Ler é Perigoso

Georges Seurat, Um banho em Asnières (1884)

1. EU SÓ QUERO SER FELIZ! 

O que desejas para 2015?

Ser feliz.
O que desejas para os teus filhos, para 2016?
Que sejam felizes.
E para Portugal?
Mais felicidade

SER FELIZ, alguém tem alguma objecção? Imagino que não.
Mesmo para os que têm a mania de vociferar contra os lugares comuns, esta frase soa bem.

Por variadíssimas razões, mas sobretudo por uma, muito concreta: como nada na vida existe sem o seu contrário- bem/mal, feio/bonito, quente/frio, doce/amargo, etc.-, desejar a felicidade implica, sobretudo, afastar a infelicidade. De todas as formas, por todos os meios, custe o que custar.

Por detrás da voz sorridente e doce que deseja e aspira (para nós e para os outros) àFELICIDADE, ouvem-se sussurros que nascem nas entranhas, sobem pelo corpo acima e se desatam na língua, numa súplica: por favor, afastem de mim a infelicidade, para longe, longe… muito longe.

-- Temos então um desejo= quero ser feliz
-- Que traduz um medo= ser infeliz

Mas que significado terão estas palavras- feliz, infeliz- em concreto, se a felicidade não só é subjectiva, como muda a todo o momento? Como diz Sancho Pança, neste tráfego da vida nada é coisa assente.

2. AFINAL A FELICIDADE PODERÁ ESTAR  AO NOSSO ALCANCE

renoir-paintingImaginemos agora outras respostas ao questionário inicial e algumas pistas para a felicidade poderão começar a desenhar-se.

- O que deseja para 2016?
-  Mudar de profissão.
- O que deseja para os seus filhos para 2016?
- Para o Luís, que acabe de uma vez por todas o 12º ano, que já chega de brincadeiras. Para a Teresa, que se fixe num namorado, que estou cansada de a ver mudar de namorado como quem muda de camisa e para o Lucas, que consiga um bom lugar no campeonato de natação, que é a sua paixão.
-E o que deseja para Portugal, para 2016?
-Olhe, eu vivo em Lisboa e pedia ao Presidente da Câmara para arranjar os milhares de buracos da cidade.

No primeiro questionário, a felicidade assemelha-se a um daqueles reclames que os aviões transportam no Verão ao longo das praias, tão chamativos quanto inacessíveis. Ou a um balão enorme e colorido que as crianças puxam por uns instantes numa correria alegre e risonha, certas de que o têm bem agarrado, mas que a certa altura lhes escapa das mãos, ficando a vê-lo subir e desaparecer pelos ares, pasmadas e tristes.

É algo tão vago, que nos condena a um sentimento de frustração ou de eterna espera. Como os jogadores semanais do euro-milhões, que vão deixando os anos amarrotar-se no chão, por entre sonhos desfeitos.

No Segundo questionário, a Deusa da Felicidade já não parece esfumar-se pelos céus, risonha e trocista, deixando-nos de mãos a abanar.Pelo contrário, mais se assemelha a uma deusa benevolente, pronta a ajudar-nos no que for preciso, em tarefas concretas, ao nosso alcance, se a isso nos dispusermos: arranjar um novo trabalho, ter um bom lugar num campeonato, acabar o 12ª ano e podíamos continuar:  fazer um curso de inglês, de culinária, conhecer melhor a nossa História, fazer mais exercício físico, etc, tarefas que, depois de realizadas, têm imensas hipóteses de nos dar alegria, bem-estar e felicidade. Muitas vezes, aliás, basta abandonarmos tarefas ou situações que nos contrariam demasiado.

Que conclusão podemos tirar do que foi dito? Que devemos fugir como diabo da cruz das frases/palavras robóticas.

3. FUJA A SETE PÉS DAS PALAVRAS/ FRASES ROBÓTICAS

coca colaVivemos de frases feitas, a vida é assim feita. Uma puxa a outra e outra e mais outra e quando damos conta estamos nelas atolados.

