Ler é Perigoso

René Magritte, Os Amantes , 1928

 

1. OS BENEFÍCIOS DA IGNORÂNCIA

 

VAN GOGH

Era eu uma criança quando ouvi esta conversa dos meus pais: olha, sabes que quando abriram o Zé para o operar, era tal o estado de gravidade que nem lhe tocaram?
Este amigo dos meus pais viveu mais vinte anos com uma saúde robusta e morreu de velhice.
Este Zé não foi informado, quando entrou no hospital, que tinha cancro, não ouviu da boca de ninguém: isto não tem cura, isto está negro, só um milagre o salvará.
Foi poupado à “verdade” e viveu.

Esse mundo não era pior nem melhor do que o nosso. Era como ele era, era assim…

Uma vez por mês parava à nossa porta um volkswagen amarelo: era o médico de família, como se diz hoje. Vinha inteirar-se da saúde de todos, enquanto bebericava um cálice de vinho do porto. Afável, nunca o víamos com o ar, hoje muito comum, de profeta do apocalipse.

Esse mundo não era pior nem melhor do que o nosso. Era como ele era, era assim...

As tragédias sussurravam-se, murmuravam-se, os desgostos silenciavam-se, por muitas razões certamente, mas por uma razão de peso: a caixa mágica chamada TELEVISÃO estava a dar os seus primeiros passos e por isso não havia ainda o hábito de explorar o dramatismo da vida.

Esse mundo não era pior nem melhor do que o nosso. Era como ele era, era assim…

Mas quantas histórias não foram possíveis porque ESSE MUNDO ERA ASSSIM.

Uma delas é-nos contada por JEAN GIONO, (1895-1970), escritor francês, no livro O homem que plantava árvores.

2. O HOMEM QUE PLANTAVA ÁRVORES

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VAN GOGH

Trata-se de uma história verídica. Passa-se na região do Sudeste de França, em 1913, tinha o autor dezoito anos.

Giono atravessava, durante o verão, uma região dos Alpes, inóspita e agreste. Já há dois dias que não bebia. Procurava desesperadamente água até que, já exausto, encontrou um pastor que guardava um rebanho de trinta ovelhas.O pastor deu-lhe água do seu cantil e depois levou-o a sua casa, onde lhe deu uma água deliciosa e fresca saída de um poço.

Este homem, Elzéard Bouffier, de 55 anos, depois de enviuvar e perder o seu único filho, deixara a quinta que tinha na planície e instalara-se sozinho na montanha:

era um homem de poucas falas, o que é uma característica comum nos solitários, mas imanava dele uma segurança e mesmo uma auto-confiança que pareciam deslocadas numa região tão inóspita.

Nessa noite partilhou a sua sopa com o jovem Giono que, depois do jantar, a fumar o seu cachimbo, o ficou a observar. O que fazia o pastor? Separava bolotas. De um grande saco, ia tirando bolotas e separava as boas das más. Quando pôs de lado cem bolotas perfeitas, foi dormir.

Este episódio deixou Giono intrigado e a presença calma e misteriosa do pastor levou-o a ficar mais uma noite. Na manhã seguinte perceberia a razão da separação das bolotas. Depois de ter levado o rebanho para as pastagens e deixá-lo entregue ao cão de guarda, Elzéard Bouffier dirigiu-se a uma parte mais alta e plantou as bolotas escolhidas de véspera. O que fazia ele? Plantava carvalhos! Veio então a saber que este homem, desde há três anos, quando se apercebeu que a vida da região estava ameaçada por falta de árvores, se dedicava a plantar árvores:

já tinha plantado cem mil, das quais vinte mil tinham nascido. Destas vinte mil ele contava perder metade por causa dos roedores ou dos imprevisíveis desígnios da Providência. Sobravam dez mil carvalhos que iriam crescer onde antes não havia nada(…) e se Deus lhe desse vida, dentro de trinta anos teria plantado tantos milhares de outras árvores que aqueles dez mil carvalhos seriam uma gota de água no oceano.

Plantava também faias e bétulas nos vales.

Depois desta curta estadia, Giono partiu. Começou a Primeira Guerra e foi soldado durante quatro anos. Terminada a Guerra, movido pelo desejo de espairecer e apanhar ar puro, pôs-se então de novo a caminho da região onde tinha estado quatro anos antes com o pastor.

