Ler é Perigoso

 

1. VISITA AO LOUVRE VER A GIOCONDA

 

Quantas pessoas leva todos os dias ao Louvre o sorriso da Gioconda?
Centenas, milhares?

Por que razão?
Porque é um dos maior icones da pintura ocidental?
Um mito que, como tantos outros mitos, embeleza a vida?
Porque a assinatura Da Vinci nos faz entrar no Louvre cheios de expectativa?

Chegada ao Louvre: CONTEMPLAR / VER
A multidão impede-nos de “chegar” à Gioconda. A agitação, a excitação das câmaras, as palavras sussurradas, o nervosismo espalhado pela sala, tudo isto faz-nos sentir de imediato uma decepção.
A decepção resulta, essencialmente, de não podermos CONTEMPLAR, apenas VER.

A diferença é enorme: Contemplar implica deixar-se envolver pelo que se vê, deixar que o objecto contemplado ( paisagem, pessoa, flor, animal, reflexos de luz, etc) nos envolva sensorialmente, ao ponto de adormecer por momentos a nossa actividade intelectual e racional. O que contemplamos envolve-nos totalmente pelos sentidos: cheiros, emoções, cores, etc. Implica, assim, disponibilidade, tempo e silêncio.

No Louvre, não Contemplamos a Gioconda, Vemos (fotografamos) a Gioconda, isto é, damos uma olhadela ao quadro, a olhadela possível num contexto quase sempre adverso. No "Ver", a actividade sensorial é esmagada pela intelectual: vimos, está lá, ok, está visto, já podemos dizer que vimos.

MUSEUS= SANTUÁRIOS?

Hoje é comum dizer-se que os museus são os novos santuários, as igrejas modernas. Poderiam ser se ali fossem crentes dispostos a mergulhar num estado contemplativo e introspectivo, em emoções capazes de os fazer sair diferentes do que entraram: mais serenos, felizes, aliviados, motivados. Mas não é o caso.
No museu, VEMOS mas destituídos de qualquer crença sobre as possibilidades do objecto visto poder influenciar ou alterar o nosso estado de espírito. Quando muito, apenas a satisfação de termos Visto, de podermos anunciar aos amigos que Vimos. Nestes novos santuários a Contemplação é difícil, senão mesmo impossível.

Assim, os seres intelectuais e racionais em que nos tornámos vão ao Museu como a uma loja. Vamos lá consumir uma obra de arte. Caçar mais um troféu. Como prova desta caçada cultural, compramos, no final da visita, uma caneca, um postal ou uma caneta, rumo ao próximo safari cultural.

É esta também a razão da decepção: porque antes de entrarmos no Louvre tínhamos ainda talvez a secreta esperança de alguma epifania; não a de S.Paulo a caminho de Damasco, mas uma revelação qualquer, por mais pequena que fosse. Mas… nada, nada de nada…. saímos como entrámos, iguaizinhos; por vezes, pior do que entrámos: cansados das multidões, das câmaras fotográficas, dos turistas, esgotados e esfomeados. Raramente satisfeitos. Por vezes, frustrados.

No caso da Gioconda, por uma outra razão ainda: o quadro é mínimo!O retrato é tão pequeno! Tem 77x 53cm, apenas! E nós, que na nossa imaginação o tínhamos pintado de um tamanho principesco! Afinal… é mesmo pequeno, não imaginava!

Como pode uma obra tão GRANDE ser tão PEQUENA? Todos sabemos que o homem não se mede aos palmos, mas, mesmo assim….

No café, depois da visita ao Museu, mesmo se ninguém a ousa confessar abertamente, a perplexidade é geral: mas por que razão este retrato tem feito mover montanhas? Por que razão sobre ele se escrevem e continuam a escrever livros que enchem bibliotecas sem fim pelo mundo inteiro? Onde está a mística?
Após uma conversa sobre este tema espinhoso, chega-se a uma conclusão: a mística reside no SORRISO/ OLHAR ENIGMÁTICO.

 

2. O ENIGMA ( do sorriso)

GiocondaEsta é a particularidade da Gioconda: seja qual for a nossa posição face ao quadro, o olhar da Gioconda não nos larga, segue-nos, persegue-nos e envolve-nos. Se o leitor ainda não fez esta experiência pode fazê-la em casa, com uma reprodução do quadro. Seja qual for a sua posição face à Gioconda, verá que ela tem sempre os olhos fixos em si.