 Chegou o momento do pensamento positivo, é agora que vou viver a minha vida, se quero ser feliz tenho de ser eu próprio, preciso de crescer como pessoa para ser feliz.   Eu só quero ser feliz, tenho esse direito, não?
Esta frase parte de um pressuposto: alguém me impede de ser feliz. Masnão sejamos hipócritas, sabemos bem que podíamos dizer de nós o que disse o escritor e político francês Michel de Montaigne (1533-1592), quando, ao chegar a Saragoça, exclamou: cheguei a Saragoça sem qualquer inimigo que não fosse eu próprio, o que já não é pouco.

Mas como é difícil reconhecê-lo! Reconhecê-lo obrigar-nos-ia a mudar muitas atitudes e não é tarefa fácil. Então, lá nos socorremos da frase- eu tenho direito a ser feliz- isto é, se não o sou, não é culpa minha, é apenas porque alguém, alguma coisa me impede de o ser.

Sem sabermos, sem querermos, sem o desejarmos certamente, cá estamos a cair na armadilha dos FUNCIONÁRIOS DA FELICIDADE, ansiosos por picar, todas as manhãs, o ponto da felicidade!

MAS a felicidade não faz parte dos direitos adquiridos. Se assim fosse, já teríamos assistido, certamente, a reivindicações e manifestações a reivindicarem a FELICIDADE. E se não assistimos a este tipo de reivindicações, isto terá a ver com algo muito difícil, precioso, tarefa de uma vida inteira ( e na verdade uma vida não deve chegar): para sermos felizes temos de conquistar todos os dias mais um pouco de liberdade interior. E sobre isto fala-nos Séneca, no seu texto, Da vida Feliz.

4. SÉNECA: NÃO É PORQUE A MAIORIA ESTÁ ERRADA QUE ELA

TEM RAZÃO

Da vida feliz (Relógio d’Água Editores, 2008, Tradução de João Forte).

seneca e epicuroSéneca (4a.C-65a.C), o célebre tutor do imperador Nero, foi um poeta, filósofo, dramaturgo político, um dos homens mais célebres e ricos do seu tempo. Profundamente marcado, desde a juventude, pela filosofia estóica, este texto é um testemunho desta influência.

Se a filosofia é a procura de uma arte de viver bem (philo-amor/ sophia-sabedoria), a filosofia estóica provou a sua eficácia em momentos difíceis da sua vida e, sobretudo, no seu fim terrível, ao ajudá-lo a encarar serenamente a ordem de Nero para se matar, quando o imperador, vítima de uma tentativa fracassada de assassinato, suspeitou de Séneca como um dos conspiradores. Séneca estava já de alguma forma retirado da vida pública e desde 62 vivia nos arredores de Roma.

É nesse periodo que escreve este texto, onde expõe detalhadamente os princípios da filosofia estóica, que foi buscar ao fundador do estoicismo, Zenão de Cício ( 334 a.C- 262 a. C) e a Epicuro ( 341 a.C-270 a.C).

Todos já ouvimos, na escola, em conversas de café, aqui e ali, este princípio estóico: viver de acordo com a natureza. A palavra natureza, na filosofia estoica, reveste muitos e variados sentidos. Um deles, o que nos interessa agora, está relacionado com a nossa natureza interior.

O preceito estóico mais importante tem a ver com a capacidade de forjarmos uma convicção interior- baseada num profundo auto-conhecimento- tão forte que nos permita não sermos afectados pelo que os outros pensam de nós. No limite, temos esta situação: a sociedade acusa-me de um crime mas eu estou inocente. Se a minha consciência não me acusa, a acusação que impera sobre mim é-me indiferente ( exactamente o que aconteceu a Séneca).

