin. Ambos estão apaixonados por Nastássia Filíppovna, apesar de formas totalmente diversas. Num encontro entre os dois, Rogójin pergunta ao Príncipe se ele acredita em Deus. O Príncipe responde-lhe contando-lhe alguns encontros recentes, relato minucioso que procura mostrar como a crença é um sentimento extremamente pessoal e tão íntimo que todas as explicações passam ao lado do essencial. No final do relato, conclui:

“A essência do sentimento religioso não tem nada a ver com raciocínios, nem com contravenções ou crimes, nem com ateísmos; há aqui qualquer outra coisa, e sempre haverá outra coisa; há aqui qualquer coisa em que os ateísmos sempre hão-de escorregar e sempre hão-de dizer o desnecessário”.

Esta simples palavra necessário resume de forma perfeita a crença. O Príncipe sabe que a crença lida com forças profundas, secretas, todo poderosas e por isso necessárias. Ele sabe perfeitamente que quem contraria estas forças do Sobrenatural se move num universo superficial: sempre que me encontrava com descrentes e lia livros que apontavam nesse sentido- diz a Rogójin- parecia-me que não falavam nem escreviam do que era necessário, embora aparentemente não estivessem a fugir do assunto.

Talvez seja esta Necessidade da crença que as palavras refrescantes do escritor francês Émile Zola ( 1840-1902) nos relembram: Na vida, é preciso ter uma fé robusta e não acreditar em nada.

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