Muitos são os factores que tornaram este quadro lendário e mítico. Por exemplo:

a) Leonardo da Vinci, que pintou o quadro entre 1503 e 1508, nunca se separou dele, acabando por nunca o entregar a Francesco del Giocondo que o tinha encomendado para oferecer à sua jovem esposa, depois de ela lhe ter dado dois rapazes. Da Vinci acabou-o para si próprio.

b) Depois de O homem que ri de Antonello de Messina ( pintor siciliano que viveu entre 1430 e 1479) é o segundo sorriso da história da pintura.

c) De qualquer maneira, Francesco del Giocondo nunca poderia ter aceite este quadro pela simples razão de que este sorriso era terrivelmente escandaloso, na época. Era um quadro indecente: uma jovem mãe a sorrir para o espectador? As convenções não aceitavam tal pose no início do século XVI ( segundo o historiador de arte Daniel Arasse, no livro Histoires de peintures).

Mas, para lá destes e de muitos outros factores que imortalizaram este retrato, o que permanece, o que fica, o que nele é central é o ENIGMA do sorriso.

Acontece que nos dias de hoje já não somos tão sensíveis a este sorriso, como o seriam os espectadores do passado. E daí também o espanto do espectador moderno perante a fama por ele alcançada.

Por que razão este sorriso já não nos toca tanto? Por estarmos cansados de o ver? Ou por uma outra razão?
Porque, também, a época actual considera os sorrisos enigmáticos um pouco fora de moda; do que gostamos mesmo, hoje em dia, é do Sorriso Pepsodente.

3. O SORRISO PEPSODENTE

sorrisoO Sorriso Pepsodente é um filho directo da publicidade e dos media.

Comparemos os álbuns de fotografia dos nossos antepassados com os nossos: as poses solenes e austeras estavam longe de imaginar virem a serem trocadas por enxurradas de sorrisos escancarados.

A pose austera traduzia, de forma perfeita, a rigidez de um mundo assente em hierarquias e regras. Quem risse desbocadamente não era pessoa recomendável. Muito riso pouco siso. Daí o escândalo da Gioconda. De certa forma, até meados do século XX perdurou esta ideia do riso público ser inconveniente.

A sociedade mediática alterou este panorama. As suas pastas de dentes, publicidade e, mais, recentemente, a Medicina-Mercado-Dentário, que contorna eficazmente toda a dentição menos perfeita e e menos branca, rasgaram sorrisos como auto-estradas: amplos, limpos, directos.

 NADA A ESCONDER: FIM DO LOBO MAU
O sorriso enigmático, esboçado e recatado dos nossos antepassados estava recheado de inúmeros mistérios: troça, desafio, recato, pudor disfarçado, medo, teimosia? Parecia impregnado de mensagens secretas e sibilinas, como se nos sussurrasse ao ouvido: Quantos segredos eu devo calar! Quantos mistérios é melhor não revelar. Quantas confissões devemos silenciar. Se eles soubessem… se imaginassem…

O sorriso Pepsodente diz: olhem bem para mim. Estou de bocarra aberta, porque SOU FRANCO, gosto de DIZER TUDO O QUE ME VAI CÁ DENTRO.
NADA TENHO A ESCONDER: Nada nas mãos, nada nos bolsos, nada no chapéu, vejam se minto, nada em sítio nenhum.
Não tenho a boca aberta para vos comer melhor, não, descansem. É só para vocês me verem melhor, por fora e por dentro.
Não acreditam? Olhem bem para o meu sorriso: eis a prova cabal de que não quero o vosso mal. Sou apenas assim, frontal, gosto da Verdade, não me levem a mal.
Sim, tenho dentes brancos, de uma imaculada brancura porque sou avesso a dissimulações e dentaduras.
Sim, claro, o rosto é o espelho da alma e os dentes a luz do meu espírito.