A chegar de um cenário de guerra e de destruição, o espectáculo com que deparou deixou-o sem palavras: uma floresta de carvalhos embelezava a paisagem e com a floresta veio a água que faltava para dar vida à região que renascia agora das cinzas, com aldeias quase defuntas a regurgitar de vida. O pastor, entretanto, deixara as ovelhas e trocara-as por colmeias.

O espectáculo era impressionante. Eu estava literalmente sem palavras e, como ele não falava, passámos o dia inteiro em silêncio, a passear pela floresta. Dividida em três secções, tinha onze quilómetros de comprimento e media três quilómetros na parte mais larga. Quando pensamos que tudo aquilo nasceu das mãos e da alma deste homem- sem quasquer meios técnicos- apercebemo-nos que o Homem poderia ser tão eficaz como Deus noutras áreas além da destruição.

Mas como tinha sido possível continuar aquela tarefa durante os quatro anos atrozes da guerra? Como tinha ele sido capaz de continuar a plantar árvores como se nada se passasse? Disse-me ( e eu constatei-o), que nem se apercebera da Guerra.

Podíamos agora perguntar:

--- E se lhe tivessem dito que uma Guerra das mais mortíferas andava por ali perto e que seria melhor dedicar-se a outra tarefa?
--- E o que seria dele se todas as noites estivesse colado ao ecrã a ouvir relatos de tragédias sucessivas? Será que a sua confiança não teria sido abalada e, com ela, a sua motivação?
--- E que reacção seria a de Elzéard Bouffier se ouvisse de um militante aguerrido que uma época de guerra precisa de pessoas capazes de participar, de tomarem partido e de combaterem? O que teria ele feito? Teria continuado a embelezar e a dar vida a uma região moribunda?

Acontece que muito tempo depois rebenta a segunda Guerra mundial. Sobreviveram, o antigo pastor e a sua floresta, a mais uma época de destruição em massa?
Apesar de terem sido cortados muitos carvalhos, o pastor não viu nada disto. Por essa altura ele estava a trinta quilómetros dali, continuando tranquilamente a sua tarefa, ignorando a Guerra de 1939 como tinha ignorado a Guerra de 1914.

Apesar de muitas e várias adversidades ao longo da sua vida de plantador de árvores - milhares de árvores morreram e foi obrigado a trocá-las como aconteceu com plátanos, por exemplo- este atleta de Deus, nas palavras de Giono, continuou sempre a exercer a sua paixão: dar vida a uma região em riscos de morrer. O mais curioso é que toda a gente julgava tratar-se de uma floresta natural pois o antigo pastor, como todos os que se dedicam a uma paixão profunda e verdadeira, não gostava de falar muito dela nem de se vangloriar. A sua obstinação, o seu silêncio e a sua modéstia eram uma só e a mesma coisa.

A paisagem moribunda e degradada foi transformada por este homem numa paisagem verdejante, fértil, alegre, povoada de pessoas cheias de esperança e vontade de a melhorar. Uma região antes povoada de mulheres a alimentarem rancores em lume brando, onde tudo era pretexto para uma rivalidade, desde a venda de carvão até ao banco em que se sentam na igreja era agora, por obra deste homem, quase um jardim do Éden. Diz Giono, maravilhado:

Quando penso que um único homem, reduzido aos seus simples recursos físicos e morais, foi suficiente para fazer surgir do deserto esta terra de Canã, acho que, apesar de tudo, a condição humana é admirável. Mas, quando junto a isto a sua firmeza, a sua resolução, a sua generosidade e a grandeza da sua alma, necessárias para fazer esta transformação, sou tomado de um imenso respeito por este velho camponês inculto que realizou esta obra digna de Deus.

Elzéard Bouffier viveu num mundo bem mais terrível do que o nosso. Mas a ignorância salvou-o.

Talvez esta ignorância nos fosse por vezes benéfica, quem sabe se não nos daria mais motivação e  mais incentivo.

Talvez esta ignorância servisse de estímulo a muitos dos hiper-doutorados, graduados, formados e especializados governantes e responsáveis pelo país que, ano após ano, apenas conseguem deixar arder a nossa floresta.

Talvez eles precisem,

talvez precisemos todos de

---   mais paixão,
---   mais silêncio,
---   menos (in)formação
e de

--- ver menos televisão
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Jean Giono, O homem que plantava Árvores, 2010, tradução de Sofia Norton, ilustrações de Vanessa Capela, Far Far away Books.

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