Para um estóico, a felicidade é, pois, independente dos governos, regimes, situações históricas ou de qualquer outro tipo. Para Séneca e os pensadores estóicos, ela só é possível quando o profundo conhecimento de nós próprios consegue demarcar-nos da opinião da multidão, da maioria.

Começa assim, o texto Da vida Feliz:

Toda a gente, meu irmão Gallion, deseja uma vida feliz; mas quando se trata de ver claramente aquilo que a torna assim, é a confusão total. (…) É preciso, pois, começar por definir bem o objecto do nosso desejo, e examinar depois com cuidado o modo mais rápido de nos dirigirmos para ele; se a via é correcta, dar-nos-emos conta, durante a própria viagem, dos progressos feitos todos os dias, e da nossa aproximação de um fim para o qual nos impele o desejo natural.

Neste ponto reside o problema. Porque o desejo natural está muitas vezes obscurecido pelo desejo dos outros e defini-lo é uma tarefa épica. Mesmo se queremos sondá-lo, já não somos capazes, pois a vida dilui-o de tal forma na massa informe dos desejos da multidão, que já nem sabemos nem quem somos, nem o que queremos. Por isso, diz Séneca:

enquanto errarmos por aqui e por ali sem guia, obedecendo aos rumores e aos gritos discordantes dos homens que nos chamam em direcções opostas, usaremos uma vida que os nossos enganos tornam breve (…).

Escolher um bom guia é, pois, fundamental, já que a vida não é uma viagem qualquer; a viagem da vida, diz Séneca, difere das outras ao não ter nenhum trajecto previamente traçado; por isso, sendo enorme o risco de nos perdermos, o guia deve ser criteriosamente escolhido e o conselho que nos dá para o encontrar é fugir da multidão:

A primeira a coisa a fazer é não seguir como uma ovelha, o rebanho das pessoas que nos precede, pois nesse caso encaminhar-nos-íamos, não para onde é necessário, mas para onde vai a multidão. Nada nos arrasta mais para grandes males do que a conformação à voz pública, o pensar que o melhor está ligado ao assentimento do grande número, de tal modo que vivemos, não de acordo com a razão, mas por espírito de imitação.

E atente-se nesta saborosa imagem que nos dá Séneca do caminhar na multidão:

Daí resulta este amontoado de pessoas que desabam umas sobre as outras. Um tal estado de coisas surge quando os homens estão demasiado apinhados, e se comprimem, e se comprimem mutuamente, e ninguém cai sem arrastar o outro na sua queda.

Voltando aos nossos desejos e votos diários de felicidade, não estarão as frases que pronunciamos todos como carneiros a desabar por cima de nós, a apinhar-nos, a comprimir-nos, a evitar o verdadeiro segredo da felicidade, que consiste, segundo Séneca, em preferir um bem que possa sentir a um bem que possa expor? Se conseguirmos conquistar alguns destes bens, à pergunta “o que deseja para 2106”, responderíamos certamente como o escritor francês MARCEL PROUST (1871-1922) quando interrogado sobre o seu sonho de felicidade: Tenho medo de o destruir, ao pronunciá-lo.

 

E se quiser espreitar o Guia de bordo, clique aqui

 

 

2 COMENTÁRIOS SOBRE ESTE POST. To “Eu só quero ser feliz, bolas! É pedir muito? (Séneca)”

  • Felisberto

    10 de Janeiro de 2014 at 17:27

    Gosto!
    Se a felicidade é rara, não poucas vezes destruímos as nossas hipóteses de felicidade.
    “O inferno somos nós” dizia Carlos Amaral Dias.

    • Conceição Carrilho

      10 de Fevereiro de 2014 at 21:41

      Pois é, e ele tem razão. E uma das coisas boas de “enclassicar” e não envelhecer ( palavra que o LEP rejeita, como sublinhou no artigo “Não tenha medo de envelhecer) é aumentar as nossas hipóteses de encontrarmos o paraíso.

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