O sorriso Pepsodente é exigente: tem sempre à mão um detector de mentiras e torce o nariz às zonas obscuras e sombrias.
Assim, os políticos sorriem, os pais sorriem, os filhos sorriem, os netos sorriem, os avós sorriem, os actores sorriem, o mundo inteiro entrou na Missão Sorriso. A Utopia na Terra! Todos almas gémeas de uma transparência sem manchas. Um mundo do qual foi banida
a graça do sorriso misterioso,
a sensualidade do sorriso esboçado,
e os mistérios que nele se escondem
COMO NO SORRISO DE GIOCONDA

 

4. DE VOLTA AO LOUVRE

-il-sorrisoUm dos elementos do grupo que visitou o Louvre, estava à noite no hotel sem conseguir dormir.Folheou uma revista, e no final da leitura, ainda sem sono, ligou a televisão. Arregalou os olhos e os ouvidos ao ver anunciada uma visita guiada à Gioconda por um famoso historiador de arte, Daniel Arasse, uma visita excepcional, nessa noite mesmo. Ia começar dentro de 30 minutos. O tempo de se vestir, pular para um taxi e estar no Louvre, foram minutos.

E o que ouviu deste historiador deixou-o abismado:

A Gioconda é um dos meus quadros preferidos. Para gostar dele precisei de mais tempo do que os cinco anos que Leonardo da Vinci precisou para o pintar. Precisei de vinte anos para gostar da Gioconda. Falo de gostar verdadeiramente, não só de o admirar.

Depois, Daniel Arasse começou a descrever o quadro e chamou a atenção para uma série de pormenores intrigantes e outros que o visitante não tinha notado, nem sequer sonhado que estivessem lá: o braço da cadeira em que está sentada é a única prova da sua existência, não vemos as costas da cadeira, o que é de estranhar. Outro aspecto para o qual chamou a atenção é para a paisagem que enquadra a Gioconda: rochedos, terra e água. De humano, só uma ponte, mas sem rio que se veja. E que sentido terá a ponte numa paisagem despida de pessoas, numa paisagem onde não há vestígios de vida, nem sequer uma árvore? Que ligação, pergunta o Historiador de arte, poderá haver entre a Gioconda e a paisagem? O que levou a colocar uma jovem mãe no meio de uma paisagem desoladora?

Com efeito, continuou o historiador, o que me fascina é o que liga profundamente a figura à paisagem do plano de trás. Se o olharem bem, verão que ele é incoerente, isto é, na parte direita do ponto de vista do espectador, temos montanhas muito altas e mais em cima um lago, liso, como um espelho, que cria uma linha de horizonte muito elevada. Ao contrário, na parte esquerda, a paisagem é muito mais baixa, e não há forma de conceber a passagem entre estas duas partes.

Ora, segundo este historiador, é precisamente o sorriso que estabelece a ligação entre as duas partes do quadro, pois a Gioconda é a graça de um sorriso. Ora, o sorriso é efémero, dura apenas um instante. E é este sorriso da graça que faz a união entre o caos da paisagem que está atrás, isto é, do caos passamos à graça e desta ao caos. Trata-se, pois, de uma meditação sobre uma dupla temporalidade, e nós estamos ali, no centro do problema do quadro, visto que ele é inevitavelmente uma meditação sobre o tempo que passa (…) Passamos do tempo imemorial do caos ao tempo fugitivo e presente da graça (…) O tema do quadro é o tempo e é por esta razão que a figura roda sobre si.

( Traduzido do francês Histoires de peintures, Folio, 2004)

As palavras de Daniel Arasse tiveram um efeito desconcertante no visitante. O sorriso da Gioconda, uma meditação sobre o tempo? Será o tempo, que paira no quadro num movimento perpétuo que parece animá-lo, o maior dos enigmas do ser humano, da sua vida na terra?
De regresso ao hotel, enfiou-se na cama. Já metido nos lençóis sentiu uma leve carícia que o envolvia, ligeira, aveludada, doce, um sorriso convidativo a um sono giocondisíaco.
De manhã, os amigos não o reconheciam: no rosto brilhava um sorriso bem enigmático.

(Se quiser, pode consultar o Guia de Bordo)

 

2 COMENTÁRIOS SOBRE ESTE POST. To “O QUE PENSARÁ A GIOCONDA DO SORRISO PEPSODENTE? (DANIEL ARASSE)”

  • Rita Santos

    3 de Fevereiro de 2014 at 15:46

    Durante tanto tempo sem saber o porquê da fama deste quadro, finalmente percebi o mistério deste enigma, tão curioso!
    Obrigada e parabéns pelos artigos publicados.
    Temas muito interessantes e motivantes para uma vida melhor, cheia de sorrisos e de sonhos giocondisíacos.

    • Conceição Carrilho

      3 de Fevereiro de 2014 at 16:36

      Daniel Arasse desvenda muitos mais enigmas, tão apaixonantes como este, da Gioconda.Obrigada.

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